Sebastião conversa, na porta de casa

JACY-PARANÁ – Sebastião Vitorino, 62, o Maizena, pai de sete filhos, recebe-nos em sua casa na noite de quarta-feira (8), minutos depois de os netos queimarem panos velhos em panelas com álcool e carvão para espalhar fumaça. É o que eles têm feito para enfrentar o ataque do mosquito Mansonia. Antes de desembarcar para prestar serviços gerais em fazendas da região, esse saqueiro fez um longo périplo entre Porto Murtinho (MS), Ji-Paraná, Buritis, onde se casou, e depois Porto Velho.

– Tela? Janela fechada é melhor, mas com o calor igual ao nosso lá no Pantanal, não tem como suportar, e aí acendemos esses fogareiros – comenta Sebastião.

De três casas vizinhas com 16 pessoas, não escapou ninguém, nem bebês. Por alguns momentos estamos livres do ataque desse mosquito sugador de sangue que atua como um vetor dos parasitas Brugia malayi e Wuchereria bancrofti.

Maria Polla espera a panela fazer fumaça

Cobaias vivos

O primeiro é parasito de mamíferos, incluindo os humanos, causando a dirofilariose linfática. O segundo é nematoide do grupo dos Filarídeos, cujo hábitat é o sistema circulatório e linfático do seu hospedeiro.

A infestação dura três anos, confirmam moradores desse distrito. O menino Valdeir Rogério de Farias Soares estende braços e pernas na noite de lua crescente, deixando-se picar. Outros meninos fazem o mesmo, para demonstrar que o problema é grave.

São cobaias vivas em inequívoca demonstração dos efeitos da presença do sugador nas circunvizinhanças dos lagos das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau.

Pronto, por meia hora não há mosquitos em casa

Entre setembro e outubro do ano passado, calejados com promessas e falta de esclarecimento, cerca de 400 moradores dos dois distritos reuniram-se na linha F, a conhecida Linha do Ibama.

Em nome da qualidade de vida garantida pelo Consórcio Energia Sustentável do Brasil, ao reassentá-los em conjuntos de casas entregues após a formação dos lagos das usinas, eles decidiram reagir. Agora, apelarão à justiça para resguardar direitos. A saúde é um deles.

“As reuniões ocorreram debaixo de seguidos ataques dos mosquitos”, lembra o desempregado Cleber Souza Silva. Sete meses depois, só agora se sabe desse fato. O sofrimento foi silencioso, ele lembra.

O veneno sufoca seu Ademar

A média de consumo em cada casa é de três latas por semana

Jaqueline Coradini leva os repórteres ao pai dela, o paranaense Ademar Artur Coradini, cujo quintal está repleto de latas vazias de inseticida. Ele usa raquete mata-mosquito, vendidas quase três vezes mais caro que as latas de inseticida. Custam R$ 35 a unidade.

Demitido de uma madeireira, cardíaco, aspirando veneno pelo menos três vezes ao dia, ele assim resume a situação:

Ademar Coradini mata mosquitos com raquete e spray

– É um sofrimento disgramado o que a gente passa nessa vida – proferindo a frase no típico sotaque paranaense. Seu Ademar é pessoa estimada no bairro e, apesar de recolhido após a doença, é sempre lembrado pelo trabalho na serraria.

Às vezes, quando as nuvens são mais numerosas, bate-lhe o desespero, e a borrifação é feita numa frequência ainda maior. Ademar surpreende os visitantes, ao mostrar “ninhos” do Mansonia no apertado depósito onde também estão guardadas bombas costais de veneno agrícola.

E a filha:

– É um aperreio: os mosquitos vão direto no olho do cachorro, que nem carrapato. A gente se fecha, deixa até de cuidar das plantas, deixa de fazer um churrasquinho, não temos lazer algum – ela se queixa.

Na Fase 2, a partir das 17h, a vendedora de enxovais, sapatos e sapatilhas, Marlene Batista Ramos, interrompe suas andanças porta a porta. Ela diz:

– Depois desse horário, a gente não consegue vender nada, nem as pessoas têm vontade de conversar – depõe.

Frangos e galinhas sobem para o “andar de cima” do poleiro, e os mosquitos atacam por todos os lados

Ovos destruídos e pintinhos mortos

Quanta judieira há no galinheiro da professora aposentada Lúcia Monteiro, na Linha 2 em Jacy-Paraná! Não apenas nele, mas em varandas e quintais com cachorros, gastos de estimação e passarinhos.

Há seis anos ali, Lúcia conta que desde a formação do lago acabou o sossego dela e da vizinhança. E não foi para menos. Foi em sua rua que um morador gravou no celular imagem da nuvem de mosquitos. A prática se repete, outras pessoas também fazem fotos e filmam.

Leva os repórteres ao galinheiro de madeira velha, parte dele coberto com tela tosca esverdeada. Na parte da frente, galinhas chocadeiras tanto se incomodavam com o ataque dos mosquitos que trincavam os ovos, além de picar-lhes o pescoço, sugando sangue. “E os pintinhos, coitados, morreram sem resistência”.

Nesse bairro, a exemplo de Mutum-Paraná, moradores também usam barrage para combater o Mansonia. Trata-se de um carrapaticida, inseticida e mosquicida forte, porém, seus efeitos até agora não venceram a guerra ambiental.

“Aqui, o galão de veneno diluído com água custa R$ 180”, conta Cleber Silva.

Casal Figueira reclama da conta de energia

Auro e Raimunda, donos de mercearia em Jacy-Paraná

Com a mulher Raimunda, o comerciante Auro Aparecido Figueira lamenta que o momento não seja dos melhores para a Comercial Mega. “Já vendemos mais, agora, pra pagar a conta de água e luz o esforço é maior ainda”, ele comenta.

Na região, a conta mensal de energia elétrica é comparada à da Capital, Porto Velho, sempre alcançando R$ 300 e mais. As pessoas remanejadas de áreas alagadas não estavam acostumadas a pagar tanta conta de uma só vez: energia, luz, latas e galões de veneno. Este parece o preço pago para viverem no mormaço amazônico.

Enquanto Raimunda administra a mercearia, Auro é eletricista de manutenção. Desde Campinas, terra natal, Ariquemes e Manaus, ele conta que nunca passou por sucessivos incômodos. À noite liga ventiladores “a todo vapor”.

Dona Maria Honório, bom humor na escuridão

Maria Honória desconfia que come carne com mosquitos; à esquerda, o pastor Aflaudísio

Envolta por uma improvisada saia com tecido de mosquiteiro, a capixaba (nascida em Barra do São Francisco) Maria Honório aparece em frente à pequena sorveteria Bom Sabor, onde se encontra com os repórteres e o pastor da Igreja Assembleia de Deus, Aflaudísio Pascoal Santos, baiano de Itabuna e morador em Cerejeiras (RO), em 1981.

– Eu cozinho carne na panela e em cima do fogão tem uma lâmpada. Eles invadem a cozinha, ficam ali na claridade, e quando eu destampo a panela não sei se vamos comer carne pura ou com mosquito – ela conta sem perder o humor.

Segundo o pastor Aflaudísio, o alvoroço nos galinheiros, mesmo aqueles telados, dá pena. Na Chácara Três Coqueiros ele e Cleber Souza Silva enfrentam os mosquitos na base do veneno também.

O revés acontece dentro da própria casa, onde a pequena Bárbara, de 2 anos, está alérgica e sofre mais ainda devido ao cheiro de inseticida espalhado, mesmo os aromáticos.

O Mansonia é irritante

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MONTEZUMA CRUZ e
YTALO ANDRADE 

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