Marcelino dos Santos, dono da Pró-Estilo /Fotos Rosinaldo Machado

Marcelino Silva dos Santos, 52 anos, gaúcho de Porto Xavier, dono da empresa Pró-Estilo em Porto Velho, era projetista na Universidade Federal de Rondônia (Unir) em 1993 quando o seu irmão Clóvis lhe telefonou:
– Arrume um barracão para eu pôr a minha marcenaria. Estou indo praí.
Marcelino procurou um local, mas não demorou muito o irmão chegou. Havia feito apenas uma parada para pernoite em Vilhena, com as máquinas embarcadas na carroceria de um caminhão.

Morava em Porto Velho desde 1987. Casado com dona Lucilene Vieira de Oliveira, criou Mariana, 17 anos e Pedro, 19. Com modelos próprios, sua empresa é bem requisitada no mercado de móveis planejados comerciais e residenciais. Ele se considera parceiro de arquitetos.
Um pouco de sua história na Entrevista da Semana:

EXPRESSÃO RONDÔNIA – Como foi essa viagem do seu irmão?
Marcelino – Clóvis veio do sul, e lá em Vilhena estacionou o por algumas horas com a mulher e um casal de filhos. Só então decidiu me avisar da intenção dele de se mudar para Porto Velho. Eu me surpreendi com a coragem dele, mas tive que arranjar tudo às pressas.

Estava de malas e bagagem?
Isso mesmo. Eu fui até a Rua Rio Machado [Bairro do Triângulo], ao lado dos trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, olhei alguns imóveis e aluguei o barracão onde funcionava uma casa de forró que havia fechado as portas. E aí me associei a ele. Depois de um tempo Clóvis foi embora, e aí já estava criada a primeira empresa. Isso faz 24 anos.

O começo…
Eu enfrentei períodos difíceis pra conquistar o mercado de móveis planejados. Não foi fácil. Acredito que um fatores do êxito da empresa, no Bairro da Floresta, foi o crescimento vertical de Porto Velho. Apareceram muitas encomendas.

Equipe de Marcelino, na Pró-Estilo

Sua família já tinha tradição no ramo lá no Rio Grande?
Meu avô, pai e tios marceneiros tocaram a única empresa do ramo, em Porto Xavier, que é uma cidade vizinha de San Xavier [Misiones], na Argentina. Aos 12 anos de idade eu já aprendia um pouco. Seu Julio [o avô] ensinava a gente.

Lá é terra de moveleiros, já se falou?
Sim, nas linhas rurais da fronteira gaúcha é comum encontrar esses profissionais. Eu aqui me tornei  projetista, trabalhei com arquitetos e engenheiros civis. Em 1989 estive na Usina Hidrelétrica de Samuel [no Rio Jamari], a primeira do estado e, em 1990 passei no curso de projetista da Unir. Em 1993 montei a Pró-Estilo.

Trabalhava com quê naquele período?
Comecei com esquadrias e móveis de madeira maciça para mobiliários comercial e residencial. Há 15 anos uso chapas em MDF [madeira de média densidade, ou médium density fibeboard em inglês]. Elas são ideais para a indústria de construção, decoração, estandes, indústrias automotiva e gráfica, móveis, caixas de som, maquetes, publicidade, estandes, etc.

Orlandino, marceneiro padrão de Porto Velho

E foi conquistando a freguesia…
Eu e minha equipe fomos aprimorando nossos produtos. Já atendemos clientes em Cuiabá, Rio Branco (AC) e em todo o interior de Rondônia. As entregas são feitas de caminhão, caminhonete e contrato frete.

E sua fonte de inspiração?
Eu tomei duas atitudes que considero importantes: mirei o sucesso da Todeschini, uma das mais notáveis fabricantes de planejados para diversos ambientes – sala, cozinha, dormitórios, banheiros, escritórios, lavanderias, ambientes corporativos – e enviei meu pessoal para feiras nacionais.

Daí, partiu para seus próprios modelo?

Sim, a Pró-Estilo criou modelos próprios desenvolvidos pela arquiteta Lice Evangelista. Notamos que a verticalização da cidade exigiu muito da empresa. Se antes cabia tudo em casas espaçosas, hoje o planejamento é fundamental.

Nunca anunciou seus produtos?
Olha, o interessante no negócio moveleiro, no meu pelo menos, foi a ausência da publicidade paga em meios de comunicação. Nunca fiz isso. Nossos produtos ganham espaço e conquistam clientes graças às parcerias que firmamos com arquitetos. De 32 funcionários iniciais, a Pró-Estilo tem atualmente 12. Eles trabalharam nas primeiras máquinas seccionadoras e coladeiras de borda fabricadas no Rio Grande do Sul e transportadas para cá.

Quais foram os desafios? A cidade exigiu mais e mais?
Eu me considero um sobrevivente, e a minha equipe também. Atravessamos marés bem altas, porque já passamos por crises anteriores, quando dezenas de marcenarias sumiram do cenário, aqui e no interior. Olhe o exemplo do Orlandino [Orlandino Prestes da Costa, 50 anos, três filhos, gerente de produção]: ele acumula larga experiência em 16 anos de empresa. É marceneiro à moda antiga, trabalha desde menino, mas a cidade em crescimento já lhe despertou o senso crítico e o fez encontrar o jeito de aperfeiçoar-se o necessário para produzir o melhor.

Quais foram as mudanças no setor moveleiro?
Cheguei aqui na transição entre a madeira e o MDF. Tivemos uma considerável ascensão, porque conquistamos clientes de peso: a Eletronorte, a Termonorte, as usinas hidrelétricas Jirau e Santo Antônio, e além delas, muitos escritórios de classe. Atualmente, 80% da clientela da Pró-Estilo é comercial e 20% residencial. A fábrica embala peças desmontadas e monta novamente no destino.

Móveis planejados para comércio e residências

A paciência já foi bem testada em Porto Velho…
Taí o Orlandino [aponta o funcionário], que sempre recorda da força-tarefa que precisamos para atender à Termonorte.

Mas o Shopping Porto Velho foi mesmo um caso especial: tivemos que atender num só tempo a 30, das 140 lojas, foi uma briga de foice em 90 dias e 90 noites, e a gente nem mais suportava olhar um pro outro, tamanho o esforço que fizemos.

Passaporte para o sucesso…
Olha, ocorreu um fenômeno que serviu de lição para a equipe: empresas moveleiras pequenas e médias abandonaram tradicionais clientes para atender com exclusividade o shopping. E deu no que deu: terminado aquele serviço, ao tentarem voltar à sua clientela, perderam toda ela. Nós, não, e isso foi determinante, porque se eu abandonasse os meus clientes, não os teria hoje.

O jeito é perseverar?

É preciso. Entre janeiro e abril geralmente, a fábrica tem poucos pedidos, mas ao se aproximar outubro, o pique é iminente. E todos querem móveis novos pra ontem.

Algum apoio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) em Porto Velho?
Na condição de conselheiro, eu obtive apoio da Escola Marechal Rondon e também testei muitos meninos talentosos formados no Centro do Menor famoso na cidade, criado e dirigido muito tempo pelo padre Mário Castagna.

Como foi isso?
Levei para a fábrica diversos futuros profissionais e cuidei da ficha de acompanhamento de cada um, até que o Ministério Público obstruiu o trabalho, executando rigidamente a lei que proíbe o menor de trabalhar, mesmo que esteja com tempo para frequentar as aulas, aprender um ofício digno, receber lições de vida e se livrar dos males das ruas.

Que mensagem transmite hoje aos jovens que se iniciam na profissão?
Nesse recomeço da escola de marceneiro na qual também se transformou a Pró-Estilo, eu acredito que nos próximos três anos colheremos alguns frutos da modernização e da qualificação profissional. Marceneiro verdadeiro, nasce marceneiro, eu sempre digo.

No âmbito da Fiero, algum feito de destaque?
Sim, em abril de 2016 integrei a comitiva empresarial em visita a Ulm (Alemanha), cuja universidade apóia o Senai na formação de profissionais em Porto Velho. Foi muito proveitosa a viagem.

CARLOS ARAÚJO E MONTEZUMA CRUZ

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