HIRAN GALLO

O caso aconteceu em Ariquemes (RO), no Vale do Jamari, a exatos 203 quilômetros de Porto Velho. O prefeito Thiago Flores, com apoio de alguns vereadores, proibiu, em janeiro, que as escolas municipais entregassem livros que abordem temas sobre as questões de gênero aos alunos do ensino fundamental.

Pela decisão do Poder Executivo local, todas as páginas de livros didáticos com textos que abordassem temas como diversidade sexual ou uso de preservativos seriam suprimidos. O zelo foi tamanho que se criou uma comissão municipal para fiscalizar o procedimento.

O fato absolutamente inusitado, não por acaso, virou notícia e manchete mundo afora. É como se uma assinatura tivesse sido suficiente para lançar a próspera Ariquemes numa espiral do tempo que a tirou do Século 21 e a jogou, sem escalas, em plena Idade Média, época de trevas, onde o acesso ao conhecimento era rigorosamente regrado para que os senhores pudessem continuar a mandar e desmandar em seus servos.

Não foi a primeira vez que medidas desproporcionais desse tipo aconteceram no município. Em 2016, para evitar que imagens de famílias que fogem ao padrão tradicional fossem mostradas aos alunos, entre outras interpretadas como exemplos do que a Prefeitura chama de “ideologia de gênero”, os livros foram simplesmente retirados das escolas e os estudantes ficaram sem material didático.

Para que o mal não continuasse a prosperar, foi preciso o Ministério Público de Rondônia intervir junto ao prefeito Thiago Flores, chamando-o para assinar um Termo de Ajustamento de Conduta.

No documento, exigiu que o político se comprometa a fazer o que é certo: não mutilar livros didáticos para evitar que assuntos que considera inadequados sejam debatidos em ambiente escolar.

No mundo ideal desse gestor, seu município ficaria sob uma grande redoma, onde os jornais só trariam receitas de bolo e as TVs exibiriam apenas cultos e pregações. Música, cinema, literatura deveriam ser objeto de censura. De quebra, os cidadãos robotizados apenas diriam sim, sem nunca questionar ou exigir respostas para os problemas públicos, que não são poucos em Ariquemes ou em qualquer lugar do País.

Felizmente, esses delírios foram banidos de Rondônia. Espera-se que a lição tenha sido suficiente para os políticos com arroubos. É passada a hora de se aprender que a Inquisição, página cheia de horrores na trajetória da humanidade, ficou presa no século 14.

Hoje, o brasileiro conhece seus direitos e briga por eles. Aprende a respeitar os outros pelo que são: homens e mulheres cidadãos em tempo integral, independentemente de etnia, escolaridade, renda, gênero, religião, ideologia ou orientação sexual.

É assim que o Brasil vai construir sua história, deixando de lado o ódio e mostrando que não precisa de limites arbitrários, mas, sim, de estímulos para superar a desigualdade e injustiça. Foi preciso um caso como esse acontecer perto de nós para refletirmos sobre a importância de tudo isso. Agora, cabe-nos fazer a lição de casa.

Diretor Tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Doutor em Bioética pela Universidade do Porto (Portugal).