VATICANO – O Papa Francisco afirmou nesta segunda-feira (7) que a sociedade moderna não deve tentar impor suas regras aos povos indígenas, mas sim respeitar sua cultura e permitir que eles planejem seu próprio futuro. A declaração foi dada durante a primeira sessão de trabalho dos bispos que participam do Sínodo sobre a Amazônia.

O Papa Francisco participou nesta segunda (7) da 1ª reunião de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia — Foto: Claudio Peri/ANSA via AP

O pontífice advertiu que “as ideologias são uma arma perigosa”, e defendeu que “a colonização ideológica é muito comum hoje”. O líder católico pediu que se controlem os impulsos “de domesticar os povos originais”.

Francisco, que no passado pediu perdão em nome da Igreja pelos erros dos missionários europeus que acompanharam os primeiros colonizadores, disse que por muito tempo muitos na Igreja tiveram uma atitude “depreciativa” em relação aos povos nativos e suas culturas.

Segundo o papa, os povos indígenas querem ser protagonistas de sua própria história. “Nos aproximamos dos povos amazônicos na ponto do pé, respeitando sua história, suas culturas”, afirmou. Eles “possuem uma sabedoria própria, consciência de si, os povos têm um sentir, uma maneira de ver a realidade, uma história”.

O líder da Igreja Católica disse que é preciso se afastar de “colonizações ideológicas”, pois as ideologias são redutivas.

Francisco afirmou, ainda, que a missão do Sínodo sobre a Amazônia é servir os povos indígenas. “E fazemos isso recorrendo a um caminho sinodal, não em mesas redondas, conferências ou discussões, porque um sínodo não é um parlamento”. Ele explicou que, em vez disso, o Sínodo é “caminhar juntos sob a inspiração e guia do Espírito Santo”.

Demarcação de terras

No domingo (6), durante a missa de abertura deste encontro, Papa Francisco denunciou a “ganância dos novos colonialismos”.

“O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”

Francisco pediu para que os participantes do Sínodo falem com liberdade mas também ouçam os outros com humildade durante as três semanas do evento. Ele quer uma “atmosfera fraternal” e um clima de “intimidade” durante o Sínodo.

O brasileiro de maior destaque no Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, o cardeal Dom Cláudio Hummes afirmou na quinta-feira (3) que a demarcação de terras indígenas é algo fundamental para a conservação da floresta amazônica.

“Nós sabemos que, para os indígenas, isso é fundamental. Também as reservas geograficamente delimitadas são importantíssimas para a preservação da Amazônia”, defendeu.

Cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes, ao lado do Papa Francisco, nos jardins do Vaticano — Foto: Yara Nardi/Reuters

Sínodo da Amazônia

O encontro de bispos da Igreja Católica que neste ano vai discutir a floresta, começou neste domingo e vai até o dia 27 de outubro, no Vaticano. No encontro serão discutidos temas ambientais, sociais e próprios da Igreja Católica presente nos nove países que compreendem territórios da região amazônica: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.

Participam bispos, padres e freiras dessa região, além de estudiosos, pessoas ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU) e membros dos escritórios do Vaticano (a Cúria Romana).

Como a maior parte da floresta está no Brasil, o sínodo terá muitos participantes brasileiros. O mais importante deles é o relator-geral, responsável pela redação dos documentos, o cardeal Dom Cláudio Hummes.

O que é o Sínodo?

A palavra “sínodo” vem do grego “sýnodos” e quer dizer “reunião”. Na Igreja Católica, o sínodo pode ser qualquer reunião entre os praticantes desta religião.

Em 1965, Paulo VI criou o Sínodo dos Bispos. A ideia é reunir Papa e Bispos para discutir temas importantes que podem ser ou não religiosos. Antes da Amazônia, os temas escolhidos haviam sido jovens e família, por exemplo.

Por que o sínodo vai falar da Amazônia?

O sínodo deste ano foi convocado em outubro de 2017 pelo Papa Francisco. A ideia, segundo o Vaticano, é debater as dificuldades de a Igreja atender os povos da região, especialmente os indígenas.

De acordo com a Igreja Católica, faltam padres, as distâncias entre as comunidades são longas e a carência de serviços públicos acaba fazendo com que a Igreja assuma papéis de assistência social.

Papa Francisco durante o Sínodo dos Bispos nesta segunda-feira (7). — Foto: Divulgação/Vatican Media

O que será discutido no Sínodo da Amazônia?

O documento que orienta a reunião tem duras críticas ao atual modelo de desenvolvimento da Amazônia. Entre os pontos a serem debatidos estão:

  • a complexa situação das comunidades indígenas e ribeirinhas, em especial os povos isolados;
  • exploração internacional dos recursos naturais da Amazônia;
  • violência, o narcotráfico e a exploração sexual dos povos locais;
  • extrativismo ilegal e/ou insustentável;
  • desmatamento, o acesso à água limpa e ameaças à biodiversidade;
  • aquecimento global e possíveis danos irreversíveis na Amazônia;
  • a conivência de governos com projetos econômicos que prejudicam o meio ambiente.

Por que o Papa Francisco escolheu falar da Amazônia?

O Papa Francisco é o Papa que mais se dedicou à pauta ambiental. A encíclica Laudato si’ (Louvado seja) foi um dos documentos mais importantes que já escreveu e teve impacto, por exemplo, nas discussões que levaram ao Acordo de Paris.

Há quatro anos, Francisco lançou uma encíclica repleta de críticas ao modelo de desenvolvimento que destrói o meio ambiente sem compromisso com a inclusão social.

Para o Papa Francisco, os problemas sociais e ambientais não podem ser analisados separadamente.