PORTO VELHO –A aldeia global prevista no século passado pelo teórico da comunicação Marshal McLuhan empurrou o Alto Madeira para o lugar onde resistem os fortes. O conceito desenvolvido na década de 1960 explicava os efeitos da comunicação de massa sobre a sociedade contemporânea, no mundo todo.

O jornalista Euro Tourinho, 95 anos, diretor de redação, até hoje escreve em máquina de datilografar. A dele é uma Olivetti verde. Por que não se adaptou? “Não sei explicar, apenas não quero mexer com computador”, responde.

Euro Tourinho: dupla longevidade

A presença de Euro em acontecimentos socioeconômicos pode ter diminuído se comparada com as décadas que antecederam ou sucederem a criação do novo estado brasileiro, porém, na sede do jornal, sua presença ainda é constante. “Faço exercícios físicos de manhãzinha, chego cedo e sou o último a ir embora”, ele diz. E sai dirigindo – muito bem – o próprio carro.

Sentindo muito a recente perda da companheira Maria Kang Tourinho [5 de março, aos 89] o sempre repórter e diretor do Alto Madeira preparou-se para a comemoração deste 15 de abril, algo inédito na região norte brasileira: seu jornal está inteirando um século de vida.

Euro participou de sessão solene na Assembleia Legislativa, entregou troféus para jovens equipes de futebol, fez palestras e inaugurou a exposição do centenário, na Casa de Cultura Ivan Marrocos.

Principais trechos da Entrevista da Semana:

Fale do Alto Madeira de ontem e de hoje.

Euro Tourinho – A história deste jornal, todos sabem, já foi contada diversas vezes. No período áureo chegamos a ter 97 funcionários, hoje são poucas pessoas fazendo o jornal chegar às bancas, assinantes, comércio e repartições públicas.

O senhor consegue essa façanha no momento em que alguns importantes diários fecham as portas. Como sente isso?

Penso que cumprimos nossa missão, a minha eu cumpri. Vivemos alguns períodos de dificuldade, mas os nossos leitores nos presenciaram recobrando nossas garras nosso jornalismo acreditado, crítico, levando a notícia à Capital e parte do interior de Rondônia aonde circulamos. Isso se faz com amor. O Alto Madeira é minha vida.

Neusa, Manoel, Euro e Luiz

Quem é Euro Tourinho?

Sou filho do fazendeiro Homero Tourinho, da região de Corumbá (MS). Meu pai foi nomeado agente fiscal por influência do senador Felinto Müller, homem forte do governo de Getúlio Vargas, e também mato-grossense. Felinto o livrou de uma desavença com um vizinho encrenqueiro e assim ele foi designado funcionário do posto fiscal de Santa Fé, às margens do Rio Guaporé na fronteira brasileira com a Bolívia. Somos quatro irmãos: Euro Tourinho, Luiz Malheiros Tourinho, Deusa Malheiros Tourinho e Emanoel Malheiros Tourinho, que mora no Pará. Tenho 37 netos e 24 bisnetos. É uma família grande que me respeita muito, posso dizer que sou um homem feliz.

 Vocês vieram para Santo Antônio do Rio Madeira…

Mas antes, passamos por outros lugares. Chegamos aqui quando Porto Velho era ainda parte do Mato Grosso. Moramos inicialmente em Santa Fé, ficamos dois anos por lá. Meu pai foi transferido para Calama, na região do Baixo Madeira, e ali permanecemos por três anos. De lá viemos para Santo Antônio. Meu pai se mudava com freqüência, e eu estudei em diferentes colégios.  Quando morava em Calama, estudei no Dom Bosco [no antigo prédio, próximo à Catedral do Bom Jesus, onde atualmente é a Faculdade Católica], depois fui para Manaus, onde fiz o magistério.

E o seringal?

Euro Tourinho, nos anos 1980.

Num gesto de gratidão, os empresários passaram tudo para meu pai, que pediu exoneração do cargo de agente fiscal e foi cuidar do seringal que acabara de adquirir.

Meu pai morreu em 1944, e ao terminar o ginásio segui de barco de Manaus para o seringal. Seria o mais novo seringalista da região, com quase 400 pessoas sob a minha tutela. Era um bom negócio, mas não me firmei, porque não me adaptava com o método de dirigir o seringal, que exigia um pouco de exploração do seringueiro.

Venderam a terra?

O Luiz [irmão] era bancário e tinha ampla visão empresarial. Então, nós decidimos vender o seringal, e com o dinheiro abrimos outro negócio.

E o jornal?

Quando deixou o cargo de prefeito de Santo Antônio do Rio Madeira, o médico Joaquim Tanajura, o Tanajurinha abriu o Alto Madeira em Porto Velho, numa casa onde funcionou o jornal O Município [1915 a 1917]. Daquela folha ele comprava os equipamentos gráficos. Depois da morte do fundador, o jornal foi vendido ao ferroviário Inácio Castro. Em 1960, após a morte do fundador dos Diários Associados, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o Chatô, eu e o Luiz procuramos a direção do Condomínio Associado e nos candidatamos à compra do jornal.

Explique aos mais jovens, e repita para nós, também: quem foi Chatô?

 Chatô foi senador pela Paraíba e embaixador brasileiro em Londres. Ele é considerado um dos homens públicos mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 e 1960. Ele era um homem muito arrojado, polêmico, conhecia muitos empresários e com isso mobilizou alguns deles para doar obras de arte ao Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp).

Chatô liderava um grupo administrativo com 20 diretores de confiança que dirigiam 32 jornais, 15 televisões e diversas emissoras de rádio.

Quando ele morreu, os herdeiros tentaram retomar as empresas, mas os condôminos constataram que tinham muitas dívidas e resolveram vender alguns órgãos. Eles tinham poder decisório e ainda hoje, filhos dele não desmancharam essa figura.

Como foi a conversa com ele?
Fui ao escritório dele, a secretária falou que ele estava muito ocupado e que não poderia me atender. Aí eu insisti e falei pra ela só dizer meu nome e de onde eu era. Ela me olhou meio desconfiada, entrou na sala, e minutos depois saiu com um sorriso no rosto dizendo que eu podia entrar.

Chateaubriand se levantou e me saudou com a seguinte frase: como vai aquele nosso baluarte da fronteira [Alto Madeira]?

A mesa dele estava cheia de papéis, eu fiquei impressionado. Ele me disse que tinha um monte de pepinos [problemas] para resolver e que nossa conversa seria rápida. Eu disse que queria apenas vê-lo e lhe dar um abraço. Foi uma conversa breve, mas significativa.

 É verdade que, antes do jornal, o senhor teve um snooker?

É. Antes do jornal, eu tive um salão de sinuca, na Rua Barão do Rio Branco, próximo ao antigo prédio antigo do Alto Madeira, na Praça Jônathas Pedrosa. Na verdade, foi uma evolução natural, paulatina e casual. Meu salão de sinuca, bem perto do jornal, reunia pessoas cultas e eu conversava com elas. Costumava visitar a redação e criei amizade com os jornalistas. Nunca pensei ser jornalista, tampouco proprietário de jornal diário. Numa conversa casual, o editor elogiou minhas ideias, disse que gostava de minhas opiniões e me convidou a escrever uma coluna. Relutei, mas depois da insistência dele consenti. E o acaso me fez comunicador.

E aí vocês compraram o jornal?

Sim. O Luiz esteve no Rio de Janeiro e, numa reunião com esses administradores, falou do interesse em comprar o Alto Madeira. Como eu já estava inserido na redação e escrevendo artigos, era natural que passasse a editar o jornal. Mas essa não foi a primeira grande empresa do grupo Tourinho. Quando fizemos a compra já existia a Tourinho Corretores e algumas empresas comerciais com capital que possibilitou aporte financeiro do jornal. O grupo foi proprietário de uma madeireira e da revendedora de automóveis Fiat.

Mas o senhor sempre prestigiava os acontecimentos da cidade e o jornal foi adquirindo ainda mais prestígio?

Nos anos 1960 até os anos 1990 era comum eu sair toda a noite carregando caderninho ou bloco de anotações à mão, frequentando acontecimentos socioeconômicos e culturais. Convidado, eu também prestigiava aniversários de autoridades e de amigos. Então, de seringalista, após investir em vários outros negócios em parceria com o Luiz, escolhi o meio jornalístico e, sem maiores pretensões, tornei-me um dos pioneiros no colunismo social de Porto Velho.

E hoje, o senhor continua disposto? Isso é raro na sua idade.

Ainda sou o primeiro que chega e o último a deixar o prédio. Tenho disposição e perseverança, mas reitero que o cumprimento da missão está acontecendo. De homenagens, por exemplo, me cansei, mas sou muito grato por todas elas.

Não faz muito tempo, em entrevista, o senhor falou da existência da “comunicação caça-níquel”, aquela usada apenas para atender o lado comercial…

Sim. E fiz um desafio: se recebesse proposta séria, concordaria em vender o jornal, desde que o comprador garantisse que não o deixaria fechar, porque a marca Alto Madeira vale uma fortuna.

Qual o legado do seu jornal?

Nosso jornal vive para servir a comunidade e hoje o jornalismo cumpre isso em termos, porque existe ainda muito interesse por trás de algumas matérias, o que é degradante para a profissão.

Mencione alguns fatos que o senhor noticiou ou presenciou?

A grande notícia foi a criação do Estado [1981], o que representou grande transformação social, política e econômica, mas lá pra trás aconteceram: a descoberta da cassiterita [1952], o contato com tribos indígenas, depois os veios de ouro de aluvião no Rio Madeira e a abertura da rodovia BR-364 [ex-BR-29, Brasília-Acre]. Vieram as companhias aéreas [Vasp,Varig, Cruzeiro] para Porto Velho e eu me lembro que a primeira empresa a voar por aqui foi a Panair, que descia na água [com o avião Catalina]. Nesse tempo o aeroporto ficava na área da Esplanada das Secretárias, onde hoje é o Tribunal de Justiça e está sendo construída a nova Assembleia Legislativa.

E a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré?

A Madeira-Mamoré foi desativada em 1972. O jornal manifestou o descontentamento do povo rondoniense. Exemplares do Alto Madeira chegavam de trem a Guajará-Mirim. Eram dois dias de viagem, mas as pessoas liam. Nosso jornal chegou a circular em Gaza, quando o Exército brasileiro esteve por lá. O Guaporé, jornal lançado em apoio ao então governador Aluízio Ferreira, veio depois.

 Quem trabalhou com o senhor?

 Os jornalistas João Tavares, Josias Macedo, Vinícius Danin, Pedro Gondim e Simeão Tavernard são alguns deles, verdadeiros baluartes do jornal entre décadas de 1960 e 1970. Tavares foi vereador. Também trabalharam aqui, ou colaboraram significativamente: Petrônio Gonçalves, Zé Ferreira, o Zé Paca, Ary de Macedo, Esron Menezes, Ivan Marrocos, Carlos Neves, Lúcio Albuquerque,  Pepê, Osias Siqueira, Carlos Mendonça, Iracema Soares, Willian Jorge Heron, Beth Costa, Kléon Maryan, Áureo, José Carlos Sá, Rodrigo Pacheco, Rui Cidades, Marlene Rolim, Edmar Coelho, Paulo Correia, Sérgio Valente, Enos Lins, Nilton Salinas, Sued Pinheiro, a repórter fotográfica Maria José, os gráficos Boy, Zé Oba, Manoel Miguel, o clicherista Heitor e tantos outros que a lista seria grande.

Do time antigo, resta o jornalista Ciro Pinheiro, que segue escrevendo uma página semanal.

Ciro Pinheiro

Ele tinha um primo que comprava couro e pele silvestre. Um dia esse primo o convidou a vir a Porto Velho. Eu estou certo dia na porta do jornal com meus repórteres, e aí chega aquele rapaz magrelo com uma carta dos diretores dos Diários Associados. Ele disse: tenho essa carta e gostaria que me desse oportunidade de trabalhar aqui. Eu estava de viagem marcada para o Rio, e sem pensar duas vezes o contratei, e ele aí está aí há mais de 45 anos. Ciro foi convidado a ir para outros jornais, mas nunca saiu do Alto Madeira.

 O Alto Madeira passou fases difíceis…

Verdade. Na década de 1980 Rondônia conhecoa outros jornais diários e semanários, mas a maioria pertencia a políticos ou lhes devotava simpatia. Por um período, o Alto Madeira entrou em derrocada. Deixava de receber contas antigas, algumas do governo e do Poder Legislativo Estadual. Contas de 18 anos, pois fazíamos o Diário Oficial da Assembleia e até hoje não recebemos o pagamento por aquele serviço.

 A Gazeta do Povo, que também é um diário antigo, fechará daqui a uns dias, em Curitiba. Migrará para a internet. Outros jornais caminham no mesmo rumo. Mesmo assim o senhor prossegue?

Muito já se disse a respeito do fim do jornalismo impresso, a exemplo do que falavam e escreviam quando a TV surgiu no Brasil, nos anos 1950: ela vai matar o rádio. Nada disso ocorreu. Sites e portais ainda terão que caminhar muito chão para suplantar de vez o jornal impresso.

Donos de jornais influenciam o meio político?

Engraçado, nunca exerci esse poder, nem chamo de poder, porque nunca pensei e explorar ou em tirar proveito desse jornal. Claro, ser dono de um jornal dá prestígio à pessoa, mas nunca explorei isso.Talvez a gente tenha influenciado um pouco para o êxito de outros empreendimentos, o mais forte deles, o seguro: representávamos o Grupo Atlântica e chegamos a ser um dos maiores vendedores de seguros.

 Transmita uma mensagem aos jovens jornalistas.

Acima de tudo, é preciso ter amor pela profissão, ler bastante, conversar, ter humildade para aprender e se corrigir, analisar todos os aspectos de todos os fatos que lhe surgirem à frente, e levar a sério o que faz, sem partir pra chantagem. O jovem profissional de hoje precisa primar pelo respeito ao leitor e à notícia. Jornal vive para servir a comunidade, mas infelizmente, hoje, o jornalismo cumpre isso em termos, porque existe ainda muito interesse por trás de algumas matérias. Isso é degradante para a profissão.

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DE TANAJURA A EURO, A DOR AMAZÔNICA EM PÁGINAS IMPRESSAS

Saiba mais de Euro Tourinho, lendo o livro Euro Tourinho – A Samaúma da Amazônia, de Sílvio Persivo, à venda nas livrarias de Porto Velho.