PORTO VELHO  – Vinte anos depois de deixar a Prefeitura de Porto Velho em final de mandato conturbado, o ex-prefeito da capital por duas vezes, deputado constituinte, feirante, um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), José Alves Vieira Guedes desabafa: “Fui perseguido politicamente por alguns membros do Tribunal de Contas de Rondônia.”
Tem nome o seu algoz no Tribunal de Contas? – pergunto-lhe“Sim, ele já morreu. Era o conselheiro Hélio Máximo”, afirma o ex-prefeito, agora um operador do Direito, militante da advocacia.

“Havia deliberada ação contra os políticos jovens que chegavam ao poder, enquanto aqueles identificados com o regime militar gozavam de tratamento diferenciado”, ele conta.

De liderança política emergente, José Guedes ficou com a pecha de mal administrador e nunca mais elegeu. Enfrentou dificuldades e virou feirante.

“Não sou ladrão do dinheiro público, encarei a feira com naturalidade, pois precisava sustentar minha família com dignidade. Depois, voltei ao banco escolar para concluir meus estudos e me formar em Direito”, relembra o agora advogado.

Guedes recepciona o ex-presidente Fernando Henrique-Cardoso e a primeira-dama, antropóloga Ruth Cardoso

Predestinado, nasceu em um vilarejo chamado Campestre dos Tucanos – hoje Estado de Tocantins – interior do município de Itacajá. O então guarda-livros – empregado do comércio, ou profissional autônomo, que tem por função fazer o registro da contabilidade e das transações de uma empresa de negócios –, desde menino sonhava poder ajudar os mais necessitados.  No final dos anos 1970, depois de migrar do pequeno vilarejo para Goiânia e andar por Minas Gerais e São Paulo, foi convidado para trabalhar em Porto Velho, como administrador do grupo do empresário Olavo Pires, que se elegeria senador em 1986.

Eleito vereador, depois da recontagem dos votos da urna em que sua mulher votou, mas não aparecia nenhum voto em seu nome, Guedes foi eleito prefeito-tampão em 1985, para um mandato de menos de um ano até as eleições para prefeito de capitais, naquele mesmo ano.

Com o sucesso da administração, foi eleito deputado federal constituinte em 1986 pelo PMDB, partido que deixaria em seguida para se unir a Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Richa, José Serra, entre outros, para fundar o PSDB, do qual é até hoje um dos delegados nacionais.

O personagem desta Entrevista da Semana é um goiano de fala mansa que nas primeiras respostas demonstra feeling político apurado e língua afiada para defender seu legado, apontando na direção daqueles que ele diz terem tentado enxovalhar sua carreira.

Ouvindo Lula, quando o PT ainda ensaiava o projeto de poder. Começava o período de alianças

Quem é José Guedes?
Guedes –  Um cidadão que nasceu na roça em um local chamado Campestre dos Tucanos, no interior de Itacajá quando era ainda estado de Goiás, hoje pertencente ao Estado de Tocantins, e sempre sonhou fazer algo a mais, marcando presença nesta vida. Nesse sentido eu passei a estudar. Fui autodidata e guarda-livros, nome antigo da profissão de contador. Depois fui diretor administrativo de empresas, já aqui de nossa Porto Velho. Antes, passei por Mozarlândia, morei em Goiânia, São Paulo e depois retornei a Goiânia e vim trabalhar com Olavo Pires em 1º de junho de 1977.

De que maneira e em que momento se deu a sua entrada na vida política?

Guedes – Eu sempre gostei de política. É algo que está dentro de mim prestar serviços à comunidade. Acho que as pessoas têm vocação igual: para magistrado, para ser religioso; eu tenho vocação para a política com algo a mais, e fiz isso aqui em Porto Velho, me candidatando a vereador em 1982 pelo PMDB. Naquela eleição, com votação e apuração manual, no primeiro resultado fui o menos votado, mas pedi a recontagem em determinada urna que tinha dado problemas. Nesta urna, minha mulher havia votado e não aparecia nenhum voto para o meu nome. Depois, constatou-se que os votos que tinham ali eram o suficiente para que eu fosse um dos eleitos. Fui eleito, liderei o PMDB em 1984 e, em 1985 fui escolhido prefeito-tampão, para chegar até a eleição que aconteceria no final do ano, quando Jerônimo Santana se elegeu.

Com o líder tucano, senador Mário Covas, senador e depois governador do Estado de São Paulo

E dali para Brasília…

Minha caminhada foi bastante rápida. Depois desses cargos, em 1986 fui eleito o deputado federal constituinte mais votado do PMDB. Fui vice-líder do PMDB, o líder era Mário Covas, e muito ajudamos na construção da Constituição Federal. Como era um parlamentar centro-esquerda e, descontente com a invasão que ocorreu nos quadros do PMDB, criamos o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira):eu, juntamente com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Richa, José Serra, entre outros.

E depois da Constituinte?

Guedes – Sou muito feliz em ser um dos fundadores do partido que professa a ética em primeiro lugar. Saímos do PMDB porque ele estava fugindo do seu programa estatutário, começou a ter mais projetos de poder do que de construção do País. Do velho MDB, sobrou pouco no partido, pois muita gente que gostava de ficar perto de governo se filiou. Aí o MDB virou uma miscelânea de ideologias, passando a ser o grande partido, mas sem ideologia definida. Assim, criamos o PSDB. Em vários estados e municípios lançamos candidatos, e aqui em Porto Velho eu me coloquei em 1988 pelo PSDB como prefeito e, em 1990, mesmo perdendo, coloquei minha candidatura a governador. Sabia que se perdesse, ficaria sem mandato, como de fato fiquei.

Persistente…

Coragem eu tinha de sobra, mas não tinha recursos pra me sustentar depois das eleições. Hoje não faria isso de novo. Mesmo assim, me candidatei a governador fui o mais votado em Porto Velho e o menos votado no interior. No mesmo ano também foram candidatos: Olavo (Pires), Raupp (Valdir), Pianna (Oswaldo) entre outros. Em 1992 saí candidato a prefeito pelo PSDB e ganhei, tendo a certeza de que de conhecia o eleitor de Porto Velho que é fenomenal, pois estava sem mandato e com dificuldade financeira até mesmo para me alimentar. Eu dizia nos comícios que comia carne de cabeça, porque era mais barato. Minha esposa recebia um salário pequeno da Assembleia e isso foi nos sustentando com bastante dificuldade. Os porto-velhenses nos abraçaram e nos deram a maioria dos votos – naquela época não tinha segundo turno – e fomos eleitos de uma forma espetacular, aumentando ainda mais minha estima pelo povo daqui.

Eu digo que quem gastar dinheiro com campanhas eleitorais achando que vai fazer a cabeça do eleitor porto-velhense, ou faz alianças esdrúxulas pensando que não perde pra ninguém comete um grande engano. Porto Velho faz reviradas sensacionais.

A eleição de 2016 demonstra essa característica do eleitorado da Capital?

Guedes – Sim, eu disse que poderia acontecer isto. Fui convidado por um cientista político para intermediar o debate que ele faria com a participação de outros dois cientistas, um daqui e um de Santa Catarina. Na ocasião, eu lhe manifestei o quanto é surpreendente o eleitor aqui. Eles especularam sobre quem seria eleito, ao que respondi que aqui costuma acontecer cada surpresa que dá nó na cabeça de qualquer cientista. Aqui está desse jeito mesmo. O eleitor é adorável. Eu considero o eleitor de Porto Velho mais fenomenal, o melhor eleitor do mundo.

Pôde se verificar esse comportamento na sua eleição em 1992, na primeira eleição de Roberto Sobrinho e agora, na eleição do Hildon Chaves?

Guedes – Tranquilamente.

Continua filiado a algum partido?

Guedes – Sou delegado nacional do PSDB, apesar de não ser frequentador do partido.

No palanque peemedebista; à esquerda, o deputado estadual Arnaldo Martins; Jerônimo Santana, Amir Lando e Rochilmer Rocha

Não é um militante, digamos assim?

Guedes – Tenho me mantido a distância, de propósito. Apoiei a  distância a candidatura do Hildon, mas não fui visitá-lo nenhuma vez durante a campanha, nem fui parabenizá-lo depois de eleito. Desejo que ele faça uma administração excelente, que continue nessa direção, porque se percebe que está com vontade de trabalhar. Quero mesmo é cuidar de advocacia. Eu tenho medo do vírus da política me contaminar novamente e eu não me livrar dele. Querer ficar só lá na política e esse ‘treco’ entrar de novo ai fica ruim, minha família já sofreu muito.

Não tem planos de voltar à política?

Guedes – Não, eu quero ser um bom advogado.Tem muita gente boa com vontade de ser político e não sou imprescindível. Tem muita gente fazendo – com mais coragem – aquilo que eu poderia fazer hoje na política. Sou uma pessoa com ideais de justiça social, mas acho que não tenho mais a coragem que tive quando fui vereador, prefeito e deputado federal. Aquela coragem de colocar minha família no sacrifício igual coloquei várias vezes. Sacrifício financeiro mesmo.

Quando saí da prefeitura e até quando deixei de ser deputado federal, nunca saí do mandato com dinheiro ou patrimônio. Então eu quero cuidar para que eles não tenham mais problemas.

E, graças a Deus, já estão todos se formando  – até minha mulher já se formou –, apenas minha filha mais velha, que paralisou o curso de medicina porque teve algumas dificuldades, os demais já se formaram.

Lá se vão 21 anos do seu mandato de prefeito. Em alguns aspectos sua administração foi avançada. O senhor abriu os bairros Tancredo Neves e JK, proporcionando na sequência, o surgimento do São Francisco e Mariana. Avalie a cidade que evoluiu no mesmo ritmo da sua administração?

Guedes – A dificuldade de fazer uma avaliação é muito grande. Tem uma coisa que eu sei que fiz mais do que qualquer um, que foi doar terras. Roberto Sobrinho distribuiu documentos. Ele documentou as terras que eu doei –  e foram muitas, mais de 15 mil lotes de terras. Fez isso nas duas administrações. Na questão fundiária, minhas referências são os bairros Tancredo Neves e JK, no entanto, também alcançamos bons índices no combate à mortalidade infantil. Conseguimos a menor taxa de mortalidade infantil da história de Porto Velho e tive o reconhecimento da ONU (Organização das Nações Unidas). Eu investi muito em drenagem, prevenção e reforço na alimentação das crianças.

Orador da turma na formatura do Curso de Direito

Passado esse período, ainda resta alguma obra de infraestrutura feita por sua administração?

Elas são os principais exemplos de obras com drenagem; as outras foram limpezas de canais. É um trabalho, onde se investe bastante e não é visto, mas que tem resposta na questão da saúde.

A drenagem hoje ainda é um problema em Porto Velho e os administradores ainda encontram dificuldades para resolver.

Não sei o que os outros fizeram de importante, mas sei que fiz a Avenida Rio de Janeiro, abrindo-a de ponta a ponta, do Areal à Nova Porto Velho; a rua Raimundo Cantuária, as avenidas Guaporé e Tiradentes e eliminei muitos pontos de alagação.

Se arrepende de algum artigo que tenha colocado na Constituição Federal, sobretudo, agora, atuando do outro lado do balcão?

Guedes – Tenho muito orgulho de ser constituinte. Tem muita coisa que fizemos, como a questão da escuta telefônica. Cada vez que um sujeito vai preso por causa da escuta telefônica durante a investigação, aí é algo que foi feito por nós e não por outra pessoa. Por deputado constituinte rondoniense, que é assim que me considero. Também temos transformações importantes no campo social que melhoram a condição social das pessoas. Realizamos um trabalho de constituição no País, muitas coisas deram resultados excelentes. Tem o trabalho do Judiciário, primando para que aquelas palavras não fique só no papel. O Judiciário tem procurado praticar o que está na Constituição. Ela inteira 30 anos no próximo ano e é uma das mais modernas e longevas da nossa história republicana, fora do Império. A que mais está durando, ninguém fala em mudá-la, porque ela é boa. Na hora em que se fala em mudá-la, aqueles que foram contra essa Constituição na hora da promulgação hoje vão às ruas. Nada de mudar as conquistas trabalhistas. A Constituição foi bem feita por parlamentares que tinham compromisso com a comunidade. Naquela eleição, a maior parte dos eleitos não tiveram ajuda dos empresários, foi tipo eu sair daqui, com o total apoio da população.

Numa das salas de debates da Constituinte de 1988

Quem foi fundamental para o êxito dessa Carta?

O povo me elegeu e me mandou para Brasília sem saber bem o que é uma Constituição. Eu tinha de colocar coisas na Constituição que nada tinham a ver, tipo escola técnica – que agora consta na reforma do ensino para impulsionar a educação profissionalizante. Naquele tempo eu já queria escola técnica. Nós fomos pra lá e fizemos uma Constituição muito boa. Mário Covas foi fundamental nessa Constituição. Ele era o líder do PMDB, depois do PSDB, e junto com Ulysses Guimarães tornou a Constituição do jeito que ela é hoje, fortalecendo o Ministério Público, criando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e promovendo a melhor análise dos casos mais vulgares. Hoje,nós temos, no meu ponto de vista, quatro instâncias: juiz, tribunal, STJ e STF.

Acredita que nessa questão de acesso à Justiça melhorou com esta Constituição?

Guedes – Está melhor com esta Constituição. E penso que, dos três poderes, quem deslanchou foi o Judiciário, que hoje está informatizado, conta com pessoas mais preparadas para exercerem as funções, os técnicos continuam treinando e não se acomodam ficam parados muito tempo. A informática está melhorando a cada dia a prestação jurisdicional e de serviços.

A resposta à sociedade tem sido boa e a demanda está grande. Estou empolgado com Judiciário. Já vi despachos aqui com juízes trabalhando a uma da manhã. Gosto dessas coisas e faço questão de registrar, inclusive na imprensa.

Vejo que o Poder Legislativo e o Poder Executivo, principalmente o Executivo, não está primando para se aperfeiçoar. Parece que não quer se informatizar, muitas coisas poderiam ser melhor controladas e não são, como se houvesse um descontrole. Se o Judiciário consegue, com verba limitada, fazer a informatização, porque o Poder Executivo não consegue fazer a mesma coisa. Você entra com processo no Executivo e, para acompanhá-lo tem de ir lá procurar o processo físico. A pessoa tem que ficar procurando numa montanha de papel, como se procura agulha em palheiro, e muitas vezes não encontra o que procura. São essas situações que precisam ser modificadas com muita urgência. E tem outro problema: a pessoa foi eleita para ficar os quatro anos, mas quando assume o cargo já está olhando para os próximos quatro anos seguintes e não faz uma administração boa. É uma administração que não olha para a população, mas olha a próxima eleição.

O senhor virou feirante depois que deixou de ser prefeito, em 1996?

Guedes – Eu precisava comer e sustentar minha família com dignidade. Saí da Prefeitura pobre e sempre achava que não ia perder eleição. Iniciei a carreira como vereador menos votado e consegui uma reviravolta. Daí por diante, toda eleição que eu participava eu obtinha mais votos do que na anterior. Eu pensava: para que eu nunca perca uma eleição, tenho que ser trabalhador e ser honesto. Nunca tive por princípio a acumulação, quero viver bem e não fico com os olhos voltados para acumular bens, porque viver bem não está diretamente ligado a acumulação de riqueza. Só que, quando saí da Prefeitura e tentei outra eleição não conseguir ganhar. Então vi que não basta trabalhar e constatei um problema:Porto Velho é um local que nunca para de crescer e por mais que se faça, se faz muito muito pouco em relação ao tamanho da cidade.

Fui prefeito a primeira vez e todos gostaram, e pela segunda vez era um município totalmente diferente, com imensas dificuldades, e não consegui produzir de acordo com a expectativa que criei.

As pessoas queriam muito mais. Hoje, reconhecem que fiz bastante, e fiz mesmo, mas não foi o suficiente para seguir em frente. Tive que ser feirante, tive que ir para o banco escolar me formar, para as pessoas veem que não era nada daquilo. E hoje eu sou festejado por onde passo.

Com a esposa Lindalva

Mesmo saindo pobre da Prefeitura, lhe imputaram a pecha de ladrão. Como se explica isso?

Guedes –Tentaram pespegar essa pecha em mim, mas o que ocorreu é que tive as contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas e algumas pessoas poderiam até pensar isso. Hoje não pensam mais.

As contas foram rejeitadas sob qual alegação?

Guedes – O Tribunal de Contas – com um viés político – dizia que faltava carimbo; falaram também do superfaturamento de coisas absurdas. Depois, o próprio Judiciário foi desmanchando esses julgamentos políticos que aconteceram.

Esse foi o julgamento do Tribunal?

Eram sete conselheiros, quatro que eram contra a gente e três a favor, não havia unanimidade contra mim.

Então, era um Tribunal político?

Guedes – Sim, o Tribunal era político e hoje é um Tribunal melhor, mais técnico que político. Hoje se faz um julgamento menos apaixonado em relação à política. Naquela época havia uma coisa muito forte contra os novos que estavam entrando na política. A ligação lá era muito mais com aqueles que vinham da época da ditadura, havia um vínculo muito forte; então, era feito de tudo para tirar fora essa moçada que estava chegando. Naquele tempo o prefeito era responsabilizado por tudo que era feito. Era eu, aqui em Porto Velho, mas tinha alguns prefeitos do interior que também sofriam muito. Hoje, a gente não vê acontecer isso.

O prefeito era o único ordenador de despesa do município?

Guedes – Sem ser ordenador. Aí é que estava o problema. Eu havia ajudado a fazer a Constituição e, como prefeito, o Tribunal de Contas me considerava responsável por tudo, por qualquer falta de carimbo que existisse ou por qualquer diferença que houvesse em preço. Eram coisas assim que não vale a pena ficar revivendo. Mas eu fazia obras com valores muito abaixo do preço praticado no mercado contra o Poder Público pensando que iria ganhar elogios dos órgãos de controle. Mas, ao contrário, não arrancava elogios e estabelecia brigas grandes com Odebrecht, por exemplo, por causa de preços altos.

Quando eu assumi a Prefeitura encontrei contratos com preços altos; consegui arrancar descontos grandes com a Odebrecht de 23 % em contratos que já existiam e isso não era visto. Eu fazia isto para mostrar para as pessoas que estava cuidando dos interesses da população. Outra empreiteira, a Planurb, também estava trabalhando aqui, já contratada quando assumi.

Mas eu vi que eles tinham feito contrato com valores elevados e usei a Lei para obrigá-los a oferecer desconto de 30 % em contrato já assinado. Depois fiquei sabendo que para eles eram o seguinte: tinha que ter um valor a mais, porque tinha que fazer distribuição de dinheiro. Disse que comigo não vai precisar disso não. A empresa que fazia a limpeza da cidade levava um dinheiro absurdo do município. Também fiz baixarem o preço e pensava que o Tribunal me colocaria no céu por causa disso. Ledo engano, tive contas rejeitadas por ter tido esse tipo de atitude. O Tribunal adotou o entendimento de que estava provado o superfaturamento. Só que o superfaturamento foi praticado na administração anterior à minha, e nunca deu em absolutamente nada. Esse pessoal da administração anterior não foi nem sequer chamado a dar explicações e eu que fiquei sem mandato. Porque fiquei com as contas rejeitadas e as pessoas passaram a ter uma imagem diferente daquela que eu queria deixar para população, que era a da honestidade.

O senhor se considera reabilitado?

Guedes– Hoje, você sai comigo na rua vê como e que as pessoas me tratam em qualquer lugar que eu vá. E eu estou gostando disso, estou achando bom. Mas tenho medo, principalmente em voltar para qualquer cargo, porque sei que em seguida voltar a cantar o cassetete na cabeça.

“Não vale a pena se meter com corrupção de jeito nenhum”

O senhor se sentiu injustiçado ou perseguido politicamente?

Guedes – Claro que sim! Eu fui bem perseguido mesmo, acho que têm muitas pessoas do próprio Judiciário que sabem disso. Eu sei que comentam isso, tanto que todos os julgamentos foram anulados.

Teria o prefeito Guedes mexido no interesse de algum poderoso?
Guedes – Com certeza.

Daí a perseguição?

Guedes – Eu mexi em uma área de terra grande. E como vereador eu também legislei nessa área. Foi a área à qual me dediquei desde que eu fui eleito. Na primeira entrevista depois de eleito, ao jornal Alto Madeira, já fui falando a respeito da ampliação da cidade para aquela região. E aí eu estudei isso bastante e ataquei quando cheguei  à Prefeitura e coloquei pra valer. Tentaram me cooptar, tentaram me subornar de várias formas, com valores muito altos. Minha consciência não pactua com isso, pode oferecer. Quanto mais oferece, ai que eu rejeito o contrato. Para a área que estávamos abrindo onde hoje é o Tancredo Neves, a oferta era dividir meio a meio. Mas isso ai não adianta nada. Não sabemos o que vai acontecer com a nossa vida e essa vida é muito efêmera; a distância entre o nascer e o morrer e pequena demais. Não vale a pena se meter com corrupção de jeito nenhum, o que vale a pena é passar lá pelos bairros Tancredo e JK que simbolizam mais o que eu fiz nessa área, e ver como as pessoas estão vivendo lá. Graças a Deus, estou vivão, com 62 anos, e passo a ver o resultado daquilo que fiz por convicção há mais de 20 anos.

As pessoas lá ainda te reconhecem?

Guedes – E em todo lugar de Porto Velho.

Porto Velho é uma cidade que renova muito a população…

Guedes – Se nós dois sairmos agora na Avenida Sete de Setembro, logo você vai ver: um chama, outro chama. Eu cheguei aqui ( na redação do expressaorondonia.com.br ),você não havia chegado ainda. Fiquei papeando lá na esquina com um cidadão e, graças a Deus, é desse jeito.

O senhor citou o nome de uma empresa que hoje é o pavor da classe política brasileira –  a Odebrecht e outras também. Tem medo de aparecer em alguma lista dessas empresas que estão fazendo delação premiada?

Guedes – Não tenho. Inclusive, uma vez eu queria pegar um empreiteiro com a boca na botija, me oferecendo dinheiro, porque o negócio deles é esse mesmo. Eles estão em 25 países fazendo isso aí. Queriam conversar comigo, marquei audiência com alguns deles na Prefeitura, peguei um gravador e coloquei debaixo de um vaso de planta, mas antes deles entrarem na sala tinha uma audiência que seria bem rapidinha, só que a pessoa chegou e não saía de jeito nenhum. Aí, quando o empreiteiro sentou, a fita do gravador acabou e naquele gravador tipo ‘tijolão’, quando acabava a fita fazia um barulho medonho. Ele ficou vermelho e eu também, e ele foi embora. Mas incentivei a abertura de uma CPI contra eles aqui, coloquei um vereador para entrar com o requerimento da CPI, dei para ele os elementos que eram justamente esses descontos que eles tinham concedido de 23% e 30% na licitação de um contrato já assinado.

Eles conseguiram aniquilar a comissão, jogaram presente pra cá e pra lá e acabaram com a CPI. Depois encontrei um vereador que veio me dizer que não tinha encontrado nada contra as empresas. Eles devem ter armado uma conversa e afunilaram, eles fazem isso pra todo lado.

Isso que está acontecendo hoje é uma ação de alguns setores, mas eles vão se articular, vão trabalhar com muito mais cuidado, farão delações premiadas, sairão da prisão e terão mais cuidado no que fazem. São experts.

O senhor acredita que a Operação Lava-Jato conseguirá pôr fim à corrupção no Brasil?

Guedes – Não conseguirá mesmo, a Itália não conseguiu e o Brasil também não vai conseguir acabar com a corrupção. Ela nunca vai acabar, pode diminuir e eles vão ficar mais cuidadosos. Os preços podem diminuir um pouco, mas vai continuar havendo financiamento de campanha com dinheiro de empresas, que na verdade é dinheiro público. É logico que o que está sendo feito vai entrar para a história, pois é a primeira vez que empresários estão sendo presos e que políticos com mandato são presos.

Sua administração teve o PT como parceiro. O senhor nomeou o então presidente do Sintero (Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia) Roberto Sobrinho secretário municipal de Educação. O PT teve oito anos na Prefeitura, mas no momento em que o senhor esteve em dificuldade financeira, nunca lhe ofereceram um cargo. Isso o magoou?

Guedes – Não. Eu pensava que eles iriam ser mais amigos, mas eles tinham as preocupações deles e acabou passando. Melhor desse jeito, pois não queria estar no meio dessas coisas que aconteceram. Acredito que tem muita gente que foi presa que não tem nada a ver e vai continuar acontecendo isso, porque a pessoa chega lá e assina porque o chefe mandou. Depois é ele que vai pagar o pato por causa daquilo mesmo se dever nada. Eu não tenho mágoa não, o Roberto é meu vizinho e nos cumprimentamos normalmente.

O senhor está advogando há cinco anos. Já está ganhando dinheiro com a advocacia?

Guedes–Rapaz, estamos sobrevivendo. Não estamos ganhado dinheiro não. Eu trabalho muito e gosto de estudar bem o processo, de me colocar no lugar do julgador, para procurar fazer um trabalho que facilite para o julgador. E em alguns processos que, analisando depois, fico pensando porque o outro lado costuma embaralhar tudo para dificultar o julgamento. Na verdade, não ganhei muito dinheiro ainda, mas estou me mantendo.

Está feliz na advocacia?

Guedes – Estou gostando da advocacia, estou feliz. Estou contente com advocacia, com o Judiciário e gosto de deixar isso bem enfatizado, porque esse Poder realmente merece.

Advocacia é um jogo de estratégia ou um julgamento da exposição da verdade?

Guedes – Eu acho que a verdade é aquilo que está nos autos. Às vezes, a verdade não está nos autos e tem que está lá, mas é assim que é julgado. Juiz julga aquilo que chega na mão dele e isso nem sempre é a verdade. Invariavelmente os juízes julgam certo.

Mesmo quando o senhor perde a causa, continua pensando assim?

Guedes– A gente reconhece quando perde. Fica procurando para ver se tem um jeito para recorrer. Às vezes você está com a verdade, mas o processo não está demostrando aquela verdade. Eu tenho tido muita sorte, tenho trabalhado direitinho.

Tem nome o seu algoz no Tribunal de contas?

Guedes – Ele já morreu. Era o conselheiro Hélio Máximo. Ele comandava a tropa do Pianna contra mim. Era ele e um pessoal que o Pianna colocou.

Agradeço pela entrevista e deixar tempo livre para o senhor acrescentar algo que eu tenha deixado de perguntar ou deixar a sua mensagem ao povo de Rondônia.

Guedes – Quero agradecer você, Carlos Araújo, pela oportunidade de estar aqui papeando. A gente não tem se encontrado muito, mas tem se falado de vez enquanto pelo Facebook ou por telefone. Estou gostando muito de ver a linha editorial do www.expressaorondônia.com.br Espero que ele seja brevemente um sucesso editorial.

CARLOS ARAÚJO

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