fazendo pesquisa para 'consumo interno' e sem autorizar a divulgação do resultado, Matias tem sido preciso no acerto dos resultados eleitorais em Rondônia

PORTO VELHO – Basicamente há dois tipos de pesquisas: uma para conhecimento público, e que para quem entende de campanha eleitoral não tem muito valor. Outra, chamada “para consumo interno”, não será publicada e serve para que o contratante (um partido político, um candidato ou outrem), saiba a quantas anda um candidato e as suas chances, ou mostrar pontos que possam redirecionar o trabalho até então feito. Nesse último item, um pesquisador de Rondônia dá de goleada até no Ibope e, algumas vezes, para evitar que o contratante mude os resultados à sua maneira, se atrita com quem está pagando.

Conheço o professor, historiador e pesquisador Francisco Matias desde o início de 1980. E já por três vezes testemunhei que seus resultados “batiam” com o que saiu das urnas, como no domingo passado, 29, quando outra vez os números do Ibope deram errado e os do Matias acertaram. Em 1996 o empresário Mário Calixto (jornal Estadão do Norte), tinha interesse em alavancar uma candidatura em Cacoal contra o candidato (eleito) Divino Cardoso. Eu era editor das oito páginas diárias que o Estadão dedicava ao interior e o Mário mandou me chamar para que eu inserisse a pesquisa.

Na eleição para prefeito de Cacoal o empresário Mario Calixto tentou mudar resultado da pesquisa para beneficiar a candidatura de Suely Aragão, mas não conseguiu convencer o pesquisador

O Matias disse ao Mário que “até as pedras” de Cacoal sabiam que o Divino ganharia. E eu falei que não iria editar. Ficou por isso. Em 2002 eu estava em Rio Branco e o Matias foi contratado por um candidato para pesquisa. Nos encontramos no hotel e ele mostrou a pesquisa de Rondônia, já com dados do 2º turno (o 1º nem tinha sido realizado) dando a vitória de Cassol sobre Bianco, acertando até os percentuais.

Nessa entrevista ao site expressaorondonia.com.br, Matias conta sua trajetória como pesquisador, especialmente em eleições no Estado, com passagens por toda região Norte e até Mato Grosso (Lúcio Albuquerque, repórter).

Com a palavra o rei dos acertos nas eleições rondonienses:

Para fazer pesquisas, fundei um instituto, chamado Seção Norte Pesquisa. O nome Seção Norte tem a ver com a seção Norte do Rondon (ligação Telegráfica de Cuiabá a Porto Velho, entre 1907 e 1909). O Rondon percorreu essa área do Vale do Jamari/Madeira, se perdeu e, por pesquisa, encontrou o caminho, saindo onde hoje é o 5º BEC. Então a história da minha empresa Seção Norte tem a ver com o Marechal Rondon e a comitiva que ele fez, chamada Seção do Norte, que se perdeu no Rio Jamari, passou 15 dias sem saber onde se encontravam, fizeram uma pesquisa de rota e chegaram onde hoje é o 5º BEC, onde fundaram o acampamento do Jamari.

Matias: botando o Ibope no bolso quando o assunto é eleição de Rondônia

Eu acho uma boa ideia poder falar só do trabalho mesmo. Eu comecei a fazer pesquisa em 1984, lá na primeira eleição de Rolim de Moura. Eu apoiava o Manoel Messias e fiz a pesquisa para ver se ele ganhava, e deu o Raupp (Valdir…). Foi minha primeira pesquisa.

Voltei a fazer só em 1990, uma pesquisa para o Olavo Pires (a governador), a eleição dele depois a ameaça de derrota, foi quando o hobbie começou a crescer. Fiz a pesquisa também da eleição de 1994, contratado pelo candidato Chiquilito Erse, para governador.  Fui demitido da campanha dele, porque disse que ele iria perder a eleição, e perdeu.

Pesquisa feita por Matias em 1994 não agradou assessores do candidato a governador Chiquilito Erse. Foi demitido da campanha e Chiquilito perdeu a eleição

Mas para quem eu mais fiz pesquisa até hoje foi o PMDB, agora MDB. O Raupp só trabalhava em cima das minhas pesquisas. Até a última eleição, de 2018, essa eleição que deu Confúcio. O Raupp me pediu pra fazer uma pesquisa em 18 municípios, eu vim, tabelei a pesquisa, cheguei no MDB no dia da convenção, aquela briga toda da convenção, e que houve tapa, houve beijo, e o Raupp não aceitava o Confúcio como candidato. Tivemos uma reunião e ele perguntou o que fazer, e eu disse que se saísse só um candidato (eram duas vagas ao Senado), não elegeria nenhum, se saísse dois, elegeria um. O resultado foi que saíram 2, contra a vontade do Raupp e da Marinha Raupp (esposa do então senador), elegeu o Confúcio, muito arrastado, conforme eu havia previsto na pesquisa.

Mas era preciso que eu fosse além, buscar melhor conhecimento e, para isso, algumas pessoas foram fundamentais para mim. Com esse apoio, fui fazer cursos para aprender a parte científica da pesquisa.

O deputado Francisco Sales, de Ariquemes, de quem eu era assessor na Assembleia, me pagou dois cursos de pesquisa. Um curso pelo Sebrae, em Cuiabá, pesquisa de mercado, pesquisa de investigação de mercado, e o curso de pesquisa política que fiz no Rio de Janeiro. Foi uma semana lá, pago pelo deputado Francisco Sales, ele mesmo, do bolso dele, pagou para mim. Também incluo como pessoas que me ajudaram na formação em pesquisador, o ex-governador José Bianco e seu irmão Arnaldo Bianco.

Outra situação de pesquisa é que o programa de pesquisa, da minha pesquisa, é baseado no programa da revista Isto É. Eu uso o programa da revista Isto É. Quem me concedeu isto foi um matemático da Unir, que me ensinou baseado no programa da Isto é, e é baseado nele que eu trabalho, que é um programa perfeito. Minha filha Priscila, que fez o curso de bacharel em contábeis, fez pra mim um programa baseado nisso que é o que eu uso. Eu trabalho com voto, não trabalho com o percentual da rua, 1, 2, 3, não. Eu trabalho com voto. Por exemplo, em PVH, a zona leste tem uma media de 89.000 voto validos, a zona sul 84.000 votos validos, trabalho com isso ai, a zona norte com 70 e poucos mil votos validos, eu trabalho com isso aí. Eu trabalho com votos validos, quem recebe o meu resultado, recebe de votos validos, não recebe de votos brancos, nulo, nem de abstenção, é voto valido mesmo, ou de legenda ou nominativo.

Já fiz pesquisa no Acre, a de 2002 que você viu, mas já foram várias naquele Estado. Fiz também no Amazonas, já fiz pesquisa no Pará, contratado por uma empresa de São Paulo, trabalhei com uma pesquisa de investigação de mercado, já fiz também várias pesquisas de mercado aqui em Porto Velho. Pesquisei já no Estado todo, e tenho felicidade em dizer que para a eleição majoritária, eu sempre acertei em todos os sentidos.

Já tive problemas sérios com o Mario Calixto. Tive vários problemas com ele, porque eu trazia os números e ele procurava alterar, depois escondia de mim, tabelava já com os números que vinham lá da revista Isto É. Pegava a pesquisa, ia ao Rio ou a São Paulo e quando voltava ele alterava aqui os números. A gente entrou em conflito várias vezes, por Cacoal e Ji-paraná. Onde eu dava o número certo e era o resultado que saía das urnas.

E as pesquisas vão seguindo. Às vezes eu faço por conta própria, como essa do returno da eleição em Porto Velho. Essa agora, que deu o resultado, eu fiz por conta própria, porque o Hildon Chaves disse que não queria a pesquisa, que já tinha um grupo fazendo pra ele. A Cristiane Lopes, para quem eu já tinha feito duas pesquisas, não quis mais a minha pesquisa, porque eu não a colocava vencendo a eleição. Não quiseram mais.

Mas, na sexta-feira, eu mandei pra todos eles a pesquisa que eu tinha feito por conta própria, 56% pro Hildon e 34% pra ela, né. Eu mandei pra você também, mandei pro Carlos Araújo, mandei pro doutor Lenzi (MDB), mandei para o Zezinho Maria Fumaça, para o  Hildon Chaves e para sua assessoria, mandei para várias pessoas para confirmar que a minha pesquisa era a correta.

Foi assim eu me tornei um pesquisador conhecido. Esse ano, por exemplo, eu fui procurado por várias pessoas, inclusive o deputado  Leo Morais procurou falar comigo, pessoas me ligavam pra saber como que estava a situação. E eu acho que eu tenho hoje a condição de dizer que eu faço pesquisa sem mentiras, não recebo dinheiro para mentir, não vendo resultado. Eu faço pesquisa para ser a pesquisa e nunca o resultado. Quem me contrata sabe, recebe a pesquisa do jeito que ela sai da rua, e nunca do jeito que ele pode querer, maquiada. Um dia eu fiz pesquisa também para um rapaz de Salvador, que estava querendo investir numa campanha aqui, e me chamou pra fazer uma pesquisa pra ele, uma empresa de Salvador. E aqui várias empresas já me contrataram para fazer pesquisas, não só de mercado, mas de política. E assim é a minha vida de pesquisador aqui, desde 1984, mas a minha empresa existe desde 1991. Assim é a minha luta, e como você sabe eu sou do Ceará, e já estou aqui há tempo bastante pra ter 6 filhos daqui e ter 15 netos, e agora vou ter uma bisneta. É a minha luta nessa condição hoje.

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