PORTO VELHO – Na desventura de ter também o único irmão preso em Pimenta Bueno, pelo mesmo motivo que o seu (art. 33 da Lei de Tóxicos), Sabrina de Oliveira, 25 anos, mãe de três filhos, pintou seus primeiros quadros e os colocou na cela onde se encontra há três anos e 11 meses. Anteriormente aprendera a fazer guardanapos. A oficina do presídio utiliza tinta para tecido. Nas paredes da sala estreita estão expostos quadros com cenários da natureza.

Nascida em Ji-Paraná, Sabrina teve duas meninas e um menino, respectivamente com 6, 9 e 11 anos. “Hoje eu acordo cedo para estudar e me questiono: devo continuar assim para ser uma pessoa melhor? E quero ser. O meu sonho? Quero ser técnica de enfermagem e chegar à faculdade”, disse.

Sabrina de Oliveira: agora, a pintura

Sabrina concluiu o Ensino Fundamental e agora ingressará no Ensino Médio. Ao relembrar o período em que a Justiça a transferiu de Pimenta Bueno para o Penitenciária Feminina (Penfem), no Bairro Arigolândia, na Capital, ela comenta que veio com a marca de bagunceira. “Dei muito trabalho, me revoltei, tive pavor das pessoas, mas aprendi a valorizar a vida e ver essas pessoas de outra forma. O lado bom da vida é vencer os perrengues, e minha mãe sofreu com isso, eu sei”.

Das 135 mulheres reeducandas na Penfem, 14 produzem artesanato no Projeto Reabilitando pela Reciclagem. “Elas fazem uns 300 banners por mês e pintam pelo menos meia dúzia de quadros por semana”, conta a chefe geral de segurança Auricélia Gouvêa.

Segundo Auricélia, a melhoria da produção depende apenas da mudança de prédio, até meados deste ano, quando será possível aumentar o rodízio entre participantes e aprendizes.

Famílias das detentas colaboram com o fornecimento de barbante. Os demais materiais são entregues ao projeto pelo Conselho da Comunidade do Sistema Penitenciário. Em geral, todo trabalho é conveniado entre o Fundo Penitenciário da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), Ministério Público e Cooperativa de Trabalho Multidisciplinar de Desenvolvimento da Amazônia (Cotama).

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, elas não se furtam a comentar crimes cometidos – a maioria infringindo a Lei de Tóxicos. Algumas demonstram propósitos de emenda, e são participantes no projeto.

Segundo a presidente da cooperativa, Dulce Gonçalves Braga, a Gerência de Reinserção da Sejus auxilia com a aquisição de materiais para a confecção dos produtos, e a entidade ministra os cursos no sistema prisional. O projeto deposita mensalmente R$ 800 na conta bancária da família de cada reeducanda. Só a família movimenta o dinheiro.

Do ateliê com oito máquinas de costura saem bolsas, estojos escolares, guardanapos, pastas plásticas, tapetes, cuja produção é entregue ao Ministério Público.

Derivalda sonhava ser costureira

No dia 21 de abril, Derivalda Gomes da Silva, 30, inteira um ano e seis meses de pena. Desde menina, conforme relata, sonhava ser costureira e, ao participar do ateliê, logo se identificou com “as máquinas ligeiras”.

Ela fala dos filhos e se enche de alegria ao revelar que conseguiu deixar o vício. “Eu começo a me sentir mulher. Antes eu era muito ignorante, até que tive esta oportunidade de estudar e trabalhar aqui dentro, mas faz quase um ano, dei um basta no cigarro; bebi muito destilado, cachaça mesmo, fumava desde menina”.

Derivalda é mãe de dois meninos e uma menina e sonha em um dia “cuidar melhor de todos eles”. O caçula nasceu com 3,50 quilos e aos três meses já alcançava os 6 quilos, mas foi levado para Lábrea (AM) pela mãe dela, dona Marinete. “Eu amamentei ele até que foi embora”, disse.

Pela manhã ela estuda, e das 13h às 16h30 entra na oficina de costura. Derivalda fará três provas para ingressar na Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Madeira-Mamoré.

“Livros juvenis agradam todas as que se interessam por leitura, mas nós precisamos mais de romances, livros de história, e aceitamos doações”, apela a biblioteconomista Cristiane Garcia.

O convite, da escritora canadense Oriah Mountain Dreamer, é o mais lido no momento. Na forma poética, a autora desafia a pessoa a penetrar no âmago de suas experiências de vida. Isso tem a ver com o momento de cada reeducanda, daí o interesse.

Há também exemplares do romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista e jornalista maranhense, Aluízio de Azevedo, autor de O Cortiço, Uma Lágrima de Mulher, entre outros.

Proposto há três anos pelo Conselho Nacional de Justiça, o Projeto Remição pela Leitura começa a crescer nos presídios estaduais e federais, e Cristiane também espera sua consolidação no Presídio Feminino, a exemplo das oficinas de leituras instaladas pelos Tribunais de Justiça em alguns estados.

“Juízes da Vara da Execução Criminal recebem relatórios de uma comissão constituída pela Sejus e pela Secretaria de Estado da Educação Seduc, e dessa maneira, aquelas que frequentam a sala de leitura obtêm quatro dias de remição [modalidade de extinção de obrigação no processo civil, trabalhista e fiscal] da pena”, explicou Cristiane.