Órfão de pai, o garoto Braz foi levado por um parente parra estudar no colégio das irmãs, em Humaitá, “onde tinha uma freira muito braba"

PORTO VELHO – A volta do “seu” Braz à atividade, depois de vários dias “de molho” por ordem médica, foi festejado nesse sábado por outros feirantes mas, principalmente, pelos muitos compradores que todos os dias chegam à feira do UM e não encontravam a figura mais conhecida dentre os muitos que trabalham ali.

Aos 85 anos, a cabeça inteiramente branca, o ex-aluno do colégio Dom Bosco, Braz Gomes, nascido na localidade de Silveira, em frente à praia do Belmont, no Rio Madeira, está de volta, “depois de uns dias de estaleiro que eu já não aguentava mais porque não sei ficar parado em casa”, ele diz aos muitos que passam, cumprimentam e ouvem as andanças que fizeram com que o “velho” Braz tivesse de, contra a vontade, tirar umas férias.

Permissionário da primeira banca do Mercado do Um, para quem entra pela Avenida Brasília, ele conseguiu, apenas com a venda de frutas, criar quatro filhos, todos com curso superior, um deles médico trabalhando e Mato Grosso do Sul. Viúvo, o “velho” Braz, conforme outros permissionários ‘é um cara muito namorador”, o que ele não confirma, mas também não nega.

Braz é um dos cinco veteranos ainda na atividade no Um. Mas só chegou ali em 1980, pegando ainda o tempo em que a feira era dividida em três blocos, e que só ganhou o desenho atual quando o prefeito José Guedes fez uma reforma, “tempo que nós ficamos todos na rua, mas valeu a pena”.

Localizado em área muito privilegiada, a banca dele acaba se transformando em local de encontro para muita gente, e, como vendedor, o velho tem uma característica importante: “Às vezes o produto não está bom, mas eu aviso ao cliente. No entanto, as frutas que vendo, sempre são escolhidas e principalmente são da região, o que melhora o sabor”.

HISTÓRIA

Órfão de pai, o garoto Braz foi levado por um parente parra estudar no colégio das irmãs, em Humaitá, “onde tinha uma freira muito braba. Ela era alemã e médica, e a turma tinha medo dela”. Daquele período ele lembra das alunas do internato. “Elas ficavam olhando a gente e quando iam para a igreja nem levantavam os olhos com medo da irmã”.

Logo a seguir o garoto veio estudar em Porto Velho, onde disse ter sido colega do “Kida” (Euclides Froes, ex-grão-mestre do Goer, o Grande Oriente do Estado de Rondônia), e outros nomes que eram garotos como ele.

Do tempo de morada na praia do Silveira, “seu” Braz lembra da “viração de tartarugas”, quando as matrizes iam desovar e os caboclos (Beiradeiros, como ele gosta de chamar) corriam atrás delas para tirar os ovos e vender as que conseguiam pegar. “Hoje sei que é errado, mas naquele tempo (há mais de 70 anos) fazia parte da cultura alimentar e comercial da gente”, recorda, citando que numa só noite foram “viradas” 600 tartarugas.

Nascido em 1935, Braz está completando 85 anos – a mãe fez 104 dia 29 de novembro do ano passado. Ele ainda trabalha nos finais de semana num sítio e diz que não tem pressa em morrer. “Tanto que acabei de plantar umas mudas de castanha”

Um personagem que ele lembra muito é do bispo Dom João Batista Costa uma pessoa “muito amiga e que sabia dar um bom conselho”. Com Dom João o então jovem Braz disse ter feito uma viagem numa lancha até Humaitá, “onde nosso bispo foi recebido por uma imensa multidão em festa” Outras lembranças do ex-aluno do Dom Bosco foi quando os estudantes foram receber a imagem do Sagrado Coração de Jesus, na barranca do Rio Madeira e, também quando ajudou a carregar a imagem de Nossa Senhora das Graças para ser levada à igreja onde ela é padroeira, na Nações Unidas.

Sobre parar de trabalhar? “Não dá. Se parar eu morro. O gostoso é vir para cá, conversar com o povo, ver muita menina bonita passando. Para melhorar seria preciso que a prefeitura lembre a importância da feira para a cidade e dê mais apoio para nós”.