HIRAN GALLO
Hiran Gallo

Há dez anos, sempre em outubro, o Brasil se veste de rosa. Neste período, já foi incorporada ao calendário oficial do País uma grande campanha nacional, que junta governos e instituições da sociedade civil, com o objetivo de estimular a conscientização contra o câncer de mama. Afinal, os números são preocupantes. De acordo com as projeções do Ministério da Saúde, cerca de 60 mil novos casos da doença serão diagnosticados no Brasil, em 2017.

Trata-se do tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo, depois do câncer de pele não melanoma, sendo responsável por cerca de 25% dos casos de neoplasia a cada ano. Especificamente no Brasil, esse percentual é um pouco mais elevado e chega a 28,1%. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, esse tipo de câncer é o mais frequente nas mulheres das Regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.

O tema da campanha do Outubro Rosa 2017 não poderia ser mais oportuno: #PacientesNoControle – Atitude Exige Coragem. Quem luta pelo fortalecimento das medidas de prevenção e de acesso facilitado ao diagnóstico e ao tratamento sabe que empoderar a população quanto a esse problema ajuda no desenvolvimento e na implantação de políticas públicas que ofereçam estratégias e serviços de saúde para melhorar a assistência à população atingida, sejam pacientes ou familiares.

Como ginecologista, que há décadas tenho atuado em favor das mulheres, concordo plenamente com essa premissa. A paciente bem informada, esclarecida e consciente de seus deveres e direitos será sempre uma parceira eficaz na condução de seu tratamento. De forma complementar, ela será também uma agente social importante, ao difundir a cultura da prevenção entre suas familiares e amigas e ao cobrar dos gestores a oferta dos serviços que precisa.

A conscientização, por meio do acesso à informação, é ferramenta para cada mulher assumir o controle sobre sua saúde e sua vida. A mesma conclusão se estende a todos que convivem com as pacientes. É fato que o dia-a-dia com a doença traz diversos desafios. Por isso, é importante que os envolvidos assumam também seu protagonismo nessa jornada, cientes do seu papel e dispostos a cobrar por aquilo que lhes é negligenciado pelo governo ou pelos planos de saúde.

Na condição de médico é preciso admitir os inúmeros tabus relacionados ao câncer. Por exemplo, ainda é uma doença que causa medo na hora do diagnóstico, independentemente do gênero de quem recebe a notícia. No entanto, esse sentimento não pode prevalecer. A cabeça daquelas que atravessam esse momento turbulento deve permanecer sempre erguida, assim como o seu espírito e a sua esperança.

Contudo, existe uma etapa fundamental nesse processo: fazer o possível para não receber esse diagnóstico. Isso implica em adotar hábitos e comportamentos saudáveis, que podem ajudar a reduzir o risco do aparecimento da doença. Por exemplo, a mulher deve se alimentar e fazer exercícios físicos regulamente para evitar a obesidade, mesmo que moderada. Também deve evitar o cigarro e o consumo de bebida alcoólica.

Para aquelas que estão gravidas ou acabarão de ter seus bebês, uma boa notícia: o aleitamento materno ajuda a reduzir o risco da doença. Por isso, não deixe de amamentar.  A mulher também deve ficar atenta ao seu histórico familiar e compartilhar essas informações com seu médico, o qual deve visitar sempre que possível.

Relate a ele fatos como o uso de pílulas anticoncepcionais e da reposição hormonal pós-menopausa. Ele também precisa conhecer o histórico de saúde de sua família, como o registro de casos de câncer em outras mulheres e mesmo homens.

Além disso tudo, é importante que as mulheres observem suas mamas sempre que se sentirem confortáveis para tal (seja no banho, no momento da troca de roupa ou em outra situação do cotidiano). Não há necessidade de técnica específica, mas o interesse em buscar pequenas alterações, como nódulos (fixos, endurecidos e, geralmente, indolores) na mama, nas axilas ou no pescoço; mudanças no mamilo; e a saída espontânea de líquido dos mamilos.

Ao menor sinal, é hora de fazer sua parte. A paciente com esses sintomas e sinais deve procurar imediatamente um serviço para avaliação diagnóstica para verificar se o problema é mais sério. Lembre-se sempre: o câncer de mama pode ser detectado em fases iniciais, aumentando assim as chances de tratamento e cura.

Outra medida relevante é fazer, periodicamente, uma mamografia de rastreamento (quando não há sinais nem sintomas). Esse exame pode ajudar a identificar o câncer antes do surgimento dos sintomas. Quem não pode fazer o exame por um plano de saúde, deve buscar a ajuda do Sistema Único de Saúde (SUS), que tem a obrigação de oferece-lo.

Não se esqueça nunca. Cabe a todos nós, as mulheres inclusive, fazer o máximo para que nossa saúde seja devidamente assistida. Isso implica em cuidar de nosso corpo, com atitudes simples, mas de resultados inquestionáveis, e também cobrar aquilo que nos deve ser oferecido por direito.

Afinal, como diz a Constituição: a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, o qual deve oferecer todos os meios para que os cidadãos possam estar sempre bem.

José Hiran da Silva Gallo
Doutor em Bioética
Diretor-Tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM)

 

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