Truman Capote teve concorrência no corredor da morte. Antes de ser enforcado, Richard Hickock, um dos assassinos retratados em seu livro A Sangue Frio, escreveu a própria versão da matança da família Clutter. Mas o texto, de umas 200 páginas, nunca chegou a ser publicado. Enquanto a reconstituição de Capote, símbolo máximo do Novo Jornalismo nos Estados Unidos, alcançava a glória, o relato que o criminoso fez sobre os mesmos fatos se perdeu ao longo do tempo. Para isso contribuiu o próprio Capote.

Em 1959, uma família de quatro membros, o casal Clutter e dois filhos adolescentes, morreu assassinada em Holcomb, Kansas.

Megalomaníaco e ferozmente competitivo, ao saber da existência do manuscrito tentou comprá-lo e, depois de fracassar, guardou silêncio. Durante meio século, a versão do assassino permaneceu esquecida até que uma investigação de The Wall Street Journal voltou a trazê-la à luz.

Agentes especiais transferem Richard Eugene Hickock (centro) do presídio de Las Vegas, em 4 de janeiro de 1960 /Foto AP

A grande diferença entre ambos os relatos reside na motivação.

Em sua reconstituição, segundo a cópia à qual o jornal norte-americano teve acesso, Hickock sustenta que foi um crime encomendado. Não dá muitos detalhes.

Um tal Roberts e 10.000 dólares de pagamento. Essa versão se choca com a assumida pelo juiz, e por Capote, que estabelece que Hickock e Perry foram à fazenda convencidos de que o pai escondia 10.000 dólares. Ao não encontrar o dinheiro, acabaram com toda a família.

A própria personalidade de Hickock, um pedófilo que se divertia atropelando cachorros nas estradas, e a falta de detalhes do argumento tiram credibilidade dessa motivação alternativa. “Hickock se desencantou com Capote. Quando o escritor começou a visitá-lo na prisão, acreditou que o iria ajudar. E quando viu que não, buscou sua própria via para ganhar dinheiro. Eu não acreditaria em nada de Hickock nem penso que o manuscrito contribua com nada significativo ao publicado por Capote”, afirma o professor Ralph Voss, da Universidade do Alabama, autor da obra de referência Truman Capote and The Legay of “In Cold Blood” (Truman Capote e o Legado de A Sangue Frio).

Já condenado à morte, o assassino entregou seu texto a um jornalista do Kansas chamado Mack Nations. Este ficou com duas cópias. A primeira enviou em 1962 a um advogado da Procuradora. A outra, depois de uma curta reelaboração, remeteu à editora Random House.

Tudo sem sucesso. A Procuradoria nada fez com o documento. “Não acharia estranho que até mesmo o advertissem de que não deveria publicar nada”, afirma Voss. E a editora, que havia assinado um contrato com Capote, lhe devolveu o texto.

Alertado do que ocorria, o escritor se mobilizou. Seu livro ainda não havia sido publicado e circulava um texto do próprio assassino. Horrorizado pela possível concorrência, Capote tentou por todos os meios obter a posse do manuscrito. Encontrou-se com Hickock e até entrou em contato por telefone com Nations para comprar o texto. Não teve êxito, mas o acaso jogou em seu favor.

Justo nessas datas, Nations foi preso por evasão de impostos e suborno. A única coisa que chegou a ser publicada de Hickock foi um resumo em uma revista já extinta. “Eu o li, e era um texto sensacionalista e de pouco valor”, diz Voss. A partir daí os fatos se precipitaram. Em 14 de abril de 1965, Perry e Hickock foram enforcados com 38 minutos de diferença na penitenciária estatal do Kansas.

No ano seguinte, A Sangue Frio alcançou fama mundial. E em 1968, Nations morreu em um acidente de carro. A única cópia que sobreviveu foi a que o advogado da procuradoria legou a seu filho.

Capote nunca fez referência ao texto. Como muitas coisas em sua obra, deixou no escuro. “Moldou a realidade à sua narrativa e evitou a parte homossexual da história, a relação entre Perry e Hickock, porque sabia que era contrária a seus desejos de conseguir um best seller. Mas isso não tira valor do livro. Passados 58 anos, você e eu continuamos falando dos Clutters”, afirma Voss.

A família do advogado não divulgou o que pensa fazer com o manuscrito. Por ora, ninguém quer a obra do assassino.