Lúcio Albuquerque

PORTO VELHO – Com o falecimento, nesta semana, do advogado e ex-senador Odacir Soares Rodrigues ficou muito menor o universo dos que atuaram na política rondoniense no período do Território, especialmente os que a seguir tiveram influência durante o período inicial do Estado.

Conheci o Odacir quando cheguei aqui, apresentado ao então presidente regional da Arena em seu escritório que funcionava nos altos de um prédio na Presidente Prudente bem próximo ao restaurante Almanara, quando ele disse que era jornalista e advogado.

Isso aí era 1975 e aos poucos eu fui conhecendo pessoas que falavam sobre o Odacir, e muitas reclamavam de ter sido ele, como prefeito, quem mandara derrubar as árvores na Sete de Setembro, o que teria levado ao fim dos “cliperes”, pequenos bares que funcionavam naquela via.

Prefeito duas vezes de Porto Velho, Odacir sempre falava ter sido em sua gestão (a primeira, em 1971) que o município adquirira uma usina de beneficiamento de asfalto, até pouco tempo instalada numa área na esquina das avenidas Tiradentes com Rio Madeira.

Outra obra surgida, já em sua segunda gestão, em 1975, foi a criação da Fundacentro, substituída depois pela UNIR, e sempre ele falava disso.

Duas boas ações, mas até ser louvado, como andei vendo em alguns sites, na condição de “mito”, isso é um pouco demais.

Naquele ano de 1975 Odacir também deixava de ser o prefeito de Porto Velho, município que então ia da Ponta do Abunã até Vilhena, na divisa de Rondônia com Mato Grosso. Quem me narrou como foi sua exoneração – o prefeito era nomeado – foi quem o exonerou, numa entrevista concedida a mim e aos jornalistas Montezuma Cruz e José Carlos Sá, em Brasília, foi o então governador Humberto da Silva Guedes.

Guedes narrou que quando foi comunicado que seria governador de Rondônia, a única ordem recebida foi exonerar o prefeito de Porto Velho. E logo na tarde do primeiro dia de expediente, no Palácio Presidente Vargas, Odacir foi anunciado. Quando entrou no gabinete Guedes comunicou-o da exoneração.

Na mesma entrevista o governador, que criou as condições para que o Território fosse substituído pelo Estado, reconheceu que em seu início de governo teve problemas com segmentos importantes em Porto Velho, e, apesar de não falar, deixou quase às claras que uma das razões teria sido o fato de Odacir ser casado com uma jovem, filha de uma família tradicional da capital.

A partir de sua exoneração Odacir sempre foi citado como adversário político de Guedes, apesar do então governador sempre ter-se colocado à distância de questões político-partidárias. Mas isso mudaria três anos depois, em 1978.

Naquele ano, pela única vez desde 1946 quando o Território pode eleger uma representação política, ao invés de um deputado federal seriam eleitos dois. Odacir era presidente da ARENA e, sem dúvida, uma grande figura do então restrito mundo político local.

Os dois partidos, a governista ARENA e a oposição consentida MDB, poderiam lançar quatro candidatos. Odacir selecionou ele e mais três nomes, completando a lista com um obscuro advogado e funcionário do Banco do Brasil em Guajará-Mirim Isaac Newton. O governador, apesar de pressionado pelos adversários arenistas de Odacir, não se pronunciava, até que faltando três semanas para a votação, e supostamente por pressões de Brasília onde, dizia-se, Odacir já era tratado como “deputado”, Humberto Guedes anuncia que vai apoiar Isaac que, além de desconhecido fora de Guajará, também tinha problemas de gagueira. E foi para a luta.

Fim da contagem de votos: Jerônimo Santana, que também “armou” para se eleger sozinho pelo MDB em 1º lugar e Isaac Newton em 2º. Odacir teve de se contentar com uma suplência. E aqui entra uma diferença daquilo que andou sendo noticiado em sites diversos: (Odacir) “Assumiu o mandato de Deputado Federal pelo Território de Rondônia em 1980, com o afastamento do Deputado Isaac Newton”. Afastamento é bem diferente do que aconteceu. Ele assumiu porque o titular Isaac Newton licenciou-se, retornando um ano e pouco mais tarde.

Em 1982 Odacir sai candidato ao Senado pelo PDS e ganha seu primeiro mandato de oito anos; em 1990 o segundo. Na primeira vez com o forte apoio, ainda que meio a contragosto, do governador Jorge Teixeira. Na 2ª vez com apoio do candidato a governador Osvaldo Piana.

Em 1983 ele agiu para derrotar a tentativa de reeleição do seu colega de partido e presidente regional do PDS, o senador Claudionor Roriz que postulava o cargo, numa disputa em que o candidato do grupo dissidente, Dezival Reis, foi eleito por um voto e poucos duvidavam então que se o governador Jorge Teixeira tivesse ido à convenção o resultado teria sido a reeleição de Claudionor.

Em 1986 o Estado realizou sua primeira eleição a governador, e Odacir se lançou ao cargo, mas perdeu.

Com Odacir tive apenas um atrito. Numa manhã fui chamado ao gabinete do diretor do Alto Madeira, Euro Tourinho, onde Odacir estava, reclamando de matéria feita pelo jornalista Paulinho Correia. Alegava que algumas colocações do texto ele falara mas não eram para serem publicadas, admitindo, no entanto, que haviam sido feitas por ele. Tivemos uma rápida discussão onde eu lembrei a ele, que sempre dizia ter atuado em grandes veículos de comunicação, haver uma máxima fundamental numa entrevista. Se o entrevistado não quiser ver publicado, não fale. Se fala é que quer ver divulgado.

POST SCRIPTUM

Durante vários anos, e por várias vezes pessoalmente, e duas outras com a companhia do jornalista Montezuma Cruz, tentei entrevistar Odacir em seu escritório na Rádio FM-93. Ainda que ele próprio mandasse alguém ligar para ir lá, sempre alegava que mandaria vir de seu escritório em Brasília pastas de documentos que, dizia, seriam importantes para o material que estávamos querendo fazer. E todas as vezes adiava para outra ocasião.

Desde a última vez, creio que em 2018, comecei a pensar que Odacir, como fazem muitos políticos, preferiu evitar uma entrevista onde, tinha a certeza, não seriam tratados só assuntos que ele queria falar mas que sabia estarem na pauta do estrevistador.

jlucioalbuquerque@gmail.com