O que restou de um vagão de primeira classe /Fotos Daiane Mendonça, Kim-Ir-Sen Leal e mappingrondonia

MONTEZUMA CRUZ
A menos que seja revogado o contrato de aluguel deste prédio no Bairro Lagoinha [zona leste] e, num passe de mágica, a Prefeitura Municipal de Porto Velho determine a imediata recuperação das peças “pesadas”, o erário segue desembolsando mais de R$ 20 mil mensais para o armazenamento da sucata da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Multiplicando-se se esse  valor por pelo menos 24 meses, computando-se possíveis reajustes, obtém-se um total de gastos de aproximadamente meio milhão de reais. Enquanto isso, há risco dessas peças retornarem ao museu e sofrerem a consequência das cheias do Rio Madeira. O muro de arrimo à beira rio continua no papel.

O Serviço de Patrimônio da União (SPU) cedeu até 2020 à Prefeitura Municipal de Porto Velho a administração dos bens patrimoniais históricos da extinta ferrovia. Durante a administração do ex-prefeito Roberto Sobrinho, a revitalização de galpões, oficinas e praça custou R$ 15 milhões.

Com o apoio do comando da Base Logística da 17ª Brigada de Infantaria de Selva Príncipe da Beira e do 5º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército Brasileiro, a Fundação Cultural do Município conseguiu transportar as peças de ferro para o depósito de 3,4 mil m² alugado pela Fundação Cultural (Funcultural).

As águas da cheia de 2014 no Rio Madeira invadiram toda área ribeirinha, o sítio histórico, parte da cidade, e cobriram até mesmo locomotivas que estavam dentro e fora do museu ferroviário.

Em março de 2015, a Funcultural pretendia contratar o artista plástico Julio Carvalho para restaurar restos de assentos de vagões, cofre, motores, rodas de ferro e outras peças. Seria usado o sistema de jateamento com areia, informava-se. Mudanças no órgão inviabilizaram negociações.

ICONOGRAFIA AMAZÔNICA

Alguns geradores pesam mais de duas ou três toneladas por unidade e exigem pelo menos meia dúzia de homens para movê-los. Lacradas por técnicos do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as peças serão desenferrujadas, limpas e, em alguns casos, terão identificadas as cores da pintura original.

Estão no barracão, cadeiras estofadas dos vagões, monotrilhos, cofres, bigornas, caldeiras, turbinas, ferramentas, aparelhos de oxigênio, entre outras ferragens.

A chefe de patrimônio naquela ocasião era Arlene Lisboa. Com ela percorremos o prédio e notamos que ali também estavam armazenados enfeites natalinos usados na gestão anterior do prefeito Mauro Nazif.

Recentemente, o site mappingrondonia.com visitou o prédio notou que as peças depositadas nesse prédio entre a Avenida Benedito Inocêncio e os fundos da Rua Flamengo, nº 440.

O mappingrondonia constatou a mesma situação de dois anos atrás: não existe placa de identificação contratual visível, tampouco identificação das peças de imensurável valor para o patrimônio histórico de Porto Velho e de Rondônia.

A Prefeitura emprega no local um funcionário conhecido apenas por Panda, que não parece conhecer os mínimos cuidados que se deveria ter com o patrimônio ferroviário. E mesmo se os tivesse, não dispõe de recursos para custear os serviços reivindicados por entidades, universitários e outros segmentos da sociedade.

Dois anos atrás, o superintendente estadual de turismo, Julio Olivar explicava que o Complexo Madeira-Mamoré “nada tem a ver com o estado”. No entanto, ele exigia atenção do governo estadual pelo fato de as peças ferroviárias pertencerem à iconografia amazônica.

O depósito de sucatas da Madeira-Mamoré, no Bairro Lagoinha

LIMPEZA E REVITALIZAÇÃO

No final da gestão de Mauro Nazif acumulavam-se pedidos de limpeza, segurança e organização do espaço do velho pátio ferroviário.

Na semana passada, o prefeito Hildon Chaves deu por abertas as tratativas para revitalização da Praça do Complexo Ferroviário. Anteriormente, a cerca de ferro fora colocada pelo antecessor.

Ocampo Fernandes: “a preparação de reforma da  orla, banheiros e a iluminação da área já estão sendo providenciados.”

Membros da Associação dos Ex-Ferroviários da EFMM reivindicam há alguns anos o projeto de revitalização da praça e do complexo ferroviário. Projeto nesse sentido já existe: contratado e pago pelo ex-governador José de Abreu Bianco, foi confiado ao arquiteto Luiz leite de Oliveira, que alega ter sido “plagiado e boicotado” por secretários e assessores do ex-prefeito Roberto Sobrinho.
Oliveira denunciou à justiça que o projeto original, “sem sua autorização” deu origem a outro, com o nome de Projeto de Intervenção do Complexo Ferroviário Madeira Mamoré Porto Velho/RO – Fases 1 e 2, para revitalizar a orla do Rio Madeira, onde se localizam os museus.
O arquiteto, que preside a Associação de Preservação do Patrimônio Histórico do Estado de Rondônia e Amigos da Madeira-Mamoré(Amma),  notou semelhanças entre o seu projeto e o concebido pelo Município de Porto Velho., e assim, ingressou sem êxito com denúncia ao Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, em 2007, oferecendo imagens “do trabalho deturpado e indevidamente usado pelo município.”