Por Humberto Oliveira – O jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, cuja morte completa 38 anos neste dia 21 de dezembro, construiu sua carreira à base de contradições. Embora considerado por muitos como um reacionário do ponto de vista político, principalmente no que concerne as opiniões do dramaturgo sobre a Ditadura Militar (1964-1985), assinou vários romances e peças que escandalizaram a sociedade brasileira nos anos 1940 e 1950. Incesto, pedofilia, adultérios, sexo grupal, crimes passionais, aliciamento de menores e prostituição são alguns dos temas abordados em obras como “Álbum de Família” (1946), “Senhora dos Afogados” (1947) e “Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus Pecados e Seus Amores” (1959).

Mais do que polemizar, a intenção de Nelson Rodrigues, desde a primeira peça, A mulher sem pecado, passando pelas crônicas diárias de A vida como ela é, o autor de Vestido de noiva, peça que revolucionou e modernizou o teatro brasileiro, sempre quis, de forma irônica e contundente, criticar a hipocrisia, o falso moralismo e os preconceitos da sociedade, mais precisamente da classe média.

Personagem de si mesmo, título de um documentário sobre o autor, Nelson Rodrigues não deixava pedra sobre pedra, e até mesmo nas crônicas esportivas, ele não perdia a oportunidade de abordar temas atuais e cotidianos de sua época. O que impressiona é constatar que passados pouco mais de três décadas de sua morte, sua obra e famosas frases, estão cada dia mais atuais.

Criações imortais como “óbvio ululante”, “idiotas da objetividade”, “subindo pelas paredes com lagartixas profissionais”, comprovam o genial frasista que continua sendo Nelson Rodrigues, em meu ponto de vista, o maior dramaturgo brasileiro, quiçá do mundo. Pode parecer um exagero, mas não estou sozinho quando digo isso. O mais conceituado conhecedor da obra de Nelson Rodrigues, o crítico e escritor Sábato Magaldi, autor dos definitivos prefácios e introduções dos volumes do teatro completo do autor – lançado pela Nova Fronteira, passou a vida escrevendo textos e livros fundamentais sobre o teatro rodriguiano, sempre afirmou o mesmo.

O jornalista e escritor Ruy Castro escreveu a biografia definitiva de Nelson Rodrigues, que recebeu um título muito apropriado – Anjo pornográfico. Castro não se preocupou em analisar o teatro de Nelson, mas se aprofundou no que aconteceu antes, durante e depois de cada estreia, conta também as tragédias e os amores, as admirações, a história do pai de Nelson, o combativo e polêmico jornalista Mário Rodrigues, sua maior influência, depois do irmão Mário Filho, nome verdadeiro do estádio do Maracanã. Lê-se a obra como a um romance, um folhetim, gênero bem conhecido por Nelson, e que lhe garantiu comida à mesa, num período de vagas magras.

Romances, contos e peças de Nelson Rodrigues inspiraram dezenas de cineastas brasileiros ávidos por uma gorda bilheteria, pois na cabeça deles, as histórias recheadas de sexo e mortes, certamente atrairiam muito público. Muitos fizeram isso, porém, poucos conseguiram levar às telas algo digno da obra do dramaturgo. Por exemplo, enquanto diretores como Neville D’ Almeida, realizador de dois estrondosos sucessos de bilheteria – “A dama do lotação” e “Os sete gatinhos”, ambos apelativos, conquistaram o público, mas os especialistas torceram o nariz. Em contrapartida, diretores como Nelson Pereira dos Santos, com “O boca de ouro”, Arnaldo Jabor, com “Toda nudez será castigada” conseguiram entregar ao público dois dos melhores filmes inspirados em Nelson. Até um dos filhos do autor, Jofre Rodrigues, empreendeu uma jornada ao levar as telas, na minha opinião, uma malfada adaptação de Vestido de Noiva, que ficou aquém das expectativas, talvez por falta de talento como diretor ou a falta de dinheiro para uma melhor realização.

A televisão também apostou em adaptações baseados em obras do autor de Beijo no asfalto e A serpente. Obras como O homem proibido, levada ao ar pela Globo, mas censurada, resultou numa versão café com leite. Até agora as melhores são A vida como ela é, seleção de 40 contos interpretados por um elenco de primeira linha e tendo à frente Daniel Filho, que caprichou na produção exibida primeiramente no Fantástico e depois ganhando independência. A minissérie Engraçadinha, seus amores e pecados, foi outro triunfo. Encabelado pela então estreante Alexandra Negrini, excelente como a personagem título, dividido com Claudia Raia, na segunda fase como a Engraçadinha adulta. O texto, os atores, a produção requintada, a direção, fizeram da minissérie um produto de primeira linha. Uma obra prima televisiva.

Como podemos ver, Nelson Rodrigues, morto há 36, continua atual.