FRANCISCO MATIAS

O senhor retratado em pintura a óleo, exposta no saguão do Palácio Rio Negro, em Manaus, AM, é o médico Pedro de Alcântara Barcellar, governador do estado do Amazonas entre 1918 e 1922. Provavelmente, este senhor elegante, nos padrões da classe alta do início do século XX, esteja sendo apresentado à história de Porto Velho pela vez primeira.

barcellarDe certo modo, é um ilustre desconhecido pela maioria dos estudiosos que se debruçam sobre a história desse município que completou no dia 2 de outubro 102 anos de criação. Coincidentemente, as eleições 2016 ocorreram no dia 2 de outubro em todo o País para eleger prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. Em Porto Velho, enquanto município amazonense, foram realizadas quatro eleições para prefeito, tendo sido o primeiro eleito o médico Joaquim Augusto Tanajura, em 1916, seguiram-se eleições em 1918, 1922 e 1926.

Depois de um longo jejum político, as primeiras eleições em Porto Velho, não mais como integrante do Amazonas, mas na condição de capital do estado de Rondônia, ocorreram em 1985, quando se deu a eleição do advogado Jerônimo Garcia de Santana, primeiro prefeito eleito da capital do estado.

Politizada e experiente em eleições municipais, a sociedade portovelhense passa, no entanto, ao largo de informações históricas, a exemplo do criador do município, o então deputado estadual Dr. Pedro de Alcântara Barcellar.

Eleito em 1912, esse médico em Humaitá, era baiano atendia ao povo da pequena e dividida povoação de Porto Velho de Santo Antônio, que fazia divisa com a vila ferroviária Porto Velho of the Madeira River, ou vulgarmente, Porto Velho do Rio Madeira, a cada 15 dias.

Seu consultório improvisado era na farmácia do Sr. Arthur Napoleão Lebre, situada na rua do Commércio, atual avenida 7 de setembro, onde esse médico obstetra e clínico geral consultava e se fazia popular. Era conhecido como o médico do povo.

E foi nessas idas e vindas para a povoação de Porto Velho, onde funcionava um Termo Judiciário “anexado à comarca de Humaitá”, que o Dr. Barcellar comprometeu-se a criar o município se eleito fosse a deputado estadual do Amazonas.

Dito e feito. Apresentou na Assembleia Legislativa projeto de lei dispondo sobre a criação do município de Porto Velho que, uma vez aprovado, recebeu a sanção do governador Jônathas de Freitas Pedrosa, líder do grupo político do deputado Pedro Barcellar, e virou a lei 757, de 02 de outubro de 1914.

O deputado Barcellar cumpriu a promessa ao farmacêutico Arthur Napoleão Lebre e aos demais comerciantes que ansiavam emancipar-se de Humaitá e, sobretudo, do domínio da Madeira-Mamoré. Contudo, a lei foi aprovada e sancionada com uma falha: a lei não elevou a povoação à categoria de cidade. E nem podia, pois havia duas povoações conjuminadas, mas separadas por um alambrado que limitava a jurisdição do Termo Judiciário do poder da administração estrangeira da ferrovia.

Mas Pedro Barcellar assumiu para si a solução desse problema e voltou a prometer que, se fosse eleito a governador do Amazonas, criaria a cidade de Porto Velho. Prego batido, ponta virada. Em 1918, depois de dois mandatos de deputado estadual, foi eleito governador e enviou à Assembleia Legislativa mensagem dispondo sobre a elevação da povoação de Porto Velho, no rio Madeira, à categoria de cidade.

O projeto foi aprovado por unanimidade e no dia 7 de setembro de 1919, ele, na condição de governador, sancionou a lei nº 1.011/1919, que corrigiu a falha da lei criadora do município e criou a cidade de Porto Velho.

Pedro Barcellar é um desses personagens importantes, com obras não menos importantes, esquecidos na história oficial de Rondônia. Mas ele foi o responsável maior para que 102 anos depois de ser criado, Porto Velho tenha realizado sua 13ª eleição municipal.

Senhoras e senhores estudiosos, pesquisadores historiadores e demais interessados, é com subida honra que vos apresento o Dr. Pedro de Alcântara Barcellar, médico, deputado estadual e governador do Amazonas, criador do município e da cidade de Porto Velho. Façam bom uso.
*O autor é historiador e analista político, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, da Sociedade Brasileira de Escritores e da Academia Rondoniense de Letras (ARL).