Nascido no Seringal Espírito Santo, proximidades de Nazaré e Papagaios, no Baixo Madeira, o beiradeiro Aldino Brasil de Souza ouviu os conselhos da mãe e viu nos estudos a possibilidade de superar dificuldades na vida. Aos cinco anos mudou-se com a família para Porto Velho, onde só se chegava de barco, e se apegou aos livros. Formado em engenharia civil e exercendo o cargo de grão-mestre da Grande Loja Maçônica do Estado de Rondônia (Glomaron), hoje Aldino Brasil se dedica a ajudar o próximo e ao aperfeiçoamento moral e intelectual de seus obreiros na Maçonaria.

A empreitada atual – entre tantas outras que a Maçonaria empreende no Brasil e no mundo – é a construção da Casa de Apoio ao Hospital do Câncer da Amazônia, a ser erguida no quilômetro 17 da BR-364, cuja pedra fundamental fora lançada neste sábado (24). Expressão Rondônia traz um pouco do trabalho da Maçonaria em prol da sociedade e a trajetória deste rondoniense que se preparou para chegar ao grau máximo da ordem a que pertence e hoje comanda a maior potência maçônica de Rondônia.

Aldino Brasil em seu gabinete de trabalho na Grande Loja Maçônica de de Rondônia

Na conversa com o jornalista Carlos Araújo, Aldino Brasil também fala de política, ação fraterna em favor da sociedade e do insistente trabalho de lapidação da moral e dos bons costumes das pessoas pinçadas na sociedade para integrar a ordem maçônica.

ENTREVISTA DA SEMANA
CARLOS ARAÚJO

Quem é Aldino Brasil de Souza?

Aldino Brasil de Souza é um cidadão rondoniense, nascido na margem direita do rio Madeira. Sou beiradeio nato, do pé chato, como se diz aqui na região. Vir para Porto Velho aos cinco anos de idade. Meu irmão mais velho, o Almino Brasil, estava completando sete anos e minha mãe dizia que não queria criar os filhos burros. Queria colocá-los na escola, dar-lhes ensinamento. Então, viemos para Porto Velho e fomos morar perto de onde hoje é o Grande Oriente do Brasil. Acho que é bairro São João Bosco, se não me falha a memória. Depois de algum tempo, mudamos para o bairro Liberdade, aqui próximo ao Clube Botafogo. Lembro até hoje que a mudança chegava até ali na Avenida Calama, perto do Crea e da panificadora Roma. O restante da mudança levávamos nas costas, porque não tinha rua, era apenas uma trilha com muita lama…

Como foi a sua vida escolar?

No Barão de Solimões estudei do primário até concluir o segundo grau [atual Ensino Médio], e aos 18 anos deixei Porto Velho para estudar em Goiânia. Lá, fiz um ano de cursinho no Colégio Objetivo, depois fiz vestibular e passei para o curso de engenharia civil na Universidade Católica. Por se tratar de uma faculdade particular, estudei com algumas dificuldades financeiras, por isso fiz poucas disciplinas de acordo com o orçamento que a gente tinha até conseguir o crédito educativo. Consegui, corri para recuperar o tempo perdido e concluir o curso dentro do prazo.

Formei-me em 1992, mas antes de terminar o curso eu já exercia a função de engenheiro. Trabalhando em uma obra, lá em Goiânia, cheguei a ser responsável por ela. Depois, fiquei mais um ano trabalhando naquela Capital, até quando tive a oportunidade de voltar a Porto Velho no final de 1993, e comecei a trabalhar como professor no colégio Objetivo.

Fui sócio do Mega Vestibulares, sempre trabalhando a parte de cursinhos e também preparatório para concurso público. Dava aula de física, depois segui minha carreira, ora trabalhando como engenheiro, ora dando aula, ou ensinando informática e tecnologia da informação, área em que fiz várias especializações. Graças a Deus, tendo nascido em Porto Velho, tenho grande conhecimento com o povo da região e sei das dificuldades da cidade. Nessa trajetória, cheguei a me eleger ao cargo de grão-mestre da Grande Loja Maçônica de Rondônia.

Em que momento a Maçonaria entra em sua vida?

Tenho uma história de afinidade muito grande com esse meu irmão mais velho, o Almino. Quando ainda sócios no Mega Vestibulares, ele recebeu o convite do doutor Heinz Holand Jakobi, para iniciar na Maçonaria. Eu fui à festa, no dia da iniciação dele, na Loja Defensores da Ordem nº 26 e, depois de mais ou menos um ano e meio fui convidado e iniciei no dia 9 de novembro de 2002, na mesma Loja. Segui as instruções maçônicas três anos depois, assumi como venerável da loja por duas vezes. Depois, trabalhei na Grande Loja como grande secretário nas gestões do Renato Condeli e do Juscelino Amaral e, em 2015, fui eleito grão-mestre da Glomaron, com mandato até 2019. Estamos trabalhando, tentando fazer algo em prol da humanidade.

Em meio a essa trajetória, teve uma candidatura político-partidária?

Teve. Em 2012 eu saí candidato a vereador no município de Porto Velho. Cheguei a fazer quase 1.200 votos, mas fiquei na sexta suplência.

A que o senhor atribui a sua não eleição?

Pescaria, um dos hobbys e herança dos tempos de criança nas barrancas do Madeirão

É difícil falar, mas durante esse período a gente aprende muita coisa, vê muita coisa. E eu passei por algumas situações, algumas encruzilhadas que, se tivesse aceitado algumas propostas teria conseguido vencer a eleição, mas não teria autonomia no mandato para fazer aquilo que a gente acreditava que fosse bom para Porto Velho. As propostas sempre deixavam a gente amarrado, para lá na frente retribuir com algum favor, com alguma coisa. E eu sempre primei por levar a política com seriedade e isso teve muito a ver com a minha não eleição.

Os preceitos maçônicos não coadunam com a político-partidária?

Do jeito que a política partidária é feita e como relatou muito bem o saudoso rei do baião Luiz Gonzaga em um vídeo nas redes sociais esta semana, quando as pessoas ficaram sabendo que ele era candidato já vieram pedir coisas. Falaram que tinha que ter dinheiro para comprar votos. Ele achou muito estranho tudo isso.

Eu mesmo, quando fui candidato, fui muito procurado. Diziam que tinham 100, 200, 300 votos sob sua responsabilidade, mas sempre queriam alguma vantagem em troca. Eu sempre falava que o algo que eu poderia oferecer seria o meu trabalho em prol daquela comunidade. Realmente, os preceitos maçônicos não se coadunam com a política do jeito que ela é feita hoje. É difícil alguém se eleger sem fazer nada errado. Em uma ou outra eleição, algum candidato consegue votação expressiva, mas por fatores outros, como o chamado voto de protesto. Agora, por exemplo, a gente vive o momento da Lava-Jato, e eu considero que foi o que levou à eleição os prefeitos de São Paulo e Porto Velho. Na eleição de 2016, o eleitor optou por descartar o político profissional e valorizar mais o empreendedor, o empresário que é quem sabe trabalhar com gestão eficiente. Mas, na maioria dos casos, o que prevalece é o voto comprado, a troca de favores. Realmente, isso não se coaduna com os preceitos e os ensinamentos maçônicos.

A responsabilidade pelos problemas que o Brasil atravessa hoje é do eleito ou do eleitor?

De ambos. A impressão que dá é que um não vive sem o outro. Na época da eleição, o eleitor corrupto achaca muito os candidatos, quer tirar algum proveito, tirar alguma coisa. Ora, o candidato que se sujeita a isso, lá na frente tem que tirar o que foi investido. E ele vai se ressarcir tirando do bolso do eleitor. Eu pergunto: pelo aperto econômico, pelo desemprego e todas as mazelas que o Brasil está passando hoje, será que valeu a pena aqueles 50 reais que o eleitor recebeu pelo seu voto? Acredito que não. Isso tem que mudar, tem que acabar.

Por falar no prefeito Hildon Chaves, sendo ele um maçom – aliás, obreiro iniciado na sua Loja – o senhor está satisfeito com o trabalho dele nesses seis meses?

Ainda é difícil fazer uma avaliação em seis meses. Mas, comparando a outros prefeitos, eu acredito e confio no trabalho dele e que para o próximo ano ele deve ampliar a dinâmica de trabalho. Vejo nesse primeiro momento uma oscilação grande no secretariado. Acredito muito no trabalho e na seriedade do prefeito Hildon Chaves.

Com o antecessor no grão-mestrado Juscelino Moraes do Amaral

O que é a Maçonaria?

É bom que fique bem claro, porque tem muita gente que confunde. Maçonaria não é religião. Nunca foi religião, embora muitos argumentem nesse sentido e justificam citando o escritor maçônico Albert Pike, que em um de seus livros – não sei se foi uma tradução errada, não sei o que houve – mas há trechos que confundem. Temos um levantamento recente apontando o percentual de maçons de cada uma das religiões. Em nível de Grande Loja, temos católicos – na sua grande maioria – em segundo vêm os evangélicos, depois temos judeus, espíritas e também os umbandistas.

Maçonaria não é religião. O que a gente quer é que a pessoa acredite em Deus. Esse é o principal critério para o ingresso do cidadão, e disso a gente não abre mão. A Maçonaria é uma instituição que busca trabalhar e melhorar o ser humano.

Uma vez iniciadas, a gente parte para um trabalho de melhoria das pessoas, porque acreditamos que se elas conseguirem se tornar melhores na sociedade, na família, no ambiente de trabalho, começarão a agir de forma diferente e fazer coisas diferentes, pensando no social, no seu próximo. Quando temos um homem que alcançou o grau de transformação que buscamos na Maçonaria, essa vontade de ajudar passa a ser uma necessidade que vem de dentro para fora e a gente não consegue segurar. Daí, a Maçonaria faz vários tipos de atividades sociais. Isso vem dessa transformação. O homem melhor procura dar o melhor à sociedade. Repetindo sua pergunta [O que é a Maçonaria?], posso lhe assegurar: é uma instituição que buscar transformar o homem para a sociedade e o mundo em que vive.

É uma ordem secreta?

Não. Eu diria que é uma ordem discreta. A Maçonaria não é secreta, porque se você buscar na internet, nos livros, revistas e até na televisão vai ver muita coisa sobre ela. Temos uma máxima de não sair alardeando por aí ou apregoando o que a gente faz de bom para a sociedade. É lógico que hoje a Maçonaria é muito bem vista por pessoas que recebem benefícios e que dela falam bem.

O que a Maçonaria e os maçons fazem pela humanidade?

Aí são muitas atividades. Quando se alcança esse nível de transformação, a necessidade de ajudar, ela faz parte do ser humano maçom e a gente tem vários campos de ação. Temos maçons que são presidentes de Apaes, que realizam trabalhos sociais, ajudando dependentes químicos, muitas atividades. No estado, podemos citar a loja de Vilhena, que adotou e mantém o Lar do Idoso, assim como a loja de Jaru. Aqui em Porto Velho, temos a loja Suprema Razão, que tem a Escola Solar da Paz; a loja Paz Universal, que faz sopão comunitário. Nossas lojas sempre procuram adotar instituição com alguma dificuldade para cuidar. Em Cacoal, construímos e mantemos em funcionamento desde 2012 a Casa de Apoio do hospital São Daniel Comboni. Ali, as pessoas que se hospedam não têm nem nenhum tipo de custo. A gente fornece a casa, alimentação sem custo nenhum ao paciente ou seu acompanhante. Já é um momento tão difícil e a gente procura dar um pouco de conforto ao paciente e acompanhante.

Os maçons da Grande Loja construirão uma casa de apoio ao Hospital do Câncer da Amazônia, em Porto Velho?

Esse projeto nasceu em decorrência da nossa experiência com a casa de apoio de Cacoal. Quando construíram o hospital São Daniel Comboni, percebemos a necessidade de se ter uma casa de apoio. Assim também, quando ficamos sabendo que o Hospital de Câncer de Barretos e a Fundação Pio XII iriam construir um hospital aqui em Porto Velho e, principalmente por ser no Km 17 da BR-364, entendemos que haveria também a necessidade de se construir uma casa de apoio aqui também Porto Velho pra atender pacientes que virão em tratamento. A ideia da Fundação é direcionar para Porto Velho todos os as pessoas que solicitarem tratamento lá em Barretos. Serão pessoas provenientes de toda a Amazônia Ocidental: Acre, Amazonas, Amapá e Roraima. Acredito que o Hospital do Câncer da Amazônia vá atender também pacientes da Bolívia e Peru. Utilizamos o aprendizado com a construção e gestão da casa de apoio de Cacoal. Não somos aventureiros. Já temos experiência com o aprendizado que tivemos com a casa de apoio de Cacoal e sabemos como é o funcionamento, o que tem que ser feito e trabalhado. Lançamos a fundamental da obra e acredito que até setembro começaremos as obras. É uma casa que vai trazer um pouco de conforto às pessoas em um momento difícil da vida. A casa terá 61 apartamentos, 12 deles, exclusivos para atendimento a crianças; toda infraestrutura, com capela ecumênica, cozinha, lavanderia, refeitório, sala de TV. Um projeto muito bem elaborado pelo nosso querido irmão João Lacerda, arquiteto membro da família Lacerda, aqui de Porto Velho. Ele fez e doou o projeto à Maçonaria.

Maquete da Casa de Apoio ao Hospital do Câncer da Amazônia, cuja pedra fundamental foi lançada neste sábado

Qual será o custo final desse projeto?

Em torno de R$ 5,5 milhões. Mas estamos buscando reduzir o desembolso, pedindo às empresas doação de material: cimento, areia, material elétrico, material hidráulico. E a sociedade poderá ajudar, doando recursos para bancar a mão de obra.

A Maçonaria tem dinheiro para executar esse projeto?

Não, vamos precisar de doações. A sociedade precisa estar consciente da importância desse projeto e ser nossa parceira. Se a sociedade entender isso, pronto! Mas estamos tendo uma boa resposta, já temos muitos pedidos de carnê. As pessoas acessam nosso site, preenchem um formulário e solicitam o carnê para pagamento. E elas mesmo escolhem o valor a pagar por mês e por quantos meses quer contribuir. A Grande Loja faz o carnê e o envia ao solicitante. Mas temos outras atividades: leilões, rifas de carros e motos; previsão de um jantar por adesão, com valor de mil reais por pessoa e sorteio de um carro. Teremos leilões em todo o estado. As lojas de todo interior participarão com eventos e enviarão os recursos arrecadados para ajudar na construção da casa de apoio.

É um projeto exclusivo da Grande Loja Maçônica de Rondônia? 

Não é um projeto só da Glomaron, mas de todos os maçons de Rondônia. Grande Loja e Grande Oriente de Rondônia unidos pelo mesmo propósito: fazer feliz a humanidade. É um projeto mais abrangente ainda. É um projeto de toda a Maçonaria do Estado de Rondônia e até mais, porque os estados que mandarão pacientes para cá, também manifestam interesse. É um projeto da Maçonaria Brasileira. Nossa Confederação Maçônica Simbólica Brasileira já se prontificou a mandar, agora em julho, uma remessa de R$ 30 a R$ 40 mil. Estive semana passada em Rio Branco (AC) e o grão-mestre de lá já se comprometeu em fazer um leilão e enviar a renda. Estive também em Roraima no mês passado, e também ouvimos o mesmo compromisso. A Maçonaria só idealizou esse projeto, mas acredito que a população já aderiu e vai ajudar a bancar os custos.

Como a população poderá fazer para ajudar?

Pode participar dos nossos eventos, comprando as nossas rifas, solicitando os carnês para pagamento mensal; o funcionário público do estado ou federal, por exemplo, pode determinar através do seu sindicato que seja feito desconto em folha de pagamento de 10 ou 20 reais por mês.

O que motiva a Maçonaria a empreender um projeto como esse?

A necessidade da população de ter amparo em um momento tão difícil. Imagine uma pessoa que vem de Roraima sem conhecer Porto Velho, sem saber onde está ou onde vai ficar. Se ela vier para ficar numa casa de apoio próxima ao hospital, facilitará a locomoção e vai ter um lugar para ficar, é a nossa maior motivação. Vou até generalizar, mas qual família no Brasil já perdeu um ente querido para essa terrível doença? Infelizmente, é uma doença democrática que não escolhe religião, classe nem status social. Ela pega todo mundo de forma igual e por incrível que pareça agora também está pegando crianças em baixa idade, o que motiva maiores estudos sobre o que está acontecendo com a nossa população.

A casa de apoio já tem uma conta para informar as pessoas que desejam ajudar?

Temos duas contas uma no Banco do Brasil e uma no Sicoob. O doador tem essa facilidade de escolher o banco. A conta do Banco do Brasil é: agência 0102-3, conta78887-2. No Sicoob, a agência Porto Cred, 3321, conta 401338-7, na Avenida Nações Unidas. O CNPJ é 27 624 398/1000- 93, para quem desejar fazer a transferência de outro banco. Mas oferecemos também a facilidade de cadastrar essas contas para débito automático em conta, quando todo mês será feita a transferência de forma automática. Tivemos a grata satisfação de ter quase 50 fundadores e todos eles já contribuem mensalmente. Vamos caminhando e acredito que o projeto logo logo sairá do papel.

Atual jeito da política partidária não se coaduna com princípios maçônicos

Qual é a previsão de conclusão dessa obra?

Iniciando agora em setembro, a previsão é de dois anos e meio, desde que tenhamos dinheiro em caixa. Se não faltar dinheiro, a gente conclui já com toda a mobília, e coloca em funcionamento. Agora, não tem como desvincular essa previsão da questão financeira: se tiver dinheiro a gente faz, se não tiver dinheiro, para. Acredito que, com planejamento que temos e com algumas perspectivas até de auxílio da Maçonaria Brasileira e de buscar no Judiciário recursos oriundos das penas alternativas, podemos executar a obra dentro do prazo.

Agradeço pela entrevista. Expressão Rondônia está à sua disposição.

Agradeço muito a oportunidade de poder falar desses projetos para sociedade, e ela necessita. É muito bom saber que a gente pode contar com a imprensa, para que toda a sociedade possa conhecer nossos projetos e contribuir para que possamos atingir esses objetivos. Muito obrigado!

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