RIO – Ditadura, fake news e racismo — esses são os temas centrais da tragédia brasileira retratada em “Simonal” , a cinebiografia do cantor Wilson Simonal (1938-2000), dirigida por Leonardo Domingues , que estreia nesta quinta-feira. Com o ator baiano Fabrício Boliveira no papel principal, o longa acompanha a lenta ascensão de um cantor negro do subúrbio carioca dos anos 1960 ao mais alto ponto do estrelato (lotando um Maracanãzinho) e a vertiginosa queda ao ostracismo, em 1972, ao ser acusado de delatar colegas da cena artística da esquerda ao DOPS, a temida polícia do regime militar. Para Leonardo, o filme acabou ganhando uma atualidade que não tinha de início.

— Em 2010, quando “Simonal” começou a ser pensado, o mundo era outro. Já em 2016, quando a gente foi filmar, o que estava sendo debatido era a delação premiada, você estava premiando o dedo-duro — conta. — E na hora em que a gente foi editar o material, veio toda essa polarização esquerda/direita, começou-se a falar de tortura, de ditadura… coisas que eu tinha botado no filme como pano de fundo da época, porque eu achava que a juventude não iria saber o que era.

Uma década atrás, Leonardo participou da finalização de “Simonal — Ninguém sabe o duro que dei” (2009) , documentário de Cláudio Manoel , Micael Langer e Calvito Leal que provocou uma reviravolta na história: expôs as mancadas que levaram ao sequestro e à tortura de contador de Simonal nas dependências do DOPS (o cantor queixara-se a agentes da polícia de que estava sendo roubado por ele). Ao fim do processo, Simonal tinha sido preso, acusado de ordenar o crime, e saíra com a pecha não só de colaborador da ditadura, mas também de dedo duro — com a qual teve que conviver até a morte.

— O Simonal foi o primeiro grande caso de fake news no Brasil — acredita o diretor, acredita o diretor, referindo-se à desconfiança de que ele tenha delatado outros artistas. — O que fizeram com ele naquela época, quantas pessoas podem estar sofrendo hoje em dia, ao serem julgadas e condenadas nas mídias sociais?

“Simonal” estreia na rabeira de projetos que trouxeram o artista de volta à linha de frente da MPB. Além do documentário, saíram uma caixa de CDs (“Wilson Simonal” com a remasterização de sua obra na EMI Odeon, entre 1961 e 1971), duas biografias, um musical ( “S’imbora”, estrelado por Ícaro Silva ) e um show (“O baile do Simonal, tocado pelos filhos do cantor, Simoninha e Max de Castro ).

— Vinte anos atrás, achava impossível que isso fosse acontecer. Agora, a obra dele pode respirar com leveza — festeja Max, que conduziu os trabalhos de remasterização dos discos e que, com o irmão, assina trilha-sonora e a produção de “Simonal”. — Hoje existe um material do meu pai para quem quiser consultar. Quando criança, eu tinha dificuldade de explicar o que ele fazia.

Nesse novo momento do Simonal, a decisão de Leonardo Domingues foi a de ir além do artista e mostrar o homem, o marido, o pai de família, com todas as virtudes e fraquezas. Ele justifica a escolha de Fabrício Boliveira como o protagonista.

— A questão do Simonal era o charme, o carisma, a sedução, o brilho no olhar. E eu achei que o Fabrício tinha isso, apesar de ele não cantar — diz o diretor, que pôs o ator dublando as vozes dos discos.

Com Fabrício, surge na tela um Wilson Simonal fisicamente distinto do real.

— Eu não sou tão parecido com o Simonal e isso foi um estímulo para eu correr atrás de outras coisas — conta o ator. — Por isso eu me dediquei tanto ao trabalho de dublagem, de achar outros corpos para aquela voz, corpos que também fossem meus.