José Hiran da Silva Gallo

PORTO VELHO – Política e politicagem são as duas faces de uma mesma moeda. A convivência entre elas é tão próxima que, às vezes, surge confusão. Onde começa uma e termina outra? Difícil dizer, especialmente no atual momento pelo qual passa o País, quando valores e compromissos ficam suscetíveis às denúncias que surgem na imprensa a todo instante.

Nesta reflexão, procurei ser o mais fiel possível ao entendimento comum sobre o significado de um cada desses termos. Isso agrega isenção a análise conduzida, evitando equívocos que poderiam atribuir a interpretação realizada resquícios pessoais.

Para tanto, busquei no Dicionário Houaiss, um dos melhores da língua portuguesa, a minha bússola orientadora. Nele, entre os vários significados listados, os seguintes se enquadram melhor.

Em primeiro lugar, de acordo com os autores do Houaiss, política deve ser entendida como a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados, entendendo-se que para tanto se pode fazer uso da arte da negociação. Levando-se em conta os interesses coletivos e públicos, o sentido atribuído ao termo se reveste de caráter nobre e elevado.

Por sua vez, o Houaiss define politicagem como o fazer política com o propósito de alcançar interesses pessoais, de troca de favores ou de realizações insignificantes. Infelizmente, como esclarece o dicionário, ocorre a apropriação de uma ação elevada (o exercício da política), rebaixando-a em função de objetivos que não representam os anseios da coletividade.

Se não fomos claros, utilizaremos exemplos concretos, os quais são gerais (apenas para melhor compreensão desse sujeito tão delicado). Ora, a realização de acordos entre partidos políticos adversários para melhor poder governar um país é fazer Política. Por outro lado, trocar apoio político (por indivíduos ou partidos) por dinheiro ou outras vantagens é agir com politicagem!

Da mesma forma, defender interesses da população, por meio da gestão de estabelecimentos públicos, buscando o caminho da excelência, mesmo sabendo que os resultados virão em médio ou longo prazos, é outra forma de fazer política. Usar de um cargo de gestão para se projetar e angariar vantagens pessoais (sem entrar no mérito do tipo de cada uma) é fazer politicagem.

No mundo político, somos confrontados diariamente com notícias desse tipo: tanto de relatos que demonstram como a nobreza da política se materializa; quanto de fatos que nos agridem pela ganância e do oportunismo explícitos da politicagem. Tais situações têm sido tão banalizadas que, às vezes, como cidadãos ficamos impassíveis diante dos abusos e nos omitimos na crítica a comportamentos deploráveis que testemunhamos. Nesta curta reflexão que, como pontuei, tem um sentido amplo e geral convido o leitor a tomar uma posição.

Lembro que estamos em ano eleitoral, no qual os temas políticos estarão em grande evidência. Ou seja, esse é o momento para que cada um de nós exerça seu poder discernimento para manifestar apoio àqueles homens e mulheres cujas histórias de vida demonstrem dedicação ao fazer política sem sucumbir aos encantos da politicagem embalada pelos marqueteiros de plantão. Isso vale para os candidatos de todos os naipes, de todos os partidos, de maior ou menor trajetória.

Esse é o momento de construir uma nova realidade para o Brasil e para Rondônia, livrando-se dos que ainda insistem em buscar o lucro, o benefício próprio e as vantagens próprias ou para os que são do seu grupo (familiares, amigos, etc.). Em lugar deles, que cada eleitor exerça plenamente sua cidadania, trazendo para a cena da política homens e mulheres que, acima de tudo, queiram e saibam fazer política com “P” maiúsculo.

*José Hiran da Silva Gallo é diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina; doutor em Bioética