NOVA MUTUM-PARANÁ – Neuza de Jesus Oliveira, 32 anos, lamenta ter que borrifar frascos de inseticida pela casa, em vez de comprar leite em pó para a filha Maria Eduarda, de um ano e quatro meses. Pouco antes de novos ataques do mosquito Mansonia, às 16h de quarta-feira (8), o drama é grande. O fumacê já não passa em todas as ruas como anteriormente. Todos reclamam na Fase 1 da cidade.

– Eu vim pra cá em 2013. Além dela tenho mais dois filhos de sete e oito anos, e o mesmo ar condicionado do nosso quarto (dela e do marido Wagner Júnior de Souza) entra no quarto das crianças – diz.

O Mansonia prolifera atualmente em áreas vizinhas à Mineração São Lourenço, Projetos Joana D’Arc e Santa Rita, Morrinhos e Belmonte. É o maior causador de coceira nas pessoas, ganhando longe do carapanã e do pium.

Área considerável, pois a extensão territorial de Porto Velho é de 34 mil Km², individualmente superior à dos estados de Alagoas e Sergipe. Espalhando-se no ambiente da região de influência das hidrelétricas, onde tradicionalmente se combate o anofelino e o Aedes aegypti (transmissores da malária e da dengue) ele é no momento o maior desafio às secretarias municipal e estadual de saúde.

A cortina levantada e a porta aberta são soluções paliativas para driblar o esforço econômico do casal. Wagner, eletricista, está desempregado.
Sua situação, somada aos gastos com energia elétrica, água encanada e inseticida implica o dispêndio de R$ 400 por mês. A lata de inseticida custa aproximadamente R$ 10 e o gasto de cada família é de três latas por semana.

Já o “elogiaram”: “dócil, bobo, inofensivo”. “Tranquilizaram” os moradores, alegando que ele “não causa malária, nem outras doenças”. Mas a situação é tal qual aquele ditado: “pimenta no olho alheio é refresco”. O Mansonia estressa e já tirou de vez o sono dos moradores desta cidade e da zona rural a cerca de cem quilômetros de Porto Velho.

Previsão feita há pelo menos oito anos pelo falecido cientista Luiz Hildebrando Pereira é hoje realidade: a invasão de mosquitos em áreas circunvizinhas às hidrelétricas um dia ocorreria. E hoje ela faz aumentar a venda de inseticidas, repelentes e mosquiteiros em quatro supermercados e cinco mercearias de Nova Mutum-Paraná.

Mosquitos atacam as pernas da filha de Neuza de Jesus

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NOVA MUTUM-PARANÁ – Entre as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, a distância é de apenas 50 quilômetros. Em fevereiro, laudos de constatação biológica feitos entre 18h e zero hora na região revelaram índice de picada homem/hora entre 70 e 400, muito acima do suportável. Em dezembro de 2014, já atormentados com a infestação, moradores fecharam a entrada da cidade.

Nova Mutum-Paraná foi construída pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil, para realocação dos moradores do antigo distrito de Mutum-Paraná, que submergiu.

Diversas pessoas picadas nas Fases 1 e 2 da vila apresentam catombos nas pernas. São sequelas de picadas anteriores. O tormento é ainda maior, quando ocorrem racionamentos de água. “Isso acontece duas a três vezes por mês e dura até três dias; o derradeiro só foi solucionado quinta-feira passada”, comenta Ana Grécia, moradora na Fase 1.

Nova Mutum-Paraná: um cenário bonito ameaçado por mosquitos

Neuza é de Ariquemes, Wagner de Cerejeiras. Ambos estavam inconsoláveis esta semana, quando contavam a sua vida e lamentavam que desde 5h da manhã nuvens de mosquitos impediam a lavagem de roupas e picam pernas e braços da filha pequena.

– Eu não sabia mais se lavava a roupa, ou se cuidava dela, porque as picadas eram o tempo todo”, explica Neuza.

Algum alento os moradores tiveram, três meses depois da saída de uma médica cubana, quando o posto de saúde paralisou as atividades. Segundo Ana Grécia, emergencialmente um médico da Capital já está atendendo ali.

– E olha que, de uns tempos para cá tem pessoas aí que dizem preferir gripe e malária a sofrer com esse mosquito – ela diz com ironia.

Um difícil cotidiano

Perna com mosquitos, iluminada por telefone celular em Mutum-Paraná

Inconformados com a escassez de água, três vizinhos na Fase 1 se cotizaram para perfurar um poço de onde iriam tirar água para lavar utensílios domésticos, tomar banho e abastecer sanitários. Não tiveram sorte: o lençol freático está contaminado.

Algumas medidas são tomadas com o consentimento do poder público, outras aguardam soluções que só viriam via judicial. Por causa da infestação, a pequena Ana Helena Luz de Souza, 7 anos, aluna da 3ª série do Ensino Fundamental, lamenta não poder brincar com seus colegas. “Eu fico trancada”, lamenta.

Numa folha de papel, ela desenhou um mosquito mais parecido com o Aedes, e se deixou fotografar com a mãe. Famílias têm colocado telas nas janelas, mesmo assim, o mosquito consegue entrar nas casas.

Ana Helena deixou de brincar normalmente com as colegas

Febril, a paranaense (de Campina da Lagoa) Marlene Batista Ramos diz ter dormido com mosquiteiro, mas não encosta nele “para não ser furada”.

– Eu não saio pra canto nenhum, nem na Igreja me animo a ir, enquanto esses mosquitos continuarem perturbando a nossa paz.

Nuvens de mosquito Mansonia em distrito de Porto Velho

Incômodo vem desde 2015

O Ministério Público Federal autorizou famílias ocupantes das casas cobertas de amianto (ou fibrocimento) a passarem as contas para seus nomes. Algumas já ocupam os imóveis há mais de um ano, enquanto a maioria debandou. Barrageiros desempregados, em número ainda não confirmado, foram “se fichar” na Usina de Belo Monte (Xingu, Pará).

Só mosquiteiros (cortinados) não bastam. Hoje eles e os vizinhos se permitem a usar veneno em spray, remédios para animais misturados com álcool e acendem pequenas fogueiras para fazer fumaça.

Depois da picada, mosquito produz catombos

Toda construção de barragem de hidrelétrica altera o ambiente natural ao redor. Expulsos de seu hábitat, mosquitos nascidos em plantas macrófilas  tomam o rumo dos aglomerados urbanos. Ali não lhes falta sangue.

Na construção da Usina de Tucuruí (PA) percebeu-se que, embora não transmitisse doenças, o Mansonia, transmitia várias arboviroses. Arbovírus são causadores de infecções clínicas e subclínicas, que se manifestam sob a forma de quatro síndromes: encefalites, febres benignas de curta duração, febres hemorrágicas e poliartrite acompanhada de erupção cutânea.

Os quadros são de gravidade variada e podem apresentar sintomas intermediários a dois extremos clínicos

Em 2015, a coordenadora da Agência Estadual de Vigilância em Saúde, Arlete Baldez, informava que esse mosquito havia se espalhado excessivamente por causa da formação dos lagos artificiais das usinas hidrelétricas.

– Estamos lutando com um inimigo que não conhecemos – dizia a coordenadora.

Nesses lagos, eles encontram um ambiente especial para procriação em plantas aquáticas como reserva de oxigênio, debaixo d’água. “É por isso que os serviços de borrifação não funcionam, pois os criatórios deles são debaixo d’água”, ela alertava na ocasião.

MONTEZUMA CRUZ e
YTALO ANDRADE (fotos)