Em 1979, o jovem vereador que emocionava a plateia com a essência nativa de seus discursos /Fotos Alto Madeira

PORTO VELHO – Plenário Bohemundo Álvares Afonso, antiga Câmara Municipal de Porto Velho, na Ladeira Comendador Centeno, manhã ensolarada de 1976: gesticulando muito, saltitante, paletó azul, óculos fundo de garrafa, o vereador Abelardo Townes de Castro Filho discursava, mencionando nomes de doenças tropicais. “Aqui em Porto Velho, nesta Amazônia, esses heróis da Madeira-Mamoré [ferrovia desativada em 1972] foram sufocados, martirizados pelo impaludismo, pela malária, pelo beribéri…”

Ia longe a fala de Abelardo Castro. A maior parte da plateia formada por menos de 20 pessoas admirava-se com a eloquência do vereador falecido aos 77 anos, quarta-feira (23), na Capital de Rondônia.

A Câmara Municipal tinha sabor de Assembleia Legislativa, porque até então, Guajará-Mirim [área de segurança nacional] e Porto Velho eram os dois únicos municípios do território federal. O tronco da BR-364 era formado por vilas, e assim, a ressonância dos clamores de cada uma se dava naquele Plenário.

Dez minutos de discurso o levavam às lágrimas. Abraçava pessoas no Plenário e nas ruas, entregava-se entusiástica e fraternalmente como ser humano solidário e bem franco em defesa de minorias, especialmente posseiros, garimpeiros, ribeirinhos e seringueiros.

Era assim Abelardinho, sempre que relatava o cotidiano do velho território federal e da Amazônia Ocidental Brasileira na qual viveu, cantando-a em prosa e versos aos norte-americanos durante o período em que estudou geologia na Universidade Santa Mônica, na Califórnia (EUA).

Ji-Paraná, 1979, residência do médico Demétrio Bidá: no bumbo, acompanhado pela cantoria de outros médicos emedebistas (*), Claudionor Roriz e Djair Prieto, dos colegas vereadores Cloter Saldanha Mota e Paulo Struthos Filho, e incentivado pelos advogados Agenor Martins de Carvalho e Roberto Oliveira Franco, nosso personagem era todo alegria:

Êta partido grande /Êta partido bão/Com um partido desse não se perde uma eleição!

De óculos, na posse, em 1973. Depois, reelegia-se em 1976 para um mandato de seis anos.

A nota distribuída pela Assembleia Legislativa de Rondônia e distribuída pelo líder do PMDB, deputado Jean Oliveira, destaca o papel do ex-vereador e secretário estadual de cultura: “Filho de família tradicional e pioneira da região, Abelardo Castro foi fundador e batalhador incansável pela construção e fortalecimento do PMDB em Rondônia, sigla partidária que temos a honra de sermos líder na Assembleia Legislativa”.

“Político de fibra, fiel aos seus princípios e que enfrentou com destemor o regime de exceção na defesa dos direitos humanos e da democracia. Com firmeza de caráter, escreveu com bravura sua história no combativo Movimento Democrático Brasileiro – MDB”, lembrou Jean.

SOLUÇÃO À MODA ABELARDO 

O relato é do jornalista, compositor e escritor Sílvio Santos, o Zé Katraka: “Quando ele era secretário da Secet (Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo), realizou o 1° Seminário Estadual de Cultura do Estado de Rondônia. O encontro aconteceu no município de Rolim de Moura (Zona da Mata de Rondônia). A época, eu fazia parte de um grupo de Chorinho que tinha o João no Bandolim e o Haroldo Dori no violão de Sete é claro que eu fazia a percussão.”

O grupo fora contratado para animar os intervalos das palestras, entretanto, deparou-se com a insatisfação de representantes dos demais municípios. Sílvio Santos: “Eles achavam que a gente representava Porto Velho e não merecíamos tanta mordomia, pois eles estavam alojados na quadra de esportes de um colégio e nós estávamos no melhor hotel da cidade”.

Uma comissão pediu explicações ao secretário Abelardo, alegando que a maioria dormia em colchonetes. Ponderadamente, o secretário explicava que a turma da animação “não representava Porto Velho”. “Na realidade, o representante de Porto Velho nomeado pelo então prefeito Chiquilito Erse, era o Jorge do Areal, que chegou a ser Rei Momo. Abelardo fez um discurso daqueles que só ele sabia fazer e convenceu os representantes dos demais municípios que merecíamos estar hospedados em hotel”.

“Hoje vamos todos almoçar juntos e nossos colegas músicos vão tocar para a gente”. Os aplausos ecoaram pelo ambiente e todo mundo ficou feliz”, acrescenta o jornalista.

(*) Emedebistas eram militantes do Movimento Democrático Brasileiro, depois Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), presidido naquele final dos anos 1970 pelo saudoso deputado federal e presidente da Câmara, deputado Ulysses Guimarães.

MONTEZUMA CRUZ