Reditário Cassol, uma legenda na história política de Rondônia

PORTO VELHO – Homem de confiança do governador Jorge Teixeira de Oliveira, Teixeirão, o catarinense Reditário Cassol fez nascer cidades no interior de Rondônia. Foi deputado estadual, federal e senador da República. Nascido em sete de abril de 1936 no distrito de Alto Alegre [mais tarde Kennedy], Concórdia (SC), Cassol ali se criou, casou e depois se mudou para o município de Maravilha, onde abriu um estabelecimento comercial.

“Deu certo, mas lá pelos anos 1970 eu recebia um convite de uns amigos, inclusive, o João Cândido Linhares, deputado federal naquela ocasião, pra entrar em concorrência e adquirir área de terra em Rondônia”, conta.

A trajetória deste pioneiro da colonização de Rondônia (também contada no livro comemorativo dos 30 anos da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia) é o tema desta Entrevista da Semana.

EXPRESSÃO RONDÔNIA – Como foram seus primeiros contatos com o então território de Rondônia?

Reditário Cassol – Em 1976, vim três vezes ao velho Território Federal, viajando num Fusca. Barbaridade dum carro né? Na terceira vez eu trouxe junto a mulher [Elga Bergamin Cassol] pra ver se ela se agradava e ela se agradou, e assim ficamos na linha 45, que pertence a Santa Luzia do Oeste.

Antes disso, o que o senhor fazia em Santa Catarina, seu estado de origem?

Em Santa Catarina, cheguei ao cargo de subdelegado de polícia: quando se mandava um preso embora, se despedia dele e nunca mais ele aparecia. Bem diferente do que é hoje, né? Por quê?


E como foram os primeiros dias em Rondônia?

Para acomodar a família e aluguei um pequeno hotel em Vilhena [na divisa dos estados de Rondônia e Mato Grosso]. Todos moraram lá, enquanto eu dirigia um velho caminhão Ford no transporte de toras da região de Colorado do Oeste.

Quando foi a chegada a Santa Luzia e em que ano?

Esse lugar da Zona da Mata rondoniense era quase inacessível. O Ivo [filho, ex-governador, atual senador da República] tinha só 18 anos de idade, e começou os negócios da família com os cinco irmãos: Dalva, César, Darcila, Denise e Jaqueline. César [segundo filho] me acompanhava na mata, aonde que nós fazíamos mais 80 quilômetros a pé, para abrir fazenda que começamos em 1977. 

Cassol (na mesa, de óculos escuro): ouvindo reivindicações

O senhor se instalou com a família toda?

A mudança da família ocorreu no dia 20 de maio do ano daquele ano. Antes da abertura da fazenda, a nossa empresa madeireira lavrou muitas toras de cerejeira e de mogno, de elevado valor comercial e as reservas ainda não estavam totalmente exploradas naquele período.

Que tipo de dificuldades enfrentavam naquela época?

Não havia dinheiro, mas existia crédito, do tempo que a gente morava lá. No final de 1979 adquirimos máquinas no Paraná e instalamos a madeireira. Já estava aberta a Avenida Cassol, e passado um tempo, implantamos uma fábrica de móveis que a gente levava pra exportação. A madeira também era exportada, e a gente trabalhava desde às 6h da manhã de segunda-feira, parando só no sábado às 5h de tarde. Era comum, com duas turmas, tocar direto pra poder vencer a tarefa.

Qual era a base da economia naquele período?

A madeira de primeira categoria era que nem ouro. Eu comprava de outros agricultores que faziam derrubadas. Tempos depois, quando se esgotaram as reservas, dinheiro a gente já tinha, e aí decidimos mudar de ramo.

Em qual atividade decidiu investir?

As sucessivas crises no fornecimento de energia elétrica no País refletiram em Rondônia. Nossa família percebeu essa nova oportunidade e aceitou o incentivo para investir na geração e distribuição de energia elétrica. Atualmente, a família é proprietária de quatro pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). A primeira foi Santa Luzia.

A trajetória política familiar está assim distribuída: entre 1979 e 1985), Reditário Cassol foi nomeado administrador de Colorado do Oeste e, em 1986, elegeu-se deputado estadual. Na Assembleia Legislativa foi autor de projetos de lei que criaram 19 municípios na década de 1990. Em 90 elegeu-se deputado federal para a legislatura 1991-1994.


Fale um pouco sobre sua experiência como primeiro administrador da então nascente vila de Colorado do Oeste.

Em 1979, recebi do governador coronel Jorge Teixeira de Oliveira a determinação para assumir como administrador do distrito de Colorado do Oeste, com o compromisso de levar adiante o lugar. Havia um grande movimento de assentamento de agricultores que vinham de todos os estados do País, Implantar cidades era um desafio e não tinha quem fizesse isso.Foi aí que conversei com o governador Teixeirão para combinar o cumprimento de uma parte da missão que ele havia me dado. O governador contou prontamente com a boa vontade e o destemor desse migrante. Que Deus dê lugar onde merece, porque ele merece lugar bom mesmo, foi sério e honesto.

Em Cerejeiras, hasteamento da Bandeira Nacional e canto do Hino

E como foi esse trabalho de ‘abrir’ Colorado?

Organizamos o Colorado e, cumprindo ordem do coronel Teixeira, na sequência, implantemos Cerejeira, no início de agosto do ano 1979. Neste dia, foi cantado o Hino Nacional pela primeira vez naquela região. Em quatro anos e três dias tivemoso prazer de ver o lugar se transformar num município.Em função do aumento do assentamento agrícola e da consequente necessidade de se construir a cidade, a Comarca veio em seguida.

Quais eram os principais desafios?

 Na área reservada para se o novo município, parte pertencia aos Arantes, que ali tinham uma fazenda; o Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) desapropriou tudo. Só tive trabalho grande com os índios, mas graças a Deus eu consegui negociar com todos eles. Isso ocorria dentro das regras do bom senso, com bom pensamento, sem jogar nenhuma família pros canto. Todos foram se acomodando, e passados alguns meses, o governo exigiu iniciar a abertura do Cabixi, que era pura mata. Nós fizemos a cidade dentro da própria mata,e não levou muitos anos também virou município, cuja Lei é de minha autoria. Com o tempo, implantamos também a cidade de Corumbiara e o distrito de Planalto São Luiz.

Situação comum, da BR-364 aos cantões do Cone Sul

E as estradas?

Nessa região, que se tornou conhecida por Cone Sul de Rondônia, também contribui bastante para abertura de estradas em mutirão. E isso se deu em função de uma falha administrativa do Incra. A maneira como conseguiu isso decorreu de falha administrativa do Incra. Naquela época, o maquinário do Incra estava parado, faltavam recursos, não tinha combustível, e o governador me pediu se eu assumia esse compromisso. Graças a Deus, foi tudo muito bem, melhor era impossível. Teixeirão visitava a região regularmente, percebendo o sofrimento dos colonos. E se entristecia com a paralisação de tratores, patrolas, pás-carregadeiras e outros equipamentos do Incra, por falta de combustível. Até que negociou com o doutor Lindoso autorização para o comando do maquinário passar para minha pessoa. Eu toquei o barco pra frente. 

Quem era ele?

Era o então coordenador do Incra naquele período, doutor Bernardes Martins Lindoso, irmão de José Lindoso, que foi governador do Estado do Amazonas.

E como foi exercer o mandato de deputado?

A gente andava no estado todo, trabalhando, mostrando serviço.

Como vê hoje a restrição à criação de novos municípios, já que o senhor foi o autor da Lei que criou 19 municípios dos 52 de Rondônia?

Pense bem, faz quase 15 anos que não se cria nenhum município no País nós ainda temos aqui muitos distritos que merecem ser município. Isso foi importante para o estado crescer e o desenvolvimento veio. Vieram outras indústrias, e assim Rondônia progrediu. Os colonos ficavam felizes com a gente naquela época, porque tinha apoio na lavoura, com semente de cereais, e não havia problema para vender a safra. Depois, acabou tudo, os armazéns ficaram velhos.

Trabalho comunitário, a razão do sucesso de Reditário Cassol

E a sua passagem por Brasília, como deputado federal?

Ela ocorreu quando eu era deputado federal e m diferenciei dos demais por visitar pontualmente pessoas que para lá se deslocavam, em busca de tratamento de saúde. Veja bem, as pessoas procuravam a gente pelo conhecimento e pela amizade, e lá a gente fazia o possível. Conseguimos uma casa de apoio e atendimento em hospital público, com o meu apoio. Não media as dificuldades e me esforçava para garantir às pessoas o melhor atendimento. Quando a casa de apoio estava lotada, eu levava o paciente pra casa da gente, sem gasto com passagem, nem outras despesas. Isso, porque nós sempre tivemos amor, a Bíblia manda ajudar, e felizes daqueles que têm condição de ajudar o próximo quando houver necessidade.

O senhor acredita que hoje o produtor está sendo apoiado pelo Governo?

Naquele tempo da abertura das terras de Rondônia, trabalhador tinha valor, tinha tudo, e o produto valia. Hoje em dia, tão mais importando alimentos de outros países e se esqueceram de ajudar o nosso agricultor produzir. Então, tudo deveria ser muito diferente. E a Emater padece com algum esquecimento das autoridades estaduais. Veja como está, hoje, a situação do agricultor, enquanto a Emater está esquecida.

Passados 30 anos desde o início da colonização de Rondônia, da qual o senhor é um dos pioneiros, como se sente?

Sinto-me realizado e agradecido. A gente visita um município e sempre aparecem pessoas que agradecem pelo apoio que demos a elas nos velhos tempos. Até minha esposa se admira muito, porque em qualquer parte aparecem pessoas com esse agradecimento.

Eu aconselho a todos os que têm um dom de poder apoiar alguém para que ajudem os necessitados em problemas de doença, na busca de médico e de medicamento. Se for político e tiver mais oportunidade de tomar a frente para ajudar necessitados, faça isso. A saúde deve ser prioridade em todos os momentos.

CARLOS ARAÚJO e MONTEZUMA CRUZ

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