“A gente sabia dia de hora da saída, mas ninguém sabia o que vinha pela frente. Nem se a gente chegava”

Lúcio Albuquerque

PORTO VELHO – Um dia qualquer, de uma cidade qualquer do interior paranaense, catarinense ou outro Estado do país, uma hora qualquer de um ano qualquer entre 1966 e 1982. O dia ainda nem clareou, crianças menores choramingavam, as maiores se divertiam, casais de namorados repetiam juras, pais e parentes davam um abraço em quem partia, as malas e móveis, às vezes até cães e outros animais, todos amontoados na carroceria de um caminhão numa viagem em busca do eldorado onde, diziam os recrutadores ou a propaganda oficial, ou as cartas dos que já foram na frente, tinha terra a perder de vista. E de graça, só que tinha de desmatar metade conforme a orientação do Incra.

1960 – Para provar que a estrada era viável o governador Paulo Leal mandou vir de São Paulo uma comitiva de caminhões comprados pelo Território. Viagem durou justos dois meses

“A gente nem sabia direito pra onde estávamos indo. A gente sabia dia de hora da saída, mas ninguém sabia o que vinha pela frente. Nem se a gente chegava”, disse “seu” Ademir, sentado num boteco que servia também de rodoviária na então vila de Presidente Médici, em 1975, conversando comigo. Ele veio com a família (mulher, três garotos e uma menina) saídos da região de Maringá em 1970. “Um dos ‘piás’ ficou pelo meio do caminho”, fala enquanto toma mais duas doses da pinga, tirando gosto com ovo frito, olha para o vazio como se estivesse lembrando do pequeno.

“Seu” Ademir (**) conseguiu uma terra perto de Médici e veio até a cidade, ainda uma vila, fazer compras, algumas delas no boteco que, além de rodoviária, servia ainda de armazém. No Paraná, explicou, era meeiro mas preferiu se aventurar, depois de ver que não estava rendendo. “Quando a gente veio o medo era de índio e de malária. Agora já passou”.

Coberta de palha, a primeira igreja católica de Presidente Médici, no início “Vila Trinta e Três” ou, como diziam em Vila Rondônia, “Pela Jegue”, e isso dava confusão

O boteco, misto de armazém, salão de sinuca e local de encontro de quem morava nas redondezas, era também parada do ônibus. Eu estava voltando de uma matéria em Vilhena, sobre um homem que garantia ter sido abduzido por um disco voador quando estava saindo da agência do Banco do Brasil em Campinas (SP) e surgiu, dois dias depois, no início da manhã, sentado na frente da casa do administrador de Vilhena. Foi minha primeira matéria em Rondônia. Eu fui de avião alugado pelo jornal e resolvi voltar de ônibus para ver como era a terra para onde tanta gente migrava, só Deus sabe como conseguiram chegar – e como sobreviveram.

NÃO É ÚNICA HISTÓRIA

A história de “seu” Ademir não é única. E poderia nem ter acontecido, com ele ou os outros que vieram um pouco antes ou depois. Mas como aconteceu, há muitas outras por aí ainda a serem descobertas por quem queira escrever sobre como foi a luta para desbravar esse pedaço de Brasil, onde além da desconfiança causada pela desinformação o primeiro grande obstáculo era a viagem numa rodovia aberta em 1960 e que menos de três anos depois, como o homem não conserva, a “trilha” aberta na mata virgem praticamente fora abandonada por sucessivos governos.

A viagem no tempo da BR sem asfalto era uma imensa aventura, e isso já desencorajava muitos, mas quem teve coragem de enfrentar ri muito dos atoleiros

Pode ter sido coincidência, mas o Governo só se voltou para a região quando, na base da coragem (seria loucura mesmo?), os jornalistas Milton Alves e Vinícius Danin, em junho de 1963,  montaram numa lambreta na praça Jonatas Pedrosa, em Porto Velho, e foram pedir ao presidente João Goulart que não deixasse a única via de passagem rodoviária para a Amazônia Ocidental ser fechada pela selva. Imaginem o que foi a viagem, sem qualquer ponto de apoio, cidades onde não tinha praticamente nada e telefone era coisa que só sabia quando ia ao Cine Sete Irmãos.

Goulart, por interferência do médico e deputado federal Renato Medeiros, recebeu a dupla, mas não fez praticamente nada. No entanto, dois anos depois o presidente Castelo Branco constituiu o 5º Batalhão de Engenharia de Construção e o BEC chegou a Porto Velho em 1966, e já deixou dois contingentes interiorizados, em Vila Rondônia e Vilhena e, apesar de todas as dificuldades, a estrada deu passagem melhor.

Motoqueiro passa na Vila Papagaio, apelido de Ariquemes antes da construção da nova cidade em 1977. (Foto Kim Leal – acervo Montezuma Cruz)

Mas, mesmo assim, vir para a região, ainda mais pela rodovia em plena selva, era um desafio imenso, e muitos desistiram. “Como dois irmãos meus, que preferiram voltar para trabalhar como boias-frias no interior de São Paulo do que enfrentar a selva, a malária, os índios e as onças”, como uma vez falou o agricultor Estevão dos Santos (“Não esquece de botar um “til”, ele recomendou).

“Teve um conhecido da nossa cidade que largou tudo e veio aventurar. Mandou uma carta contando que aqui a terra era de graça. O padre leu a carta na missa e sem nem saber onde ficava uma terra chamada Rondônia, vim assim mesmo. Juntei a mulher e o filho, pagamos a passagem num ônibus e levamos duas semanas para chegar numa vila. Descemos ali e conseguimos um lote na linha 128. Aparecia uns índios mas acabamos ficando amigos, mas no início foi muito medo. Era o ano de 1971”, e a vila ainda era chamada “Nova Cassilândia”, que só mudou para Cacoal por sugestão do jornalista do Alto Madeira Ciro Pinheiro.

A selva empurrando pelos dois lados, querendo retomar o que era seu, e a fila dupla de caminhões no indo e vindo dos atoleiros

“Seu” Estevão contava sua história no Restaurante Uruguai, em 1989, quando eu acompanhava deputados na discussão do projeto da 2ª Constituinte. “E o senhor como ficou?”.

“Para quem veio sem um vintém, trabalhou duro e agora tem dinheiro para pagar almoço aqui é porque melhorei. E muito. A família está criada, só a mulher anda meio doente e hoje viemos consultar. Mas se não pensava em voltar no início, agora muito menos”. O senhor voltou lá na cidade do interior paulista?

“Fui várias vezes, e até trouxe um dos que desistiram para trabalhar comigo. Lá eu era só boia-fria, trabalho meio ano. E se puder trazer mais eu vou fazer”.

“SEU ADEMIR”

Em 2018 eu estava fazendo uma pesquisa em Ji-Paraná sobre Vila Rondônia (o nome de Ji como era até 1977), para um doutorando em História. Estacionei o carro num posto de gasolina e na outra “bomba” uma caminhonete com carroceira de madeira, também abastecendo. Olhei e vi que em algum lugar dos meus arquivos da minha memória, meio apagados pelo tempo, eu havia visto aquele rosto numa das centenas de viagens que fiz em quase 50 anos de Rondônia, comendo poeira, desatolando carro, dormindo onde dava.

A construção da EFMM foi “uma epopeia”, com médicos, hospital e salários pagos, o que dizer da migração para Rondônia pela BR onde só havia esperança e muita coragem?

Fui até o homem, começamos a conversar e aí ele olhou para mim e disse: “É isso mesmo. Você e eu conversamos faz muito tempo no armazém em Presidente Médici”. Deu um estalo. Caramba! Mais de 40 anos. Veio meu problema de sempre: “Desculpe, estou lembrando, mas não do nome”. E ele: “É Ademir”. Abastecidos os carros convidei para o almoço, porque ficara interessado com o que acontecera no período.

Numa churrascaria na saída de Ji, botamos a conversa em dia. Contei que vim para Rondônia ficar três meses, “e como estou até agora não sei quando começa a contar nem quando termina e espero que não seja logo”. Aí ele contou que o lote que ganhara era uma faixa de terra boa, que mandou buscar dois irmãos que também receberam a terra, que os filhos já lhe deram netos, “e até um bisneto”, que enviuvara e casara mais duas vezes”.

“Mas aos 70 anos continuo trabalhando na agroindústria da família. Vim aqui para tratar de participar do “Rondônia Rural Show”. Vontade de voltar? “Não. No início foi muito duro, mas depois as coisas foram dando certo, comprei mais dois lotes. Hoje faço parte do nosso hino”.

Para provocar, perguntei: “Hino do Paraná?”. E ele: “Não, o que diz que eu sou um destemido pioneiro” – o hino de Rondônia. Depois do almoço, que acabou virando uma conversa de mais de três horas, ele voltou para seu lote e eu segui viagem.

Lamento pela foto. Até tentei, mas o celular estava zerado.

(*) É repórter, contato 69 99910 8325

(**) Quando conheci “seu” Ademir eu estava retornando de uma reportagem sobre um homem que teria sido abduzido por um disco voador em Campinas (SP).

Próximo domingo: O melhor repórter que já aportou aqui, Montezuma Cruz, conta algumas das muitas histórias de seu arquivo de memória.