HUMBERTO OLIVEIRA

Aqueles com mais de 50 anos jamais esquecerão a primeira vez em que ouviram o famoso grito de Tarzan, o homem macaco, personagem de ficção criado pelo escritor Edgar Rice Burroughs em 1912 para a revista pulp All Story Magazine e publicado em formato de livro, em 1914.

O personagem, que passaria para os quadrinhos, telas de cinema e televisão, apareceu em mais de 20 livros e em diversos contos publicados avulsamente. Em 1916 Burroughs vendeu os direitos de filmagem do romance Tarzan of the Apes, publicado em 1912, para William Parsons.

O contrato celebrado rezava que Burroughs receberia cinco mil dólares adiantados e outros 50 mil em forma de ações. Cinco meses depois, Parsons, um vendedor de seguros de vida de Chicago, fundava a National Film Corporation of America para produzir a película. O próprio Burroughs tornou-se o diretor geral da nova companhia.

ELMO LINCOLN

O primeiro Tarzan do cinema foi Elmo Lincoln, no filme Tarzan, O Homem Macaco ou Tarzan dos Macacos (Tarzan of the Apes), de 1918. Lincoln também estrelou o filme seguinte, O Romance de Tarzan ou Os Amores de Tarzan (The Romance of Tarzan, 1918) e o seriado As Aventuras de Tarzan (The Adventures of Tarzan, 1921, quinze episódios).

Na era muda foram produzidos quatro filmes e quatro seriados com o herói; além de Lincoln, ele foi interpretado, entre outros, por Gene Pollar e James Pierce.

Parsons decidiu rodar a produção em Morgan City, cuja natureza era semelhante às paisagens do Brasil, mostradas em uns filmes que ele adquirira e que pretendia usar como cenários de fundo. O ator escolhido para o papel principal foi o nova-iorquino Winslow Wilson, tocador de ukulele [instrumento musical de cordas beliscadas, geralmente com quatro cordas de tripa ou com materiais sintéticos – náilon, nylgut, fluorocarbono e outros.

Nem bem as filmagens começaram, Wilson alistou-se no Exército para lutar na Primeira Guerra Mundial e para seu lugar foi chamado Elmo Lincoln, um protegido de D. W. Griffith, que contava 28 anos à época.

Lincoln, com cem quilos e quase dois metros de altura, voou pouco de galho em galho, porém matou de verdade um leão durante uma sequência de luta. Ele também teve de usar uma peruca, pois possuía pouco cabelo.

Já os macacos com quem contracenava foram interpretados por um grupo de jovens de um clube de Nova Orleans, devidamente disfarçados para parecerem gorilas, pois naquela época considerava-se muito arriscado usar símios reais.

Os roteiristas modificavam a história a todo o momento e no final filmou-se sem roteiro algum, para desespero de Burroughs, mas surpreendentemente o resultado foi bastante fiel ao livro.

O filme estreou em Nova Iorque em 27 de janeiro de 1918 e foi um enorme sucesso, tanto de público quanto de crítica. De fato, Tarzan, O Homem Macaco foi uma das primeiríssimas produções do cinema mudo a render mais de um milhão de dólares.

JOHNNY WESSMULLER

O primeiro Tarzan do cinema sonoro foi também o mais famoso: o nadador estadunidense Johnny Weissmuller, que encarnou o herói em 12 fitas, primeiro na MGM, depois na RKO. O refinado lorde dos livros foi transformado por Weissmuller em um selvagem que conseguia apenas grunhir e emitir frases monossilábicas, do tipo “me Tarzan, you Jane”; (que ele, a bem da verdade, nunca disse. O que ele disse no filme Tarzan, O Filho das Selvas/Tarzan the Ape Man (1932) foi simplesmente “Tarzan… Jane”, apontando para si mesmo e depois para Jane Porter).

O filme foi dirigido por W. S. Van Dyke, e os diálogos foram de Ivor Novello. Houve várias refilmagens, destacando-se Tarzan, the Ape Man (1959) e posteriormente Tarzan, the Ape Man (1981).

O filme de 1932 foi o primeiro de uma longa série de filmes de Tarzan, estrelando inicialmente Weissmuller e posteriormente outros atores. Weissmuller é responsável por emitir, pela primeira vez, o famoso grito de vitória de Tarzan. Esse grito, que seria reproduzido por todos os Tarzans subsequentes, não passava de uma hábil mixagem dos sons de um barítono, uma soprano e de cães treinados.

Devido à censura da época, os trajes de Weissmuller e, principalmente, de Maureen O’Sullivan (mãe da atriz Mia Farrow) foram aumentando de tamanho de filme para filme; a censura também é responsável pela ausência de filhos da dupla, que não era legalmente casada: Boy (vivido por Johnny Sheffield), introduzido em O Filho de Tarzan (Tarzan Finds a Son!, 1939) não era filho do casal e, sim, adotado, conforme mostra o título original. No entanto, nos livros, Tarzan e Jane são pais do menino Korak, que chega à idade adulta nos romances finais.

Depois de atuar em Tarzan e a Caçadora (Tarzan and the Huntress, 1947), Johnny Sheffield disse adeus ao papel de Boy, porque já estava com 16 anos. Ele foi para a Monogram e fez os 12 filmes da série Bomba, o Filho das Selvas/Bomba The Jungle Boy (um personagem inspirado em Tarzan, publicado em uma série de livros publicada entre 1926 e 1938), entre 1949 e 1955.

FORA DE FORMA, ELE ENCARNA JIM DAS SELVAS

Quando já não possuía o físico necessário para viver o herói, Weissmuller estrelou a série Jim das Selvas/Jungle Jim para a Columbia. Foram 16 filmes entre 1948 e 1955.

Nesse ano, o herói foi para a televisão, onde foram feitos 26 episódios de meia hora cada, com um Weissmuller já gordo e envelhecido. O mais famoso dos Tarzans morreu pobre e esquecido.

Outros Tarzans que ficaram famosos foram Lex Barker, que substituiu Weissmuller a partir de 1948 e Gordon Scott, que é considerado por alguns críticos o ator que melhor interpretou o herói. Já Mike Henry é visto como o mais parecido com os desenhos de Burne Hogarth.

Das atrizes que interpretaram Jane, a única lembrada é Maureen O’Sullivan, que fez os seis primeiros filmes da série com Johnny Weissmuller e depois saiu porque não queria ficar presa à personagem. Jane não aparece em todos os filmes de Tarzan: ela esteve em apenas um dos cinco filmes com Gordon Scott e esteve ausente de todas as produções com os Tarzans Jock Mahoney, Mike Henry e Ron Ely.

 O MACACO ESTÁ CERTO

Foi noticiado que a personagem Cheeta, a macaca (Cheeta, na verdade era um macho) que protagonizou os filmes da década de 1930 e 1940 e do seriado para televisão da década de 1960, faleceu em 2011, aos 80 anos de idade, notícia essa, entretanto, colocada em dúvida por uma reportagem da agência de notícias Associated Press, pela ausência de documentos que comprovem se tratar do mesmo primata, além de outras inconsistências apontadas.

TARZAN ANIMADO

Entre 1976 e 1977, os estúdios Filmation produziram a série animada Tarzan, Lord of the Jungle. Mais tarde, a série dividiu blocos de animação com outras séries: Batman/Tarzan Adventure Hour (1977–1978), Tarzan and the Super 7 (1978–1980), The Tarzan/Lone Ranger Adventure Hour (1980–1981), e TheTarzan/Lone Ranger/Zorro Adventure Hour) (1981–1982).

Considerada bastante fiel à obra de Burroughs – bem mais que muitos dos filmes realizados até então. Um exemplo é a presença, no desenho da Filmation, do macaquinho N’Kima como mascote de Tarzan, em vez da chimpanzé Cheetah, que só existia nos cinemas. Este desenho foi exibido no Brasil pelo canal SBT nas tardes dos anos 1980, voltando a ser exibido recentemente nos sábados, pela manhã.

NA TELINHA

Em 1989, foi lançado o telefilme Tarzan in Manhattan, estrelado por Joe Lara. Entre 1991 e 1994 foi exibida a série franco-canadense- mexicana Tarzán, estrelada por Wolf Larson, entre 1996 e 1997.

Joe Lara volta a interpretar o personagem em Tarzan: The Epic Adventures, apesar disso, a série não possui cronologia com o telefilme. Entre 2001 e 2003, foi produzida pela Walt Disney Company a série animada A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan), com os personagens do longa de animação de 1999.

Em 2003, surge uma outra série live-action, estrelada por Travis Fimmel. Ron Ely interpretou Tarzan em uma cultuada série que teve 57 episódios entre 1966 e 1968. Alguns episódios duplos foram fundidos e exibidos nos cinemas.

MAIS UMA VEZ…

Em 1984, o britânico Hugh Hudson, com roteiro baseado em romance de Edgar Rice Burroughs, dirigiu o longa metragem Greystoke: The Legend of Tarzan, Lord of the Apes (Greystoke: A Lenda de Tarzan, o Rei da selva) estrelado pelos então iniciantes Christopher Lambert (Hichlander, o guerreiro imortal) e Andie McDowell (Quatro casamentos e um funeral).

Hudson foi fiel ao personagem criado por Burroughs, porém, dividiu as opiniões da crítica e do público. Afinal a aventura foi deixada de lado para dar prioridade aos conflitos dos personagens.

Somente 32 anos depois, Hollywood voltaria a investir na produção de mais uma versão do “Homem Macaco” com a realização de The Legend of Tarzan (A Lenda de Tarzan), que ao contrário de Greystoke, este filme deu ênfase a ação, aventura e efeitos especiais.

Dirigido por David Yates, com a participação de Alexander Skarsgård como Tarzan, Margot Robbie (Arlequina do filme Esquadrão Suicida) interpretando Jane Porter, o filme foi lançado em 1º de julho de 2016. Alexander Skarsgård interpreta John Clayton III, Lord Greystoke / Tarzan. Sobre o seu personagem, Skarsgård disse: “É um homem que vai descascando lentamente as camadas, ficando até alcançar um estado mais animalesco.”

Para ficar na forma de Tarzan, o ator passou por quatro meses de treino intenso antes do início das filmagens. Esta nova versão, apesar dos milhões gastos na produção, ainda não foi desta vez que o personagem retomou seu lugar no rol dos míticos personagens da história do cinema.

Resta apenas a saudade do melhor de todos os Tarzans: John Weissmuller. Quem sabe na próxima.

[Dedicado aos amigos Carlos Araújo e Montezuma Cruz]