Euler Belém

O “Menino do Acre” talvez fique na história como uma das grandes empulhações brasileiras e a mídia, certamente para obter audiência e acesso, se não está endossando diretamente, está sendo conivente com as trapalhadas e enganações do estudante de Psicologia Bruno Borges, de 25 anos. A Argentina tem Jorge Luis Borges. O Brasil contenta-se com Bruno Borges, o pós-adolescente fujão, que ficou desaparecido durante algum tempo, alegando que estava em busca do conhecimento.

Numa entrevista à revista Veja, que não o questiona a sério, limitando-se a fazer perguntas tão simplórias quanto as respostas, Bruno Borges fala e não diz nada. Suas ideias sobre filosofia e alquimia são lorota pura.

Ao desaparecer, o que o jovem estava buscando? “Busquei o autoconhecimento. Na alquimia, dizemos que o operador procede em busca da pedra filosofal”, afirma. O que isto quer dizer? Nada. É pura platitude, embromação. Qualquer livro primário discute o assunto de maneira mais densa.

Bruno Borges diz que está articulando um projeto para mudar a vida das pessoas. Porém, não explica o que é, exceto que se trata de “despertar para o mundo do conhecimento” e para a “investigação da verdade”. O poeta Goethe, que se considerava alquimista, e o filósofo Nietzsche são precisos ao discutir temas sobre os quais o estudante apenas roça, possivelmente depois da leitura, não de livros científicos, e sim de obras místicas — talvez de terceira categoria ou sem categoria alguma.

Questionado pela Veja, Bruno Borges, o nosso Borges “détraqué”, sustenta que seu projeto é “uma missão”. O projeto e a missão, a rigor, não são expostos de maneira cabal (anticientífico, ele avalia que não é preciso demonstrar); eventualmente, o Menino do Acre trata do tema de maneira elíptica, como se não soubesse do que está falando ou então estaria sonegando alguma coisa de caráter seminal, que ainda não pode ser dita, sobretudo para os não-iniciados.

Espécie de Policarpo Quaresma da filosofia, vá lá, ou da alquimia, vá lá, Bruno Borges sugere que está buscando “a verdade da vida”. Entretanto, mesmo examinando atentamente o que diz, não se descobre o que entende por tal busca. Suas frases são ocas, as ideias são um mistureba de frases de efeito e “conceitos” mal digeridos.

Os alquimistas e os estudiosos de física quântica merecem respeito — apesar de certa picaretagem que há entre muitos deles —, mas o que dizer de um garoto, que não parece muito versado em filosofia e ciência, pois os conceitos que expõe são sempre vagos, que diz que conseguiu “lapidar a pedra filosofal”? A única coisa que parece ter lapidado de verdade foi a paciência de jornalistas e de leitores e telespectadores e sua própria cara de pau.

Aqueles que estão em busca de alguma coisa, uma suposta novidade — e não há nada de novo no que diz o Menino do Acre —, certamente ficarão impressionados com as ideias prato-feito do jovem. Ele fala em fé, o que sugere que é, claro, um místico — e não um cientista precoce, ao estilo de Darwin e Richard Dawkins. Mas certamente não chega aos pés de Antônio Conselheiro e do Padre Cícero.

Há místicos que buscam o autoconhecimento durante anos e, às vezes, nada encontram. Pois o Menino do Acre, em apenas dois meses e sem pesquisas detidas e rigorosas, alcançou seus objetivos, sua realização espiritual. Você leu certo: dois meses! O garoto deveria ser preparado pelos grandes laboratórios para “descobrir” um medicamento que “cure” os pacientes que têm Aids. Seria um portento.

É possível que, depois de quatro meses, o Menino do Acre poderia se candidatar ao Prêmio Nobel de Medicina ou, quem sabe, de Literatura — tal o poder de sua imaginação. Se ele terminar os dias escrevendo autoajuda ou ficção científica, nem Paulo Coelho, o esperto-expert em tudo, ficará surpreso.

A repórter da Veja pergunta, compungida e, quiçá, em transe: “Por que você deixou seus livros codificados?” O filósofo, alquimista, físico, poeta, cientista e pós-tudo explica-se: “Um dos objetivos era estimular as pessoas a revelar o que está oculto”. Brilhante, não? Você ainda não viu nada.

A jornalista da revista, talvez de modo irônico, inquire se o Menino do Acre acredita em vida extraterreste. Sua resposta agrada os que veem OVNIs até no bater das asas dos mosquitos da dengue: “Não estamos sozinhos e nunca estivemos. Eu vou dizer em breve o que sei. Também pretendo apresentar uma pessoa que tem grandes revelações a fazer”. Oxalá não seja o espírito do suíço Erich von Däniken, autor do best seller “Eram os Deuses Astronautas?”, de 1968 (logo 1968!, irritaria-se Sartre), ou um pajé dos mais versados.

De uma coisa não se pode acusar o Borges patropi: de preguiça. Com apenas 25 anos, escreveu 14 livros. Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche ficariam espantados com “pesquisador” tão prolífico. Certamente para que ninguém entenda — seu objetivo parece não ser esclarecer, e sim confundir (os que já estão confusos?) — o que está dizendo, ou o que tem a dizer, a profundidade de suas ideias, o Quase-Adulto do Acre revela: “Alguns livros”, dos 14, “talvez mereçam permanecer ocultos”.

Certos livros deveriam ser qualificados como terrorismo ecológico — um atentado às florestas —, então talvez seja melhor que fiquem ocultos. O Menino do Acre talvez seja a jogada de marketing mais bem urdida dos últimos anos, e sem a colaboração de Duda Mendonça e Washington Olivetto.

Tendo estudando filosofia durante alguns anos, sou da primeira turma do curso da Universidade Federal de Goiás, fiquei intrigado com o fato de que o Menino do Acre mesclou filosofia e antropologia com física quântica e, daí, desenvolveu “uma teoria cosmogônica e algumas teorias na área de viagens no tempo”. O que diriam Aristóteles, Júlio Verne e H. G. Wells? Não se sabe, claro. Mas a repórter da Veja, por certo adepta do Iluminismo, “implora”, candidamente, mas sem Voltaire: “Você pode adiantar algo sobre a sua teoria na área de viagens no tempo?”

Eu, que tenho muito vontade de viajar no tempo, para viver entre os gregos e os romanos — mas não como escravo, e sim como nobre dos mais potentados —, fiquei tão curioso que decidi transcrever a “teoria” (mesmo intuindo que o Menino do Acre não sabe direito o que é uma teoria) que “encantaria” Stephen Jay Gould, Isaac Asimov e Carl Sagan: “Tenho mais de cinco teorias [puxa!, uma seria suficiente!] nessa área. Desenvolvi algumas quando estive isolado. Os astecas utilizavam a fumaça dos corpos queimados em sacrifício para predizer o futuro. Existem substâncias alquímicas na natureza que podem facilitar o processo, mas em geral eu trabalho com a funcionalidade cerebral, conectando as informações (amor) em vez de discriminá-las (ódio). Eu já fiz alguns tipos de viagens no tempo e sei de algumas coisas que vão acontecer nos próximos anos. A minha primeira teoria já está toda no papel e vou colocar no meu blog em breve”.

Pronto, vou pedir licença e irei ao Acre em busca das ideias revolucionárias do Menino do Acre; de quebra, com sorte, talvez encontre até o Santo Graal e tome uma dose de maracugina com Lula da Silva, com o coronel Percy Harrison Fawcett e com Indiana Jones.

No final da entrevista, tão impressionado quanto um conto de Borges é impressionante, o bom, o da Argentina, o Menino do Acre ensina aquilo que nem Marilena Chaui — seria a pessoa que o pós-filósofo vai apresentar, o ser misterioso? — é capaz de ideologizar: “Por mais que as pessoas não percebam, a partir de agora o conhecimento será mais valorizado. Quanto mais conhecimento você tiver, mais influente será na sociedade”.

Ora, o que surpreende é que o Menino do Acre parece não ter conhecimento algum, ao menos de maneira consistente e sistemática, e, mesmo assim, está se tornando tremendamente influente, inclusive concedendo entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo, e à maior revista semanal do País, a Veja. Não é pouca coisa, não.

O mundo mudou muito, e para melhor. Porque, se não tivesse mudado, logo um Simão Bacamarte decidiria que o Menino do Acre carece mesmo é de umas boas palmadas ou então de um alienista que não seja Bentinho-Casmurro ou Brás Cubas. Fico na dúvida, filosófica: o Menino do Acre fica melhor no papel de alienista, de alienado ou os dois?

Ah, o modo como mesmerizou o país, atraindo jornalistas de todas as plagas, alienados mesmo somos nós, que, quem sabe, esperamos o Messias, ainda que na forma de um Borges piorado e sem “O Aleph”. Borges, o “Adulto Portenho”, talvez esteja certo ao ecoar Marco Polo: “O real não é mais verdade do que o inventado”.