Hiran Gallo

É possível que quando você terminar de ler esse texto uma pessoa tenha tirado a própria vida em algum lugar do mundo. Não é exagero. É a verdade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos ocorre uma morte por conta de suicídio e a cada três segundos uma tentativa também acontece.

As estatísticas dão a dimensão desse problema que, neste mês, tem ganhado visibilidade na imprensa. Trata-se de um alerta, pois, ao contrário do que muitos pensam, com diálogo e cuidados específicos novos casos podem ser evitados. O chamado Setembro Amarelo, que ganhou força no Brasil em 2014, vem, assim, chamar a atenção dos brasileiros para o suicídio, evidenciando a importância de se acabar com os estigmas que esse assunto traz.

De forma complementar, ainda lança luz sobre as medidas de prevenção que podem impedir novas tentativas e mortes decorrentes.

Por ano, em todo o mundo, cerca de um milhão de pessoas engrossam as estatísticas de óbitos por suicídio. No Brasil, são 12 mil. Números que devem, inclusive, ser maiores, considerando-se a existência de alto índice de subnotificação de casos.

Em 2012, os dados da OMS apontavam o suicídio como a segunda maior causa de morte no segmento da população com idades de 15 a 29 anos de idade, em todas as regiões do mundo. A maioria dos registros (75%) eram de países de baixa e média renda, como o Brasil.

A repercussão deste quadro fez com que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) abraçassem essa causa, estimulando debates em torno do problema, o que tem salvado vidas e dado esperança a milhares de pessoas.

Infelizmente, a prevenção ao suicídio ainda esbarra no tabu relacionado ao tema. Durante séculos, em função de questões religiosas, morais e culturais, o suicídio foi visto como um grande “pecado”, talvez o pior deles. Isso fez com que sua abordagem seja envolvida em sentimentos como medo ou vergonha, o que dificuldade o combate a esse problema de saúde pública. Aos poucos essa realidade tem mudado, mas ainda há muito a fazer.

Contra o preconceito, a ciência pode ser uma arma importante. Os médicos asseguram que o reconhecimento dos fatores de risco e dos fatores protetores é fundamental, ajudando a identificar indivíduos ou grupos com propensão ao suicídio. Esse diagnóstico pode orientar a tomada de medidas que fazem a diferença entre a vida e a morte, em alguns casos. Por isso, fique atento ao seu redor para perceber sinais e sintomas que indicam que algo não vai bem, às vezes com alguém muito próximo.

Os estudos mostram, por exemplo, que a maioria dos casos de suicídio ou de tentativa estão diretamente relacionados com dois principais fatores de risco: a tentativa prévia de suicídio e/ou um quadro de doença mental. Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar suicídio novamente.

De outro lado, sabe-se que quase todos os suicidas apresentam uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada.

Pessoas solitárias ou em estado de abandono, com sinais de depressão ou transtorno bipolar; com graves problemas de saúde física; usuários de álcool e outras drogas; com baixa capacidade de superação (resiliência); ou personalidades agressivas e impulsivas. Estas são outras características prevalentes entre os suicidas, assim como estarem inseridos em grupos específicos, como indígenas, adolescentes e moradores de rua.

Por sua vez, é raro, mas não impossível, encontrar casos de suicídio ou de tentativa entre pessoas com autoestima elevada; bom suporte familiar; laços sociais bem estabelecidos com família e amigos; ausência de doença mental; capacidade de adaptação positiva; e capacidade de resolução de problemas. Mas se a atenção aos sinais e aos sintomas é importante, ela sozinha não resolve o problema.

De um lado, o Estado deve garantir a assistência psiquiátrica de qualidade para os indivíduos que apresentarem essa tendência. Pouco adiantará identificar os que estão em situação de risco, se não puderem ser tratados devidamente. Isso inclui ampliar o acesso aos serviços específicos e treinar as equipes de médicos e de outros trabalhadores em saúde para diagnosticar e tratar os pacientes.

Além disso, as autoridades devem propor medidas para dificultar o acesso da população a armas, medicamentos, venenos ou mesmo locais (alto de prédios, por exemplo), o que reduz a possibilidade de tentativas.

No entanto, a maior mudança tem que acontecer no seio da sociedade, que precisa falar sobre suicídio de maneira responsável e com base em informações corretas ajuda na sua prevenção. Outros problemas de saúde revelam que uma postura diferente pode ter impactos positivos.

É o que houve com a AIDS e demais doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) que há duas ou três décadas estavam imersas em preconceitos e viam aumentando o número de casos.

Graças ao empenho de indivíduos e organizações engajadas essa lógica foi quebrada, com a conscientização e o estímulo à prevenção. Esperamos que o mesmo aconteça com o suicídio, um mal silencioso, que depende de cada um de nós para não fazer novas vítimas no Brasil e em qualquer lugar do mundo.

José Hiran da Silva Gallo
Doutor em Biotética
Diretor do Conselho Federal de Medicina (CFM)


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[no blog de Abel Sidney]