PORTO VELHO – “Meu Deus, será que não tem uma única grande fortuna que não provém ou está envolvida de alguma forma com o tráfico de drogas. Até a Coimbra!”. A exclamação foi ouvida de um empresário de médio porte na manhã desta quinta-feira, no rastro da repercussão da Operação Dracma da Polícia federal que derrubou a casa dos portugueses. 

E os milionários foram acordados pelos homens de preto nesta quinta-feira, tiveram dinheiro e bens apreendidos pelos agentes da Polícia e da Receita Federal, amparados pela intimidadora presença de homens da Polícia do Exército Brasileiro.

De um advogado, que já integrou os quadros das forças policiais ouvi: “fazem anos que eles agem dessa forma e nada acontecia. Estava um paraíso para essa corja”, disse.

Verdade é que, com essa operação da Polícia Federal, parece que muita gente, o cidadão de senso comum já desconfiava da opulência de certos empresários de Rondônia, já aguardava o momento em que isso aconteceria.

A imagem imediata que vem à mente é a da Adriana Ancelmo, ex-primeira Dama do Rio de Janeiro que berrou ao ser trancafiada em uma cela, numa das vezes que foi parar em Bangu: “eu falei que isso um dia ia acontecer”, berrou a ex-primeira Dama, naquele momento reduzida a uma personagem comum.

Das cinco maiores empresas de Rondônia, três estão envolvidas no esquema criminosos desmantelado nesta quinta-feira (14) pela Polícia Federal (PF) e Receita Federal (RF), com apoio logístico do Exército. A operação aconteceu simultaneamente, nos estados de Rondônia, Pará e Mato Grosso.

Foram cumpridos 72 mandados de busca e apreensão; 6 medidas cautelares de afastamento da atividade/função de investigados que atuavam, principalmente na administração/gerência de empresas; 147 contas bancárias bloqueadas e quatro prisões em flagrantes na cidade de Guajará-Mirim.

Embora não tenha sido detalhado pela Polícia Federal, o site rondoniagora apurou que aconteceram buscas e apreensões nas distribuidoras Coimbra; Potosi Material de Construção; Rical Distribuidora e MS Distribuidora nas cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim e nas residências dos dirigentes destas empresas. Os bens dos donos estão indisponíveis. Foram apreendidos vários veículos e lanchas. Na sede da Distribuidora Coimbra em Guajará-Mirim foram apreendidos mais de R$ 100 mil.

Em Porto Velho, agentes federais chegaram bem cedo na casa do empresário Mário Português, dono da Distribuidora Coimbra. Foram apreendidos documentos e veículos.

A casa de Márcio Português e sedes da empresa foram alvos da PF, que cumpriu mandados de busca e apreensão. Márcio é filho de Mário Português, fundador da empresa que hoje é comandada pelo filho. O empresário Mário Português chegou a ser candidato a prefeito de Porto Velho.

A ação tenta desarticular uma organização criminosa especializada em lavagem de capitais e evasão de divisas oriundas do tráfico internacional de drogas, além de sonegação fiscal, principalmente na cidade de Guajará-Mirim.

Segundo a PF, o foco na operação é em Guajará-Mirim, fronteira do Brasil com a Bolívia, onde atuam ao menos 160, dos 220 policiais designados para cumprirem os mandados de busca e apreensão nas casas de empresários e sede ou filiais de empresas.

O esquema

Segundo a PF, o esquema criminoso era usado para fortalecer o tráfico de drogas, muito intenso da região por causa da fronteira próxima com a Bolívia. Guajará-Mirim, no Brasil, e Guayaramerin, na Bolívia, são separadas apenas pelo Rio Mamoré.

Para funcionar, as empresas vendiam, sem nota fiscal, produtos para as cidades bolivianas. Em muitos dos casos, elas eram trocadas por drogas. Parte dos lucros dessas grandes empresas distribuidoras/exportadoras deveriam receber pela venda de produtos para Bolívia, ao invés de serem repatriados, eram encaminhados diretamente a cambistas bolivianos para fim de custódia dos valores.

Ainda, traficantes de estados do Nordeste e no Pará remeteram, de forma sistemática nos últimos 10 anos, centenas de milhões de reais para contas correntes em nome de pequenas empresas e pessoas físicas em Rondônia, que realizavam depósitos sucessivos nas grandes empresas distribuidoras/exportadoras do estado.

Com isso, a justiça determinou o afastamento preventivo dos principais investigados (gerentes e proprietários) das suas funções nas empresas envolvidas com o esquema criminoso, e o sequestro de bens e valores dos investigados. Somados, os recursos bloqueados podem ultrapassar R$ 70 milhões.

Os 26 inquéritos policiais, 36 relatórios fiscais e 86 laudos de perícia financeira que compõem a investigação apontam que grandes empresas comerciais-exportadores do estado de Rondônia mantêm, há anos, atividades secundárias de captação e administração de capitais, remessa e conversão de câmbio, direta ou indiretamente, de pessoas físicas que se dedicam à prática do tráfico de drogas e outros crimes.

Projeções realizadas pela Receita Federal estimam que, entre os anos de 2009 a 2016, aproximadamente R$ 2 bilhões em mercadorias foram retirados irregularmente pelas empresas investigadas da área de livre comércio irregularmente, com prejuízo aos cofres públicos, pelo não recolhimento de tributos federais, de aproximadamente R$ 300 milhões, não contabilizados eventuais juros e multas.

Os mandados judiciais foram cumpridos em Porto Velho; Ariquemes; Ji-Paraná; Cacoal; São Miguel do Guaporé; Ouro Preto do Oeste; Guajará-Mirim; Nova Mamoré em Rondônia e em Cuiabá (MT) e Itaituba (PA).