Quem tem menos de 50 anos provavelmente não ouviu falar de Luiz Vieira, uma das personalidades da nossa música muitas vezes deixadas de lado, por conta da amnésia promovida pelos que dominam os meios de comunicação atualmente. Lamentavelmente, existe espaço sobrando para nulidades e pseudos artistas de carreira efêmera, porém, com tempo suficiente de se tornar milionários da noite para o dia.

Nascido em Caruaru, Pernambuco, em 1928, batizado como Luiz Rattes Vieira Filho, aos dois anos de idade ficou órfão de mãe. Com os irmãos, foi criado pelo avô materno. O nome artístico Luiz é homenagem ao avô Luiz José Vieira e que para ele foi seu Sócrates, seu Platão. Com o avô aprendeu a gostar da cultura nordestina, por meio das histórias e causos contados e ouvidos atentamente na infância.  Estudioso das músicas de cordel, Luiz Vieira não gostava de ser chamado de cantor, mas, sim, de cantador.

Antes dos dez anos mudou-se para o Rio de Janeiro, sendo criado pelo avô em Alcântara, município de São Gonçalo. Na ex-capital federal exerceu diversas atividades antes de ingressar na vida artística. Foi chofer de caminhão, motorista de táxi, guia de cego, engraxate e lapidário. Em criança cantou em circos e parques de diversão. Aos oito anos, produziu sua primeira composição.

Começou a carreira trabalhando no programa matinal de Zé Norte, Manhãs na roça, compondo jingles para os anunciantes, cantando música nordestina, escrevendo anúncios de casamentos, nascimentos, batizados e óbitos.

Por sua persistência, Zé do Norte lhe deu a primeira oportunidade. Nesta época conviveu com grandes mestres da música brasileira como Augusto Calheiros, Geraldo Pereira, Wilson Baptista, Ataulfo Alves, Almirante, Altamiro Carrilho, Carlos José, Lúcio Alves, Lupicínio Rodrigues e tantos outros.

No início da sua carreira cantava músicas românticas, valsas e sambas-canções. Apresentou em todos os programas de calouros da época, dentre eles o de Renato Murce e de Ary Barroso, no Rio. Foi crooner de orquestra num cabaré do bairro da Lapa e contratado pela Rádio Tupi por intermédio de Paulo de Grammont.

Em 1950 foi  contratado pelas rádios Tupi e Record, de São Paulo, que pertenciam às Emissoras Associadas. Atuou na rádio Tamoio, no programa Salve o baião, tornando-se “o príncipe do baião”, ao lado do Luiz Gonzaga, o “rei”, Carmélia Alves, a “rainha e Claudete Soares (antes de enveredar pelo samba canção), como a “princesinha”.

A canção Menino de Braçanã, de 1953, foi seu primeiro sucesso, na voz de Roberto Paiva e, em seguida, o cantor Ivon Curi também gravou. Lúcio Alves deu interpretação personalíssima a esta canção gravada décadas depois pela roqueira Rita Lee.

Em 1962, Luiz Vieira ganhou as paradas de sucesso com a canção Prelúdio Pra Ninar Gente Grande, mais conhecida como Menino Passarinho. Em 1963 gravou outro grande sucesso, Paz do Meu Amor (Prelúdio nº 2). Chegou a fazer diversas viagens aéreas por semana, para fazer cinco programas de televisão. Viajava do Ceará ao Rio Grande do Sul.

Por mais de 25 anos, Luiz Vieira comandou o programa Minha Terra, Nossa Gente, primeiro pela Rádio Nacional e anos depois sendo transmitido pela rádio AM Rio de Janeiro e Rádio Carioca. O compromisso era contribuir para a cultura geral de seus ouvintes.

Um programa caracterizado e reconhecido pelo nível, seriedade, qualidade e coerência com princípios éticos e estéticos de sua programação. Luiz Vieira prestou um tributo aos intérpretes e compositores do país. Desta forma, acaba desempenhando o papel de um historiador informal da música popular — mais do que tarimbado, já que também foi ator dessa trama.

Usando um daqueles batidos clichês, poderíamos dizer que, no caso de Luiz Vieira, a obra suplantou o autor em diversos momentos. Podemos ter ouvido suas músicas sem nos darmos conta disso, pois dezenas de intérpretes já cantaram seus versos: Lúcio Alves (Menino de Braçanã); Carmélia Alves (Forró do tio Augusto e outras); Caetano Veloso (Na asa do vento); Zizi Possi (de novo Menino de Braçanã); Fagner (Paz do meu amor); Sérgio Reis (Cantiga para ribeirão); Maria Bethânia (Estrela miúda); Elba Ramalho (também com Estrela miúda); Carlos Joé (Guarânia da saudade), Nilton César (Guarânia da lua nova) totalizando mais de 500 músicas, em sua maioria com forte traço de regionalismo, com destaque para a incorporação da fala do povo.

Sobre a desinformação crônica das novas gerações, ele tem a seguinte opinião: “O jovem, em geral, não é culpado. Culpados são nossos disc jóqueis que não tocam música brasileira. Acho que há espaço para todos. Poderiam, ao menos, tocar as músicas comerciais e separar um espaço para as brasileiras, que é para historiar”. Aos 88 anos Luiz Vieira segue sua jornada, afinal, ele já se eternizou como o menino passarinho.

HUMBERTO OLIVEIRA

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