LúcioAlbuquerque

Sou repórter desde muito antes de acabar a dita dura. No período em que ela vigorou trabalhei em três jornais que foram oficialmente censurados. Tempo em que havia censor na Redação. E não era fácil – O Estado de S. Paulo (Estadão) colocava no espaço destinada às matérias censuradas receitas de bolo e trechos de “Lusíadas”. Os leitores entendiam.

Várias vezes sei que pessoas consideradas “democratas”,  e até colegas de profissão, talvez para preservar seus empregos pediam a meus chefes que me demitissem. Pelo que sei nenhum aceitou a imposição, apesar das retaliações econômicas. Um dos “democratas” Chiquilito Erse, um seu aspone foi ao Alto Madeira pressionar para me demitirem. Diretor Euro mandou o cara às favas. Afora, claro, um jornal brasiliense – veja a seguir.

Rochilmer Rocha

Outro diretor que nunca vi se dobrando, apesar das pressões,  algumas delas bem claras, pelo Incra e pelo governo do Território, quando à época do Capitão Sílvio Gonçalves de Farias, foi Rochilmer Rocha, que já tivera um exemplo de pressão quando repórter setorista do Correio da Manhã, carioca.

No governo de um “democrata”, Jerônimo Santana, aconteceu o caso do Correio Brasiliense. Registrado  nos anais da Fenaj há a denúncia de que, em troca de publicar um caderno louvando o governador e suas obras, esse jornal aceitou me demitir para faturar. Algo testemunhado por uma jornalista delegada de base na Redação daquele matutino.

Luiz Tourinho, à direita do irmão Euro

Duas pessoas dessa área, o empresário Luiz Tourinho e o então presidente do Sinjor Paulo Queiroz confirmaram – o primeiro com base numa reunião com diretores daquele jornal e o PQ por estar participando do congresso onde aconteceu a denúncia – e me presenteou com um exemplar.

Em uma ocasião eu e o Montezuma Cruz chegamos a ficar praticamente em cárcere privado no Palácio Presidente Vargas por causa de umas cópias de folha de pagamento – naquele tempo não se falava em caixa dois – que estavam numa lixeira. Ficamos numa sala cercados de secretários do governador Humberto Guedes, que não estava presente. Eu o reputo como o grande governador que o Território teve.

Montezuma Cruz

A coisa durou até que chegou o doutor Jacob Atallah, então chefe da Casa Civil, e ao se inteirar do que ocorria disse que não concordava com aquilo. E fomos embora. Passamos por aquele período em que na hora de fechar a edição chegava um agente da PF com um papel não assinado nem carimbado e muito menos identificado e entregava ao editor chefe dizendo “De ordem superior fica proibido citar que aconteceu tal fato”. Ivan Marrocos, que era o editor chefe, uma vez conversou com a gente e a notícia saiu dizendo que o fato proibido” não aconteceu”.

Rubens Coutinho

Como outros profissionais que militam aqui e que conheço bem, essas pressões eram e são comuns. Há muitas histórias e causos, como o do jornalista Adair Perin, que chegou a ser preso porque noticiou criticando a falta de luz da Ceron em Cacoal, ou do Rubens Coutinho, que editava A Tribuna e viu membros do TRE local “empastelarem” uma edição, e quando o desembargador presidente do Tribunal nos recebeu para explicar, no dia seguinte, tendo ao lado os juízes membros da corte, inclusive os indicados pela OAB – que se jacta de sempre defender a liberdade de expressão, os advogados-juízes em nenhum momento se posicionaram contra o empastelamento.

No final da “fala do trono”, o juiz representante do TRE ditou uma série de normas que não podiam ser citadas na edição do dia seguinte – era eleição para prefeito de Porto Velho em 1985. E nem respondeu se poderíamos, pelo menos, noticiar que haveria eleição no dia seguinte.

São histórias que nós, velhos, e alguns nem tanto, temos para contar e que a maioria silenciosa nem imagina.

(*) Repórter. Editou o Alto Madeira e A Tribuna. Membro da Academia de Letras de Rondônia (Acler).

jlucioalbuquerque@gmail.com

A Notícia (Manaus) no topo da lista, A Tribuna (Porto Velho), o 2º

“NÃO ANUNCIEM NESSES JORNAIS”
De fato, como relata Lúcio Albuquerque, o período de exceção causava dissabores às empresas jornalísticas e às Redações.
Por um período, A Tribuna sofreu censura econômica também. Fora preterida pelo então coordenador regional do Incra, Bernardes Martins Lindoso, na publicação de editais e publicidade institucional da autarquia. Lindoso queixava-se ao diretor Rochilmer Rocha da postura do jornal em relação à reforma agrária. Na verdade, ao enviar repórteres aos projetos do Incra, o jornal mostrava avanços e recuos da política federal. O coordenador, pelo visto, queria só elogios. Documento enviado pelo Serviço Nacional de Informações, o temido SNI, a diversas empresas estatais, incluindo a Companhia Vale do Rio Doce (foto ao lado),  recomendava que não anunciassem em “jornais contestadores”. A Tribuna era o segundo da lista. [Montezuma Cruz]