Naquele 1976 as micros comunidades ao longo da BR-364 estavam em plena ebulição com a chegada das milhares de famílias que vinham para a “Terra sem homens para homens sem terra”

Lúcio Albuquerque

PORTO VELHO – Minha primeira eleição em Rondônia foi em 1976, um ano depois de chegar aqui “para ficar três meses”. Fazem mais de 40 anos. Em Porto Velho seria escolhida a sétima composição da Câmara Municipal – as primeiras quatro antes da década de 1930 e as duas seguintes em 1969 e 1972. Naquele 1976 as micros comunidades ao longo da BR-364 estavam em plena ebulição com a chegada das milhares de famílias que vinham para a “Terra sem homens para homens sem terra”. O resultado da disputa iniciou o que, dali em diante, vem acontecendo nas lutas eleitorais de Rondônia, onde as sucessivas eleições para deputado estadual e até para governador mostram a força do voto “no vizinho”, o que eu chamo de “voto distrital à moda rondoniense”.

Foi na eleição de 1976 que Rondônia conheceu a força política das comunidades ao longo da rodovia BR-364. Naquele ano aconteceu a terceira disputa (contadas a partir de 1969) pelas vagas à Câmara portovelhense, quando ainda as terras do município se estendiam até Vilhena: dos 13 vereadores, sete vieram daqueles distritos, um de Vilhena, um de Pimenta Bueno, um de Cacoal, um de Presidente Médici, dois de Vila Rondônia (em 1977 – Ji-Paraná) e um de Ouro Preto.

A partir da direita, Rochilmer Rocha, Amir Lando, Jerônimo Santana, José Guedes e Arnaldo Martins. Só Amiir e Guedes estão vivos

Naquela eleição um fato chamou a atenção: a monolítica liderança do deputado federal Jerônimo Santana, eleito em 1970 e reeleito em 1974, começou a ser desafiada por um grupo do próprio MDB, formado por vereadores de Porto Velho, incentivados pelo secretário-geral do partido Enjolras Araújo Veloso, que criticava a forma como Jerônimo dirigia o regional – à época, quando já se falava muito na criação do Estado, houve citações de que Santana estava começando a temer a sombra representada pelo grupo.

E a razão para o problema pode ter sido como incentivado o fato do deputado ter passado a dar mais atenção a um grupo de candidatos, hostilizando os vereadores, cisão que ficou bem clara quando formaram-se duas alas, uma conduzida pelo próprio Santana e outra liderada por Enjolras contando com os vereadores Luis Lessa Lima, Clóter Mota, Abelardo Castro e Paulo Struthos Filho (dos quatro só Lessa não foi reeleito).

Nos comícios, o grupo de Jerônimo realizava num bairro da cidade e a ala rebelde em outro. Contados os votos, o deputado perdeu, porque apenas um do seu grupo, o advogado Itamar Moreira Dantas, foi eleito – o restante da bancada que se tornou majoritária veio do interior.

Jerônimo Santana tinha sido eleito duas vezes deputado federal pelo MDB, sempre com o mesmo discurso: a favor da garimpagem manual, defesa do colono e da criação do Estado, além de pesadas críticas aos governadores. “Ele poderia ter ajudado muito, mas só sabia criticar, atrapalhou demais”, disse em sua casa em Brasília o ex-governador Humberto Guedes (1975/1979) em conversa sobre sua  administração. Humberto Guedes foi o responsável pela estruturação do projeto do Estado, conforme assessores que trabalharam com ele e que fizeram parte da equipe do seu sucessor Jorge Teixeira.

(*) Publicado na série de minha autoria, “1964 em Rondônia”, publicado no site gentedeopiniao.com.br e no jornal Alto Madeira, em 2014.

Lúcio Albuquerque (*)