Quantas vezes você, leitor, já parou para ver a dureza do trabalho dos garis?

Lúcio Albuquerque

PORTO VELHO – Todos os dias quem usa o Espaço Alternativo para alguma atividade física, paquerar, ou para nenhuma das duas coisas, vê sem perceber a mesma cena: um grupo de trabalhadores recolhendo lixo, carregando os sacos para o outro lado da pista onde serão colocados em viaturas de recolhimento. Dia e noite piloto e garis de cada carro coletor de lixo circulam pelas ruas da cidade. Em outros locais, como a área (ainda) arborizada no Marechal Rondon, ou fazendo a limpeza de feiras e mercados, eles estão ali, fácil de identificar porque normalmente estão de uniforme, mas poucos notam que eles estão ali e, pior, que são vitais a cada um de nós.

Mas esses trabalhadores, que ocupam funções humildes, mas de importância vital para qualquer aglomerado humano e que, ainda assim, às vezes chegam a ser humilhados, como aconteceu há alguns meses, quando uma mulher criticou uma gari que estava retocando a maquiagem, mesmo estando em trabalho, eles estão naquele grupo que comumente chamam de “invisíveis”.

Garis, e outros trabalhadores, que ocupam funções humildes, mas são de vital importância para a chamada organização e o bem-estar social, são o que se pode chamar de “Aquela gente que a gente vê, e nem percebe, mas faz muito pela gente”, inclusive para nossa saúde, segurança e outros itens considerados menores, mas que sem eles a vida se torna muito mais difícil.

Quem esteve em Fortaleza no final do ano de 1988, deve lembrar o estado em que se encontrava a capital alencarina: as ruas transformadas em lixões, tudo porque a prefeita pelo visto não estava muito empenhada em cumprir obrigações patronais, pagamento de salários, ou porque perdeu o controle da administração. Aquela gente que se torna invisível quando faz sua obrigação, logo se tornou visível quando cruzou os braços e quem primeiro sentiu o problema foram os moradores ou os visitantes, como eu e minha família. Um dia depois do prefeito eleito naquele ano tomar posse, a cidade estava em mutirão de limpeza. Os invisíveis se tornaram visíveis novamente.

Quantas vezes você, leitor, já parou para ver a dureza do trabalho dos garis? Observe os riscos de um serviço onde, pôr mais luvas e outros apetrechos que usem, como máscara, estão todo o tempo em contato direto com a sujeira, arriscando suas saúdes, e até correndo o risco de adquirirem uma doença, como o tétano, ao recolherem sacos de lixo onde, muitas vezes, há espetinhos de churrascos, cacos de garrafas e outros restos de objetos ponteagudos que podem gerar uma doença grave.

Essa gente invisível é facilmente encontrada limpando um local público, como um bueiro ou um dos muitos canais que cortam cidades como Porto Velho, onde moradores, pouco depois do serviço de desentumpimento ser feito, vêm de suas casas e jogam todo tipo de porcaria no canal. Ou como acontece há algum tempo na Buenos Aires quase esquina da Carlos Gomes, onde moradores atiram restos de árvores, velhos colchões, lixo, cadeiras imprestáveis e por aí afora, o que reaparece a cada vez que é feito o recolhimento.

Mas isso não acontece só com os garis. Por exemplo em portões de condomínios, onde muitos moradores buzinam forte quando não são abertos a tempo, sem saber se quem estiver com o controle esteja, no momento, em outra tarefa.

“É uma questão de educação doméstica, e está ficando pior, mais agora quando pais entregam tabletes e celulares para os filhos brincar, ao invés de brincarem com eles porque no momento os pais estão com seus amigos praticando as redes sociais”, disse recentemente uma psicopedagoga em entrevista a um canal de televisão. Educadores – os que divergem da corrente ideológica que pretende a destruição da família, como recente projeto foi apresentado por um partido na Câmara Federal – entendem que um dos erros graves que pais ou responsáveis por menores é deixar o fator educação para a escola, “esquecendo que educação é uma coisa que deve vir da família porque nós, professores, não podemos arcar com a responsabilidade daquilo que é competência de dentro de casa”, disse a entrevistada.

Lúcio Albuquerque