Carlos Araújo

PORTO VELHO – Em pleno regime militar – com generais, coronéis e outras patentes ditando ordens em todos os setores do país -, uma figura, singular, muito despojada, cabelos e barbas, chamava atenção no então Novo Eldorado Brasileiro por destoar completamente do figurino político da época.

Essa figura era o jovem sonhador Wiliam José Curi, engenheiro agrônomo formado em São Paulo e pós-graduado em Minas Gerais que, na década de 1970 só queria um lugar bem distante para ir – quem sabe algum lugar na África, mas acabou vindo para a Amazônia. Com um amigo, colocou algumas roupas num fusquinha e, sem nenhum dinheiro no bolso, encarou a aventura de percorrer uma BR-364 de terra batida de Campo Grande (MS) até Porto Velho.

“Comíamos o que nos ofereciam e dormíamos aonde era possível”, relembra  William Curi, agora um senhor de 70 anos, que contempla a linda família que formou do casamento com a professora Rosa Volpato. Do casamento nasceram Paulo Curi Neto – o primogênito, atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Estado; a odontóloga Juliana Volpato Curi Paccini e as advogadas Melissa Volpato Curi e Isadora Volpato Curi.

Apesar da figura imponente, com quase dois metros de estatura, mais cabelos longos e barba, dava a impressão de ser uma figura quase inacessível, sobretudo pelo respeito e pela forma como era tratado pelos governantes, Curi é, na verdade, uma pessoa extremamente humilde e até introspecto. Uma pessoa de bom coração.

Na história recente de Rondônia, especialmente o período que vai do início dos anos 1970 até o fim do século passado, sem qualquer dúvida há muitos nomes que se destacam em todas as áreas, pessoas que deram contribuições importantes para que o Estado viesse e se tornar uma Unidade que se destaca no universo federativo brasileiro.

A entrevista de hoje do www.expressaorondonia.com.br é de um desses personagens, o engenheiro agrônomo William José Curi, que chegou em Porto Velho com seu diploma, em 1972. Uma figura típica da juventude daquela época, barba grande, cabelos compridos e, com certeza, vontade apenas de seguir em frente, mas, como tem acontecido com muitos que aqui vieram apenas “passar uma chuva” e que, como se diz em casos como o dele, “beberam água do Madeira” e ficaram.

Logo após, o jovem agrônomo, com toda característica dos tipos da época, era um “hippie”, seu visual lembrava muito o estereótipo de Jesus – o Messias – e isto lhe valeu a alcunha que, mais tarde, tornou-se o nome pelo qual era mais citado, inclusive por governadores: “Cristo’. Nesses 47 anos de Porto Velho, o resultado do trabalho de Curi, ou Wiliam como é chamado em casa, ou mesmo “Cristo”, mostrou que mais do que para ele mesmo os resultados foram muito melhores para Rondônia e sua gente.

Aqui participou de forma ativa do pré-projeto e do projeto de organização do Estado, exerceu funções as mais diversas, em todas apresentando resultados mais que positivos, foi responsável por dois grandes projetos de financiamento para Rondônia, o Polonoroeste e o Planafloro, deputado estadual. A lista de cargos ocupados por Curi é grande, muito respeitável e positiva, para o Estado que surgiu em dezembro de 1981, mas que, ao contrário do que muitos dizem, foi construído a muitas mãos.

Confira a primeira parte da entrevista:

Expressaorondonia.com.br – Vamos fazer um bate-papo para iniciarmos. Quem é Curi, onde nasceu, quando veio para Rondônia, para fazermos a qualificação inicial e depois a gente entra na entrevista em si.

Curi: Eu nasci em um lugarejo no Estado de SP, chamado Bofete. Depois mudei para Conchas, uma cidade um pouco maior, mas também muito pequena e, então para Botucatu, onde fiz o cientifico e faculdade. Terminei a faculdade e queria ir para um lugar o mais distante possível. Tentei ir para a África, através da FAO (órgão da ONU para a Alimentação e a Agricultura), mas não tinha currículo para isso. Então pensei: “O lugar mais distante que existe é a tal da Amazônia então vou embora para lá. E vim para Rondônia sem nem saber o rumo.

Curi: Em 1972.

Expressaorondonia: Aí você veio de Botucatu para Rondônia?

Curi: Isso.

Expressaorondonia: Já era casado?

Curi: Não.

Expressaorondonia: Quando conheceu a dona Rosa?

Curi: Já a conhecia há muito tempo. Nós casamos em 1974. Mas namoramos cerca de 3 anos. Agora, a minha vinda para cá foi uma epopeia, sem nenhum tostão no bolso, pedindo comida, aceitando o que dessem, foi em época de chuva. Estávamos com o fusca de um amigo e comemos o pão que o diabo amassou para chegar a Porto Velho.

Expressaorondonia Cuiabá a Porto Velho já era asfaltado? Ou o asfalto era, somente até Campo Grande, naquela época?

Curi: Somente até Campo Grande.

Expressaorondonia E aí então, foi aquela aventura, de Campo Grande a Porto Velho, foi mais ou menos o quê? Um mês de viagem?

Curi: Por aí.

Expressaorondonia E a dona Rosa, veio quando nesse processo para cá?

Curi: Logo depois do casamento.

Expressaorondonia Sua formação acadêmica é engenharia agronômica ou economia?

Curi: Agronomia.

Expressaorondonia  A história do Willian Curi que a gente conhece, começa nos anos 80, com a chegada do Teixeirão (governador Jorge Teixeira, 1979/1985), aliás no final da década de 70. Por volta 1979, 1980, quando nasceu então a Codaron e aí começou a surgir o William Curi. Mas antes disso, o que fez o Willian Curi de 1972 a 1979?

Curi: Bom, primeiro eu e o meu amigo que viemos para cá,o Moacir Medrado, passamos mais de um ano desempregados, sem ter o que comer, nos virando para sobreviver, morando um tempo no quartel da Guarda Territorial e depois numa república de grandes amigos cearenses. Dávamos duas aulas cada um, por semana, e o que a gente ganhava só dava para comprar um pão. Aquele pão corneta. E o padeiro, com pena da gente, passava ao menos uma manteiga no pão. E nós passamos algum tempo dessa forma. Logo em seguida, fui contratado pela ACAR, atual Emater, onde  cresci rapidamente. Trabalhava no escritório local em Porto Velho; logo me tornei chefe do escritório e, em seguida, coordenador de produção animal de onde saí para trabalhar na iniciativa privada, como gerente técnico da empresa Agrinco Rio Candeias. Saindo de lá, voltei para a Emater e fui convidado então para implantar a Embrapa em Rondônia. Assim começou de fato a minha vida profissional.

Expressaorondonia Você já respondeu essa pergunta de que veio para a Amazônia em busca de um lugar mais distante. Mas você esteve na África. Isso foi depois de já estar em Rondônia?

Curi: Sim, fui consultor pelo Banco Mundial. Fiz várias viagens pelo Banco Mundial como consultor. Fui convidado até para ser funcionário do Banco, morando primeiro por 2 anos na África e depois Washington  e não aceitei porque seria exigir muito sofrimento familiar, principalmente com meus 4 filhos sendo ainda crianças. Mas trabalhei no Banco Mundial em vários países na África.

Expressaorondonia E como foi a experiência de trabalhar na África?

Curi: Foi fantástica. Fui com a ideia do Polonoroeste, para implantar rodovias, pontes, núcleos de produção, etc; mas quando cheguei lá era totalmente diferente. Coisa tribal. Cada tribo é um universo, com idioma e dialeto diferentes. Eles produzem para sobreviver. E são absolutamente felizes. É um negócio incrível. Levei um choque, por ver o que aparentemente é uma pobreza total, mas eles vivem bem. Eles têm uma aceitação da vida como ela é, com os usos e costumes de cada tribo. Eu mudei a ótica dos projetos do Banco e passei a fazer projetos que impactassem o menos possível a tribo. Eles trabalhavam com arroz na várzea, eu ampliei e melhorei a tecnologia daquilo. Coloquei tração animal, implantei alguma coisa de cultura perene, alguma coisa de estrada secundária, atuei muito para áreas de saúde e educação. Mudou a ótica da minha imagem. A África é um continente que vai demorar mil anos para se encontrar e se entender. Cada tribo tem uma cultura e dialeto próprios, como as que existem na Guiné Bissau por exemplo. Coisas complicadíssimas.

Expressaorondonia Você esteve em quais países?

Curi: Comecei pelo Marrocos. Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Costa do Marfim, Gabão.

Expressaorondonia Você fala que eles praticam a cultura da sobrevivência e que passam bem. Mas vemos, em fotos, as pessoas passando fome e sofrendo com as questões tribais, de guerra. Onde está esse paradoxo?

Curi: Bem, vou tentar exemplificar. A Índia, por exemplo, é o país de economia mais centralizada no mundo. É uma minoria rica, milionária e o restante da população passa fome. Mas há uma aceitação religiosa naquilo que eles fazem, o que os leva a viver em paz. Eles aceitam aquela coisa. Quando você passa isso para a África, você vê, de um lado uma eterna guerra civil, onde está a morte, a falta do que comer e, de outro lado, as tribos que estão fora disso, que produzem essencialmente para comer. São estes povos, que não estão em guerra que são felizes.

ExpressaorondoniaNo que essa experiência da África impactou na sua vida?

Curi: Rapaz, impactou muito, inclusive espiritualmente. Me abri mais para a espiritualidade, para ajudar, para pensar nos outros. Eu mudei. Eu mudei.

Expressaorondonia Vamos retornar para realidade. Como e quando você se aproximou do Teixeirão? Como foi essa aproximação?

Curi: Olha, no governo Guedes, eu estava na Embrapa. Talvez vocês não saibam, mas eu ganhei o prêmio “Frederico de Menezes Veiga”, como um dos melhores pesquisadores brasileiros, que me foi entregue pelo Ministro da agricultura da época, Antonio Delfim Neto, no ano de 1979. Na Embrapa, consegui fazer um nome muito forte, não só local, mas como a nível de Brasil. A EMBRAPA começou a me vender como um exemplo a ser seguido. E no governo Guedes fui convidado para ser secretário da Agricultura. Eu me dava muito bem com o Guedes, eu era um admirador do Guedes e do Luiz César (seu filho e secretário de Planejamento). Eu tinha um respeito danado por eles. Acho que fizeram um grande governo dentro dos limites que eles tinham. Mas eu não aceitei ser secretário e então me pediram que indicasse alguém e indiquei o Bezerra.

Expressaorondonia –  E quem é o Bezerra?

Curi: O Bezerra era um técnico do Território, da área agrícola.

Como chefe da EMBRAPA eu tinha muito contato com os produtores rurais, as associações de produtores, na capital e no interior, por conta dos projetos de pesquisa desenvolvidos. Então, quando o Teixeira foi escolhido para ser o governador do estado, estes produtores o pressionaram e me indicaram para ser o secretário de agricultura. Eu não o conhecia até então. Fui convidado para uma reunião de possíveis secretários, ele brincou comigo, chamando-me de jogador de basquete e tal. Ele traria uma pessoa de sua confiança para o cargo mas com a pressão, acabou me escolhendo como secretário de agricultura.

ExpressaorondoniaEssa Rondônia Cooperativa que o senhor citou, que os cooperativistas se reuniram para pedir pelo senhor, essa parte teve a sua participação no interior, esses novos imigrantes?

Curi: Muito. Mas aí eu já estava no governo do Teixeira.

Expressaorondonia O senhor lembra quanto tempo foi secretário dele? De que período?

Curi – Fui secretário por 4 anos. E aí que eu fiz a maior coisa, Graças a Deus. Criei o Programa Polonoroeste. No governo Guedes, veio um diretor do Banco Mundial aqui para Porto Velho e queria falar com o governador, mas o Guedes não quis atender pois sabia que o Banco Mundial era assunto para longo prazo e de tanto eu insistir, ele aceitou. E nasceu uma amizade entre o diretor do Banco e eu. Algo providencial. Quando entrou o governo Teixeira eu comecei a trabalhar esse programa. Na proposta inicial, ainda não estava incluída a BR-364. Era um projeto em torno 400 milhões de dólares. Depois foram incluídos outros componentes, inclusive a BR-364, que foi uma das minhas propostas, financiadas pelo Polonoroeste e então o programa foi para mais de 1 bilhão de dólares. Não executamos a pavimentação da BR por não ter condições estruturais, técnicas, de fazermos projetos, licitações e acompanhamento da obra, que ficou então a cargo do Ministério do Transporte, mas dentro do meu projeto, o Polonoroeste. O Mato Grosso foi beneficiado também pois pegava parte da BR-364 e aproveitou parte das laterais da estrada para projeto de colonização. Foi uma negociação longa, de 4 anos, e foi o maior projeto do Banco Mundial até aquele momento. Não foi o maior programa, mas foi o maior projeto do Banco Mundial do mundo na época. Houve pressão em cima de mim, ciúmes e então vieram dois diretores do banco e declararam em reunião, com jornalistas que o Banco Mundial só estava em Rondônia por minha causa. Se não, não estaria.

Expressaorondonia  Isso aumentou a pressão política e a inveja sobre você?

Curi: Nossa Senhora… Eu penei. Porrada para tudo quanto é lado. Foi feio.

Expressaorondonia E como entra a Sudeco nisso? …

Curi: Nós não podíamos estar atrelados a este programa. Foi aí que criei a Codaron (Companhia de Desenvolvimento Agrícola de Rondônia). Um organismo capaz de executar num nível de rapidez e qualidade as propostas do Polonoroeste. Então a secretaria de Agricultura, ficou praticamente nula, ela ficou dentro da Codaron. Nós tínhamos 300 e poucos funcionários e carregamos o estado nas costas pelos anos seguintes. E o outro lado da negociação, foi com o governo federal, com a equipe do Delfin (ministro da Fazenda, Delfin Neto). Foi excelente também. Tudo dá certo quando é para realmente acontecer. Fiz uma amizade enorme com o Savazzini e o Viaccava, um pouco menos com o Pécora, todos da equipe direta do Delfim. Falava muito com o próprio ministro.

Expressaorondonia Qual era o olhar do Delfin para a Amazônia naquela época?

Curi: O olhar do Delfin foi muito útil para fazer o que fiz. Ele achava que tinha uma região na Amazônia que pegava a parte sul do Estado, não de cerrado, mas de terra roxa, e pegava uma parte do norte do Mato Grosso. Essa região por ser de boa qualidade das terras e uma possibilidade madeireira muito grande e muito importante, era uma alternativa para desenvolver e ocupar aquela região. Foi nesse caminho que levei o Polonoroeste, no olhar estratégico.

Expressaorondonia É verdade que foi o Delfin Neto que doou ao João Arantes as terras da fazenda Nova Vida?

Curi: Eu desconheço essa história e desacredito que seja verdade.

Expressaorondonia.com.br: No momento em que vivemos, com tanta polarização no Brasil, o Willian Curi é de esquerda ou de direita, ou foi?

Curi: Tive algumas participações nos movimentos estudantis quando jovem, nos movimentos de esquerda. Mas não me qualifico mais de esquerda ou direita. Já passei desta fase.  Sou favorável, às reformas da previdência, tributária, política e às privatizações para o desenvolvimento do nosso Brasil.

Expressaorondonia Retornando ao Polonoroeste. Vieram os recursos para fazer o novo assentamento de colonização e principalmente para a consolidação da BR-364. A questão é que os nuares (Núcleo Urbano de Apoio Rural) fizeram sucesso quando elevados a municípios e a 364, parece que o Banco Mundial deu uma refutada na BR, não aceitou. Por que o Banco Mundial suspendeu o Polonoroeste?

Curi: Não houve suspensão do Polonoroeste. O que aconteceu foi que, primeiro, existia um prazo de execução e, segundo que, depois do Teixeira os governadores sucessores não obedeceram ao uso do dinheiro que tinham para aquele fim. Usaram como quiseram e isso levou o banco a concluir o projeto dentro do prazo. Se não, poderia ter alargado o prazo. Outra coisa muito importante que aconteceu foi que, um pessoal preocupado com a situação ambiental, fez uma denúncia no Congresso americano e isso pesou bastante. O Banco Mundial tinha que ter um argumento contrário a isso no lugar certo, que tivesse eco. Então, fui convidado para dar uma palestra na universidade “John Hopkins”, em Washington. Só quatro brasileiros falaram nesse lugar e eu fui um deles, os outros foram três ministros, para mostrar a veracidade e o equívoco a que estavam levando o Polonoroeste. Segundo que, nós faríamos constar no contrato do Polonoroeste que, se houvesse alguma deficiência, nós teríamos uma aplicação na área especificamente ambiental. Daí surgiu o outro programa, Planaforo, voltado para a questão ambiental.

Entre os vários cargos que exerceu, Curi foi presidente da Emdur na administração Chiquilito Erse; secretário de Planejamento e coordenação geral e também coordenava o planaforo no governo Piana; coordenador do Planafloro novamente no governo Bianco

ExpressaorondoniaEm 1982, houve o rompimento do Teixeirão com a ala agrária. O pessoal da ala mais agrária. Qual foi o seu posicionamento nessa época? Ou não houve esse estremecimento?

Curi: Não, que eu saiba não houve.

ExpressaorondoniaO senador Galvão Modesto alegava que houve um estremecimento, devido ao poder do INCRA instalado por Galvão Modesto que liderou o movimento dentro do órgão e da CODARON, apoiada pelo Teixeirão, no ano de 1982. Por isso a pergunta de qual lado o senhor estava?

Curi: Primeiro que o Modesto era um excelente profissional, mas nunca houve conflito. Eles distribuíam os lotes e nós fazíamos a infraestrutura. Então o Polonoroeste cobriu toda a infraestrutura necessária no Estado. Nós fizemos 8.000km de estradas vicinais. Havia um programa da Sudhevea para plantio de seringueiras que em 15 anos implantou apenas 1.500 hectares. Em um ano nós fizemos 25 mil hectares de seringueiras, pelo POLONOROESTE. Consegui a primeira cota de café arábica para a Amazônia. De tanto encher o saco do presidente do IBC (Instituto brasileiro de Café) conseguimos uma cota de 10 milhões de pés para Rondônia e nunca mais parou. Então, não houve. O Modesto não tinha força, unanimidade dentro do INCRA. Ele ganhou o cargo de senador (1982/1986) do Teixeira.

Expressaorondonia Ele esteva sob o guarda-chuva do Teixeirão?

Curi: Totalmente, e, em verdade, quem deveria ser o senador era o Canuto (Assis,) só que o Canuto entendeu que o partido não elegeria três senadores  (o PDS elegeu os três, com apoio do Teixeira) e preferiu sair candidato a deputado federal.

ExpressaorondoniaQual foi a sua influência na eleição de 1982, que elegeu ali o que ficou conhecido como Codaron Boys, quatro oriundos da Codaron. Sabemos que o senhor é tímido, mas pedimos que o senhor fale.

Curi: Eu ajudei realmente os quatro amigos. Em verdade eu não ajudei somente a eles. Ajudei muitos outros. Mas deixei morrer ali. E o único que não pediu ajuda, foi o Bianco (deputado José Bianco, primeiro presidente da Assembleia Legislativa, depois senador e governador). E, se ele procurasse, eu o ajudaria também pois nós tínhamos estrutura em todo o Estado. O Estado era um parque de execução de obras via Codaron.

Expressaorondonia De certa forma Rondônia era um vazio demográfico?

Curi: Sim. De certa forma era sim.

ExpressaorondoniaEsses quatro, só para relembrar, quem eram os Codaron Boys?

Curi: O Silvernani (Cesar dos Santos), o Jô (Yutaza Sato), o Marvel (Pelucio Falcão) e o Souza (Genivaldo,). Que foram eleitos na primeira legislatura de 1982.

Expressaorondonia Mas eles ficaram leais a você?

Curi: Sim, somos amigos até hoje.

Expressaorondonia A pergunta inescapável. Por que tanta força política a ponto de ajudar na eleição de quatro deputados, por que não quis se lançar a um cargo político nessa época?

Curi: Rapaz, eu era apaixonado pelo que eu fazia. E eu via a coisa política como anda no Congresso, no Senado, na Câmara. Aquele lenga-lenga e nunca me senti com vontade de ser candidato a nada. E não investi nos amigos pensando que pudessem me dar base para uma candidatura ao senado, governo, deputado. Foi até um erro político meu, mas não me arrependo em nada. Não era o meu caminho ser candidato naquele momento.

ExpressaorondoniaPor que a decisão de entrar na política chegou somente nos anos de 1990, quando se elegeu a deputado estadual?

Curi: Eu estava numa situação muito difícil. Com denúncias inverídicas contra mim na imprensa, de corrupção, da minha “riqueza” escondida no exterior, por conta do meu poder e do volume de recursos movimentados pelo POLONOROESTE. Foram tempos de muito sofrimento pessoal e familiar.

Expressaorondonia Ouvi falar muito do seu poder.

Curi: De acordo com a imprensa eu era o cara mais corrupto que existia neste Estado. Eu não pagava a imprensa como ela desejava porque o estado já fazia isto e no meu entendimento estaria cometendo uma ilicitude, por isto ela me pressionava com estas inverdades. Fazia uma viagem à África. O Jornal Estadão do Norte noticiava que eu ia ver um plantio de cacau que eu tinha lá. Eu ia para os Estados Unidos e noticiava dizendo que eu ia ver o haras de minha propriedade nos EUA. Lamento muitíssimo que o governador nunca falou a respeito e jamais falou em meu favor. Não falou nada devido à ciumeira que existia por parte do José Renato, que era o homem chave do Teixeirão. Nesta época eu era superintendente da FIERO e os empresários queriam ter um deputado estadual que os representasse na assembleia legislativa do estado e então investiram em mim.

William Curi (c) com o jornalista Carlos Araújo (e) e o historiador Francisco Matias (d)

Prossegue no próximo domingo.

Entrevista a Carlos Araújo e Francisco Matias

Texto de abertura: Carlos Araújo e Lúcio Albuquerque

Decupagem; Hilda Beatriz