A oferta de assistência médica para as crianças e os adolescentes de Rondônia tem pela frente uma série de desafios. O levantamento divulgado nesta semana pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) expõe um dos seus principais problemas. Talvez, seja aquele que mais causa transtornos graves para pacientes e seus familiares, quando, em momentos de vulnerabilidade física e emocional, sentem na pele a dificuldade de contar com suporte hospitalar para tratar uma doença ou até realizar uma cirurgia.

Os números mostram o tamanho da queda no número de leitos de internação específicos para a população com idades de zero a 19 anos em todos o Estado. A realidade registrada no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) não exclui Rondônia, sendo que, na Região Norte, ele é um dos que apresenta situação mais preocupante.

Infelizmente, contra números não há argumentos. Sobretudo, quando se fala da vida e do bem-estar das gerações que responderão pelo futuro do Estado e do País. Espera-se que o alerta feito pela SBP leve os gestores da saúde rondoniense a encontrar soluções e não apenas justificativas para o cenário atual.

Em Rondônia, entre 2010 e 2016, os cadastros revelam que o total de leitos pediátricos (cirúrgicos e ambulatoriais) baixou de 651 unidades para 564. Dos 87 que foram desativados no período, 81%, ou seja, 71, estavam em serviços da rede pública (próprios ou conveniados).

A queda geral, que chega a 12% dos números absolutos registrados, é ainda mais impactante quando se percebe que, no mesmo período, a população que seria beneficiada por esse tipo de cobertura aumentou de 580 mil para 608 mil crianças e adolescentes.

No caso de Porto Velho, principal polo de atendimento médico-hospitalar da região, a situação é ainda pior. Em 2010, existiam 178 leitos disponíveis para a população pediátrica local, incluindo as redes pública e particular. Seis anos depois, esse número, de acordo com o CNES, baixou para 121. A maioria absoluta das unidades que pararam de acolher pacientes (85%) estavam na rede pública.

O retrato perverso desse cenário, que não poupa capital e interior, aparece nas listas de espera para cirurgias e internações e na angustia que abraça pais e responsáveis, paralisados pelo medo da perda ou do sofrimento de seus filhos. Contudo, seria simples se o problema da assistência em saúde para crianças e adolescentes em Rondônia e no Brasil se limitasse à carência de leitos para internação.

As dificuldades incluem a carência de pediatras, que, no âmbito da rede pública, não são estimulados a ingressar e permanecer no Sistema Único de Saúde (SUS) por conta de uma série de distorções.

No caso dos profissionais da saúde, os problemas incluem desde honorários baixos diante das responsabilidades assumidas até a completa desestrutura para o atendimento, característica presente em hospitais e postos de atendimento. Assim, médicos, pacientes e familiares se tornam vítimas de um rolo compressor que transforma esperança em dor. Parar essa máquina que tritura a quem atravessa o seu caminho se torna uma responsabilidade urgente para os gestores do SUS, em todos os seus níveis de gestão.

O trabalho realizado pela SBP é um estímulo para que a sociedade, em geral, também faça sua parte nesta luta contra os abusos e as irregularidades. Ao apontar o rombo na assistência, a entidade representativa dos pediatras empodera cada cidadão a fazer seu papel de fiscal da execução das políticas públicas.

Agora, não apenas sofremos com a falta dos leitos, mas somos capazes de dizer quantos faltam. Aproveitemos a oportunidade para cobrar as mudanças que tanto sonhamos, que tanto precisamos, para que as crianças e os adolescentes não vivam apenas no nosso futuro idealizado, mas comecem a ter vida e dignidade plenas ainda hoje.

Doutor em Bioética pela Universidade do Porto. Diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM)