Ela começou servindo cafezinho na Câmara, foi vereadora, secretária, deputada estadual, presidente da Assembleia e vice-governadora; aos 75 anos, tem aposentadoria do INSS e nenhum filho no serviço público

Carlos Araújo

PORTO VELHO – Nascida em um seringal na região de Porto Acre, negra, pobre e órfã ainda criança é uma bofetada na face daqueles que gostam de relacionar atos criminosos com falta de oportunidade na vida. Odaísa Fernandes ficou órfão de mãe ainda em tenra idade e de pai aos sete anos. Adotada por uma família de Rondônia, foi trazida para Porto Velho, mas não descalçou seus sapatos de seringa e voltou para os seringais e colônias agrícolas, com os quais seu pai de criação negociava. Morou na Colônia Agrícola do Iata, em Guajará Mirim, e na Colônia Agrícola dos Tanques, em Porto Velho.

Ainda menina, em razão de seu pai ser politizado e seguidor do coronel Aluízio Ferreira e dos Cutubas, corrente política elitizada que rivalizava com os Peles Curtas, do Dr. Renato Medeiros. Participava de comícios e marchas políticas, cantava marchinhas e paródias em favor de Aluizio Ferreira, nas campanhas eleitorais fervorosas de Porto Velho e vivenciava o calor das eleições do então Território Federal de Rondônia.

Casada durante 47 anos com José Fernandes, para ajudar na manutenção da família foi vender lanches na mineração, onde servia tapioca, cuscuz e almoço. Seu ingresso na vida política se deu por onde menos se esperava. Cutuba de origem, mas de forma paradoxal – posto que era negra e pobre -, foi trabalhar como zeladora e cafezeira na Câmara Municipal de Porto Velho, no final da década de 1970, e foi nessa função e por sua simpatia e carisma, que foi convidada pelo presidente da Casa, vereador José Viana, representante do distrito de Vila de Rondônia (atual Ji-Paraná), para filiar-se ao PMDB e sair candidata a vereadora nas eleições de 1982. Num repente, ela passava de cutuba a pele curta.

Eleita vereadora em 1982, integrou a bancada do PMDB na câmara de Porto Velho, com destacada atuação parlamentar que alavancou seu nome para ser a candidata a deputada estadual mais votada de Porto Velho para a Assembleia Legislativa, onde integrou a Assembleia Estadual Constituinte e tornou-se signatária da segunda constituição do estado de Rondônia, promulgada em 28 de setembro de 1989.

Sempre antenada com a conjuntura política nacional e pautando sua trajetória pela ética, fez parte do grupo do PMDB que, em 1988, deixou o partido para fundar o PSDB, do qual é uma das principais fundadoras em Rondônia.

Em 1990 conquistou o segundo mandato de deputada estadual. Nas eleições de 1994 tentou alçar voo mais alto e foi candidata a deputada federal, mas, por apenas 500 votos ficou na primeira suplência do PSDB, tendo assumido em 1996.

Odaísa voltaria à política partidária quando foi eleita vice-governadora na chapa liderada por Ivo Cassol, em 2002. Odaísa se tornaria, assim, a primeira mulher a exercer este cargo no estado, e a primeira negra e, nessa trajetória, foi também a primeira mulher e negra a presidir a Assembleia Legislativa.

Com toda essa trajetória, aos 75 anos de vida Odaísa se revela, agora, uma face diferente daquela que o Brasil acostumou a vislumbrar nos seus políticos. Numa exacerbada demonstração de que jamais se locupletou ou usou os cargos e poder que assumiu para beneficiar a si própria ou a alguém de sua família. Não tem nenhum dos filhos empregados no serviço público, é aposentada pelo INSS – como a imensa maioria dos brasileiros – e vive em seu modesto (e bota modesto nisso…) apartamento em um condomínio de Porto Velho.

Confira a entrevista

Expressão Rondônia: Vamos iniciar falando como foi a história da Câmara, o que você foi fazer na Câmara. O presidente da câmera quem era?

Odaísa: O presidente da Cãmara nesta época era José Viana dos Santos e eu fui pedir um emprego. Era início dos anos 1980, meu esposo estava doente e eu precisava trabalhar, tínhamos quatro crianças pequenas, não tinha como dar o pão de cada dia para eles.

Expressão Rondônia: E o José Viana era de onde? Era daqui mesmo de Porto Velho?

Odaísa: José Viana era vereador na Câmara Municipal de  Porto Velho, representando Ji-Paraná. Em Rondônia, antes de se tornar estado, os vereadores de todos os municípios vinham para Porto Velho, para a Câmara Municipal, como se fosse a Assembleia Legislativa hoje. Aí, eu fui lá com ele e ele disse: “dona Odaísa, eu tenho duas vagas. Uma na contabilidade e outra na no plenário.” “Seu Viana, eu não entendo de contabilidade, a não ser quando me dá o troco errado. Agora tratar as pessoas bem, desde criança eu tive esse dom, porque a coisa mais importante é o ser humano. a gente tem que ter respeito pelo ser humano independente da posição de cada um”. Fui trabalhar no plenário, servindo café para os vereadores, ajeitava o microfone. Passado um tempo, o seu Viana me chamou e me pediu para sair candidata à vereadora em 1982. Não tinha nenhuma condição de sair candidata. Mas segundo o senhor Viana, somente o carisma, a dedicação e o carinho fariam com que eu ganhasse a eleição. Eu também trabalhava na cantina da escola Major Guapindaia. Aí saí. Tive 1274 votos. O falecido Olavo Pires me deu 500 santinhos – o que muito pouco já naquela época – e foi rapidinho para distribuir. Depois, mandei fazer um carimbo com meu número e nome, carimbava pedaços de papel e entregava às pessoas. No dia da eleição, votei e voltei pra casa, pois era aniversário das minhas filhas. Antigamente a eleição era em novembro e tenho duas filhas que nasceram no dia 16 de novembro. Estava fazendo almoço quando o Olavo Pires chegou lá em casa e disse assim: “O que é que você tá fazendo aqui?” “Fazendo almoço para minha família”. Ele retrucou: “Você tá ganhando a eleição e não tá fiscalizando os seus votos. Vamos para lá.” Aí, fui para lá. Quando cheguei lá era 10, era 15, era 20… E de repente eram 1274 votos. Só agradeci, pois não sabia como ganhei aquela eleição, porque eu andava a pé, às vezes de bicicleta com meu marido, o pneu furava e a gente continuava andando à pé. Foi nessa luta que eu ganhei a minha primeira eleição.

Expressão Rondônia: Três anos depois, o Guedes virou prefeito em 1985, naquele mandato tampão?

Odaísa: Sim. Foi quando eu assumi.

Expressão Rondônia: Você não assumiu o mandato logo em 1982?

Odaísa: Não. Eu era vereadora e o mandato era de seis anos. Fui convidada para ser secretária de Ação Social e lá idealizamos e concretizamos os bairros Tancredo Neves e o JK e quando eu saí, estávamos terminando de finalizar o Tancredo. Na eleição de 1986, eu fui a mais votada em Porto Velho. Disparei mesmo, mas como deputada estadual. Pelo PMDB e depois saímos e fundamos o PSDB juntamente com o Guedes. Nós somos fundadores nacionais do partido. O primeiro diretório registrado foi o nosso. Nós tivemos uma participação importante na direção nacional, fizemos parte da direção também. E foi isso. Depois fui reeleita em 1990, fui vice-presidente da Assembleia, presidente e vice novamente e posteriormente, fiquei sem mandato. Fui presidente da Assembleia numa época com muita dificuldade. O pagamento atrasava, tinha greve. Aí eu assumi. No mês de dezembro na época, o pessoal não tinha recebido nem o salário, nem o décimo terceiro. Fui com o presidente do Banco do Estado de Rondônia (Beron), Erasto Vila Verde, e expliquei que não podia deixar os funcionários com salários atrasados, décimo terceiro, pois eles mereciam um tratamento de respeito. E o banco mandou funcionários para a Assembleia para efetuar o pagamento de todos.

Expressão Rondônia: Em 1994, você se candidatou a deputada federal?

Odaísa: Sim, mas não obtive votos necessários. Fiquei de fora por 500 votos.

Expressão Rondônia: Quando ficou sem mandato, o que fez Odaísa Fernandes?

Odaísa: Dona de casa. Sempre gostei de ser dona de casa. Sempre gostei de cozinhar, cuidar da casa, me sinto bem, desde criança.

Expressão Rondônia: E a volta à política?

Odaísa: Seu Reditário Cassol – pai do Ivo, do César e da Jaqueline Cassol – me procurou para que eu saísse candidata à vice do seu filho Ivo Cassol, pois havíamos sido deputados juntos, tínhamos uma amizade e ele sabia que o meu nome alavancaria votos para o Ivo. Saí candidata. Isso em 2002, fomos eleitos, cumprimos o mandato e agora eu estou quieta.

Expressão Rondônia: Quer dizer que de 1995 a 2002, sua participação política foi somente militância partidária?

Odaísa: Sim, como presidente do PSDB, secretária-geral, direção nacional, eu era membro do instituto Teotônio Vilela, eu fiquei só na militância política.

Expressão Rondônia: Como foi a sua experiência como vice- governadora?

Odaísa: Houve altos e baixos. Para mim, foi a época mais difícil que eu achei. Não sei porque eu tinha uma esperança de fazer algo aqui em Porto Velho. Por exemplo, o Cai N’água para mim é uma vergonha e eu tinha vontade de fazer algo, aí eu não tive condições de fazer porque não tive espaço. O João Paulo para mim é uma tristeza. Eu tinha vontade que o nosso governo tivesse feito um hospital de vergonha para servir a população do Estado.

Expressão Rondônia: O Ivo não apoiava?

Odaísa: Tínhamos mais atrito do que entendimento. Chegou um ponto em que ele exonerou todo mundo do meu gabinete e até o carro ele tomou. Tive que comunicar a direção nacional, pois sempre fui muito partidária e eles tomaram uma atitude muito séria, o cobraram e ele decidiu sair do partido para que não chegasse ao ponto de ser expulso. A direção nacional mandou um advogado de Brasília para me defender aqui. Aí ele foi obrigado a devolver os cargos, eu ganhei na Justiça. Depois disso, não queria mais saber de política, nem entrevista mais quero participar. Uma decepção muito grande.

Expressão Rondônia: Quais foram suas outras obras como deputada?

Odaísa: Olha, se hoje as mulheres têm a Delegacia da Mulher, foi projeto meu. Se os professores de 1ª à 4ª série tem uma gratificação, foi projeto meu. Se o ensino especial hoje tem o seu percentual, foi projeto meu. Então se hoje, as mães não precisam mais fazer laqueadura clandestinamente, foi projeto meu. Eu sempre trabalhei porque eu acho que a coisa mais importante no político é saber que o povo assina um cheque em branco para dar um mandato para ele. Ele é um funcionário do povo e eu sempre tive isso comigo. Eu acho que a gente quando se elege, tem uma responsabilidade muito grande, com as pessoas que nos colocaram ali e com os outros também.

Expressão Rondônia: A senhora começou como vereadora, foi deputada estadual, assumiu secretarias, assumiu como deputada federal porque era suplente, foi presidente de um poder. No entanto o nome de Odaísa Fernandes nunca apareceu envolvido com denúncia de corrupção ou maracutaia. Qual é o segredo para manter a dignidade?

Odaísa: Mas eu respondo processo, você que não sabe. Quando fui secretária de Ação Social, o juiz determinou que eu comprasse os colchões porque os meninos haviam queimado os colchões, senão eu ia ser presa. E o que eu fiz? Comprei os colchões e respondo até hoje.

Expressão Rondônia: O que a Marina Silva – que tem o mesmo berço que você e também veio de um seringal e ascendeu na vida politicamente – representa para você?

Odaísa: Uma guerreira. Mas eu acredito que para ser presidente do Brasil, as pessoas analisam um contexto muito amplo e ela não se enquadrou nesse contexto. Apesar de eu nunca ter votado na Marina, apesar dela ser dinâmica, é uma guerreira, é mulher, mas eu nunca votei nela porque sempre tive uma preocupação muito grande. Ela é muito ligada às ONGs e algumas ONGs têm deixado muito a desejar. Então eu sempre tive essa preocupação com a Marina.

Expressão Rondônia: Sendo mulher negra, órfã aos sete anos de idade, mas que sobressaiu na vida sem muita confusão. O que representa para ti, o feminismo?

Odaisa: Fé em Deus. As coisas aconteceram de uma forma que eu não sei te explicar. Só confiando naquele que é o dono de tudo. Eu sempre confiei em Deus. Mulher, negra, pobre, órfã e chegar aonde eu cheguei num país onde as mulheres ainda são discriminadas e muito –  mulher negra nem se fala, então – e pobre, não é fácil. Mas, graças a Deus, me sobressaí sem nunca me apegar a esses rótulos ou modismo.

Expressão Rondônia: E como assenhora lidou com essas discriminações que ocorreram ao longo da sua vida?

Odaísa: Nunca sofri. Por incrível que pareça. Sempre fui respeitada pelos meus colegas, tanto que fui presidente da Comissão da Ordem Econômica Social da Assembleia, que muitos queriam e eu consegui. Fui presidente da Assembleia. Então eu posso dizer que a minha estrela sempre brilhou e que Deus sempre me abençoou e continua me abençoando. Estou com 75 anos de idade muito bem vividos, graças a Deus. Bons amigos, meus filhos são maravilhosos, eu não posso me queixar. Somente agradecer.

Expressão Rondônia: Na sua concepção, quem foi o melhor presidente do Brasil pós-regime militar?

Odaisa: Com todo respeito aos que pensam diferente, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Não por eu ser do PSDB. Isso não justifica porque foi um grande presidente para o Brasil. Hoje nós temos saudade do FHC. Atualmente, temos um presidente que está tentando colocar o Brasil nos eixos, mas é muito pouco tempo para fazer uma análise mais profunda.

Expressão Rondônia: Na primeira parte desta entrevista teve uma coisa que ficou martelando na minha cabeça que eu queria esclarecer agora. A senhora ainda se lembra de músicas que cantava na época de Aluísio Ferreira. E naquele tempo você pertencia a corrente denominada cutuba. No entanto, depois a senhora saiu candidato pelo PMDB que era a corrente que representava os ‘peles curtas’, as duas correntes então que dominava a Rondônia como foi essa transmutação, o que aconteceu?

Odaisa: O meu pai era ‘cutuba’ de chapeuzinho, ele era comerciante e eu me casei com um ‘pele curta’. Aí eu não podia desagradar ao meu marido. Ele era oposição. Então tive que acompanhá-lo se não eu estaria traindo meu marido. E isso eu jamais faria com ele. Então eu passei a ser oposição. Isso estava no meu coração, porque o que eu queria mesmo era ser pele curta, que fui desde criancinha.

Expressão Rondônia: Como é que é a Odaísa agora, fora da política já curtindo a sua aposentadoria?

Odaísa: E aposentado pelo INSS, que fique bem claro. Não foi como deputada, nem como vice-governadora. Mas pela contribuição com o INSS. E tem mais uma coisa que eu vou te dizer. Os meus tempos de serviço da Assembleia não apareceram porque contaram.

Expressão Rondônia: Como é que a senhora – uma pessoa que entrou na política pobre e saiu pobre, mas com dignidade – analisa a política hoje, com tanta denúncia de corrupção, de rachadinha nos gabinetes da Assembleia, enfim, tanta coisa errada.

Odaísa: Moro num apartamento pequeno que os meus filhos compraram e vivo de cabeça erguida. Tranquila. Sei que estou passando uma chuva, o dia de amanhã não sei. Estamos aqui conversando e de repente, amanhã, qualquer um se vai. A nossa vida é igual uma vela. Ela tá acesa e pode apagar a qualquer momento. Eu fico muito triste porque eu acho que, para se ter o suficiente para se manter não precisa fazer esse tipo de coisa. A gente vê cada coisa e fico me perguntando: “meu Deus, será que as pessoas pensam que vão levar o que elas conseguiram aqui?”. Então se você tem um salário digno, se dá para se manter com a sua família, não precisa essa ganância que está acontecendo hoje.

Expressão Rondônia: Qual o seu sentimento em relação ao ex-governador Ivo Cassol?

Odaísa: Não tenho queixa nenhuma. Desejo que Deus o abençoe e que ele se saia bem. São coisas da política.

Expressão Rondônia: Nesse tempo como partícipe da política, quem foi o melhor governador pra Rondônia, no seu ponto de vista?

Odaísa: Olha, eu te digo que pra mim, particularmente, foi o coronel Marcos Henrique juntamente com sua esposa, dona Laurinha. Eles cuidavam muito da área social. Eles olhavam muito para as pessoas. Eu admiro muito as pessoas que olham para o ser humano como ser humano.

Expressão Rondônia: O Coronel Marcos Henrique foi aquele que criou o bairro Pedacinho de Chão?

Odaísa: Sim, ele tirou o pessoal do Cai N’água. A dona Laurinha se empenhou muito nisso. Eles eram muito humanos.

Expressão Rondônia: Vamos encerrar nossa entrevista com uma mensagem da Odaísa, já que estamos em período natalino.

Odaísa: Digo aos rondonienses que temos que ser mais gratos a Deus por tudo que nós temos, que seja muito, que seja pouco, mas nós agradecemos pela vida, pelo pão de cada dia, pela família, porque hoje a gente vê tantas famílias desnorteadas, com filhos nas drogas, com dificuldades. Então, nós temos que apelar para o alto e não vai demorar muito a vinda do filho de Deus, pode acreditar. Em época de natal nós temos que orar muito, pedir muita proteção dos céus, porque todos nós precisamos. Não adianta nada material, tudo é espiritual e vem dos altos. Eu peço a todos que não pense só em roupas novas, nem só em banquete. Pense em orar e pedir proteção dos autos para nós e todos nossos amigos e familiares e ser humano de modo geral. Fazer o bem sem olhar a quem é a coisa mais importante para todos nós. Que Deus nos proteja nos dando muita força e luz. No mais, muito obrigada pela consideração pelo carinho que você sempre teve por mim. Obrigada mesmo.

Expressão Rondônia: Eu que agradeço!

Entrevista a Carlos Araújo e Francisco Matias

Decupagem: Hilda Beatriz

colaboração: Humberto Oliveira