Entrevista da Semana com Marcelo Thomé. Ele afirma que é hora de valorização dos produtos locais, para reaquecer a economia e gerar empregos e renda

PORTO VELHO – Ele foi praticamente o paciente um positivado para coronavírus em Rondônia. Em viagem de trabalho aos Estados Unidos, em uma comitiva da Confederação Nacional das Indústria, da qual é um dos diretores, o presidente da Federação das Indústrias de Rondônia (Fiero), Marcelo Thomé é um sobrevivente da pandemia. A comitiva em que ele estava se encontrou com a comitiva do presidente Bolsonaro, em Miami, e acabou contaminado, como, de resto, boa parte dos integrantes da caravana presidencial.

A entidade dirigida por Thomé, que administra o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), Sesi (Serviço Social da Indústria) e o IEL (Instituo Euvaldo Loudi) em Rondônia tem realizado ações para o fortalecimento da indústria e para a retomada da atividade econômica com segurança e, oportunamente, lança uma campanha para divulgação e valorização dos produtos locais.

A iniciativa, denominada ‘Compre em Rondônia’ tem divulgação nas redes sociais e nos meios de comunicações tradicionais, vê este momento como muito propício à valorização daquilo que é produzido aqui. “E tem muitos produtos com muita qualidade agregada”, afirma o presidente da Fiero.

Thomé conheceu e sentiu de perto os efeitos do coronavírus e divide sua experiência com os internautas nesta entrevista, ele traz informações importantes e uma mensagem de otimismo para a indústria, o comércio, para os trabalhadores e à população rondoniense.

Expressaorondônia – Como é ter coronavírus, quais os sintomas, o que você sentiu a partir do momento que percebeu que estava doente, quando os primeiros sintomas surgiram?

Marcelo Thomé – Surgiram sete dias depois do contágio, numa reunião que participei onde haviam pessoas infectadas. Eu fiz o primeiro exame e deu negativo. O segundo exame foi coletado em Porto Velho, e no dia seguinte, comecei a apresentar sintomas. Dor no corpo, indisposição, congestão nasal,  olfato e paladar alterados, um pouco de dor de cabeça, febre baixa, um pouco de tosse. Graças a Deus, em momento algum tive complicações respiratórias que exigissem que eu fosse hospitalizado.

Expressaorondônia – Você não chegou então, a procurar um posto de saúde ou um serviço médico?

Marcelo Thomé – Procurei o posto de saúde para fazer a coleta em Porto Velho, no Ana Adelaide. Inclusive, fui muito bem atendido e desde a coleta passei a ser acompanhado pelo serviço. Recebi a visita de agentes da saúde para acompanhar e orientar como deveria ser feito. Durante o acompanhamento, enquanto estive infectado, informei ao serviço o nome das pessoas com quem tive contato no meu retorno a Porto Velho.

Expressaorondônia – Como foi, alguém das pessoas que teve contato com você chegou a ficar doente também?

Marcelo Thomé: Por sorte, nenhuma das pessoas com quem tive contato não apresentaram nenhum sintoma até o momento.

Expressaorondônia – Você é um líder empresarial e é dirigente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO), tem a liderança da economia do Estado e do setor produtivo, diga-se de passagem. Como é que a administração e seus aliados, estão lidando com essa questão da Quarentena, do fechamento do comércio, das empresas?

Arquivo/Agência Brasil

Marcelo Thomé – Primeiramente é importante retratar o impacto negativo do fechamento, das medidas restritivas impostas pelo Decreto do governo aqui, sem obviamente deixar de reconhecer a importância desta ação para preservação das vidas, controle da expansão da pandemia em Rondônia. Obviamente que traz impactos negativos para os negócios. Mais de 40% das indústrias em Rondônia já estão fechadas, com as atividades suspensas ou altíssima redução da produção.

Expressaorondônia – Diversas empresas dispensaram empregados ou suspenderam as atividades, usufruindo da Medida Provisória Nº 905, com redução de jornada ou suspensão do contrato de trabalho?

Marcelo Thomé: O setor de alimentos não sofreu impacto, assim como alguns setores que tem mantido nível de atividades ou mesmo aumentada o faturamento. entretanto, a maioria dos setores industrias tiveram consequências negativas em função da pandemia.

Expressaorondônia – O que a Fiero está fazendo?

Marcelo Thomé – Permanente diálogo com as autoridades dos poderes constituídos, afim de construir caminhos para a reabertura dos negócios, porque é diferente do que alguns entendem. Apesar da indústria ter a permissão pra continuar funcionando no momento em que o comércio está fechado, não há pedido para a indústria. Então, a atividade industrial caiu muito como decorrência do fechamento do comércio, que é o comprador da indústria. Por outro lado, permanente diálogo com todos os setores industriais buscando entender quais são as dores, os problemas que cada setor enfrenta e buscando construir soluções setoriais específicas. Ainda através do programa Sesi/Senai, já alertou as indústrias para preparação do ambiente laboral, na implantação dos protocolos de saúde, afim de garantir a segurança do trabalhador na atividade. As ações de sensibilização, são na verdade, de viabilização do acesso ao crédito por parte dos empresários industriais, articulando os bancos de fomento, principalmente os bancos públicos, para que as empresas possam acessar mais facilmente o crédito que é fundamental nesse momento. Temos ainda a aquisição de 25 mil máscaras, uma iniciativa em conjunto com a Federação do Comércio. Estamos distribuindo 5 mil máscaras às indústrias para segurança e proteção dos trabalhadores. A articulação com empresas do setor de alimentos, resultou na arrecadação de cinco toneladas de alimentos, doados por empresas como Bernardo Alimentos e Arroz Rical. Também adquirimos de mais três toneladas. Essas oito toneladas foram doadas ao ‘SOS Rondônia’, uma iniciativa do Tribunal de Contas do Estado, Tribunal de Justiça, Ministério Público e Defensoria Pública do Estado de Rondônia.

A sociedade é complexa e o momento exige absoluta atenção à saúde, a preservação, da ajuda às vidas e a contenção da expansão da infecção no Estado de Rondônia. Entretanto, não se pode abrir mão de cuidarmos da saúde mental das pessoas e principalmente da economia. Empresas estão quebrando, pessoas estão perdendo seus empregos e deve-se pensar em medidas para permitir que a atividade econômica retome seu ritmo. Sem dúvidas, precisamos equilibrar as medidas restritivas, a fim de permitir a reabertura gradual dos negócios, da atividade econômica. Com responsabilidade, as empresas, o comércio, mas todos precisam usar máscaras e higienizar as mãos. Assimilar um novo comportamento social, evitando abraços, aperto de mão. Só com essas mudanças no comportamento individual, conseguiremos, gradativamente, voltar à normalidade das atividades econômicas e sociais. Agora, monitorar isso permanentemente para que as medidas possam ser flexibilizadas ou restringidas, de acordo com o comportamento da expansão da doença, é fundamental na minha opinião. Como dizem as autoridades de saúde, o achatamento da curva é fundamental para que a pressão sobre a rede hospitalar diminua. Precisamos equilibrar essas medidas de contenção com a manutenção, a reativação da economia por aqui para que a gente busque voltar à normalidade.

Expressaorondônia – Em sua opinião, o que a sociedade pode fazer para ajudar a passar por essa fase?

Marcelo Thomé – Fazendo essa flexibilização. Falando de algumas atividades eu vou responder à sua pergunta. Fizemos uma campanha denominada “Previna-se”. Todos precisamos usar máscaras, cada um de nós cuidando um do outro, eu cuido de você, você cuida de mim! Diversos países adotaram essa ação, em que toda população está usando máscaras. Dessa forma poderemos, sem dúvida nenhuma, conter consideravelmente a expansão da infecção. Vamos ser responsáveis!

Expressaorondônia – A Federação que você preside tem boa relação com o governo. Inclusive porque vocês têm assento em vários conselhos de empresas ou programas do Governo. Vocês já fizeram uma projeção do tamanho do rombo, do buraco que vai ter na economia do Estado. Qual vai ser o prejuízo, digamos assim?

Marcelo Thomé – É difícil projetar, porque não se tem ainda perspectiva de retomada econômica. Cada dia que passa, cada semana, a crise econômica se agrava. Por isso que defendemos o equilíbrio das medidas. Afim de permitir a retomada econômica em especial. O importante aqui é ressaltar, reconhecer a qualidade do decreto do prefeito de Porto Velho. Aqui, deu a chance para o empresário prever quando é que ele vai reabrir, para que ele tenha condição de tomar a decisão… se ele vai dar férias aos seus funcionários, se vai demitir, se vai tomar crédito, isso é fundamental. Então assim, construir instrumentos que ofereçam previsibilidade ao empresário nesse momento é determinante.

Expressaorondônia – Como é que você acha que vai ser a vida, o mundo, ao final dessa pandemia?

Marelo Thome – Eu diria que haverá uma linha mais holística e humanística, em que as relações serão mais leves. E teremos novos olhares sobre o comportamento humano e vou ser sincero para você: eu tenho algumas preocupações do ponto de vista empresarial. No tocante a indústria propriamente, eu diria que teremos um processo de desglobalização. Falando do ponto de vista empresarial, especialmente, a relação ao ponto de vista político, penso que haverá um movimento com o objetivo de fortalecer o comportamento nacionalista em detrimento de blocos econômicos e a valorização do consumo local consciente sustentável. Ao invés de comprar um produto importado, eu posso comprar um produto de Rondônia sem sair de Rondônia. Lançamos pela Fiero uma ação chamada “Compre em Rondônia”, para a valorização e priorização dos produtos que são produzidos aqui pela indústria de Rondônia, que sustentam os empregos gerados aqui, pagam tributos na cadeia produtiva que são retidos e pagos em Rondônia. Isso fortalece a nossa economia, gera emprego e renda em Rondônia. Eu penso que, essa mudança de comportamento do consumidor deve ser estimulada e naturalmente acontecerá, pois muita gente pode ter perdido emprego e se a gente consome produto produzido aqui, a gente dá oportunidade da indústria local continuar gerando emprego aos nossos vizinhos, para nossa sociedade, para nossa comunidade. Penso que a gente vai ter novo desenho nas relações humanas, sejam, pessoais, sejam, empresarias ou de negócios. Essa é uma das minhas percepções sobre este momento.

Expressaorondônia – Há mais ou menos cinco anos, você ainda muito novo na presidente da Fiero, na primeira conversa que tivemos, você reclamava da desmontagem do parque industrial brasileiro. Na sua opinião, foi um erro? Não do Brasil, mas do mundo inteiro transferir a suas plantas industriais para a China? Porque hoje, o mundo inteiro está na mão da China né?

Marcelo Thomé – Foi uma escolha que foi feita num momento em que se buscava redução do custo de produção. A China se posicionou, como ofertante de mão-de-obra barata e houve um movimento natural, até para que as empresas se mantivessem competitivas, que houvesse a transferência de parte da produção para a China, para aproveitar essa mão-de-obra barata. Já faz algum tempo que isso está mudando. A mão-de-obra na China hoje se qualificou, o custo de produção na China aumentou. Diversas empresas já migrarram de lá para outros países. Então, já estava havendo uma migração de plantas industriais na Ásia, saindo da China, que aumentou muito o custo da mão-de-obra, para outros países asiáticos. Agora, a produção industrial neste momento ganha uma outra dimensão estratégica. Por isso, eu entendo que teremos um redesenho da produção industrial global e mais do que isso, é uma grande oportunidade do Brasil, de capturar essas oportunidades recuperando parte da produção industrial que migrou para a Ásia. E também atrair investimentos, para que a produção seja feita em solo brasileiro, na verticalização de cadeias produtivas em que nós somos fortes. Somos fortes produtores de comodities. Rondônia tem essa oportunidade, Brasil tem essa oportunidade. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) trabalha no projeto de captura dessas oportunidades e o governo federal está sensível a isso. Sem dúvida que podemos também perceber essas oportunidades no Estado de Rondônia, para que possamos capturar parte dessas oportunidades ao final de toda essa pandemia.

Expressaorondônia – Você acha que vai sobrar oportunidades para o Brasil?

Marcelo Thomé – Temos que acreditar nessas possibilidades, temos que construir essas possibilidades, estruturar esses projetos para que possamos sim capturá-las. Haverá o empobrecimento global, o próprio FMI afirma isso, uma recessão global. Entretanto, a humanidade continuará existindo, as demandas por produtos manufaturados, bens de consumo, de alimentos, continuará existindo. Haverá a migração de investimentos em busca de oportunidades em todo o planeta. Em especial pela mobilização que ocorrerá naturalmente em diversos países. Especialistas afirmam isso, que devemos estar preparados para transformar a crise em oportunidades.

Expressaorondônia – O que você gostaria de acrescentar?

Marcelo Thomé – Quero agradecer ao convite, por poder conversar um pouquinho com seu público. O momento é de união, de diálogo e principalmente de equilíbrio. Precisamos entender que temos diversas dimensões a serem atendidas além da saúde, que é fundamental neste momento, para garantir o equilíbrio e a harmonia. Oferecer mínimas condições para que o Estado de Rondônia atravesse essa crise mitigando os efeitos deletérios dela. E a Federação das Indústrias do Estado de Rondônia trabalha projetos para o momento pós crise.

Expressaorondônia – Obrigado!

Entrevista ao editor Carlos Araújo