HIRAN GALLO
HIRAN GALLO

O Brasil vive o maior surto de febre amarela observado nas últimas décadas, envolvendo principalmente os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, que, juntos, representam 604 casos confirmados da doença em 2017, ou seja, 90% do total. Como forma de prevenir o avanço desse grave problema de saúde pública, o Governo encaminhou, entre os meses de janeiro e abril, para os estados e Minas que acumulam o maior número de registros, aproximadamente 22,3 milhões de doses da vacina Febre Amarela.
A ideia é intensificar as estratégias de vacinação de forma seletiva, o que inclui da oferta de um reforço extra na cobertura de áreas não consideradas prioritárias pela vigilância sanitária, como acontece com Rondônia.

A expectativa é que essa ação contribua para o controle dos episódios de febre amarela que, até o momento, têm se manifestado em sua forma silvestre. Em síntese, são pacientes que foram infectados quando de sua permanência em áreas rurais ou de preservação ambiental.

No início do século 20, epidemias de febre amarela em áreas urbanas eram constantes em grandes capitais da América Latina, como Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Os números recentes ameaçam os resultados alcançados por décadas de esforços para erradicar a doença e seu vetor. Trata-se de quadro que mostra como a negligência dos gestores pode estar contribuindo para que fantasmas do passado voltem a ameaçar a população.

O investimento em saneamento e coleta de lixo; combate ao desmatamento desenfreado e o estímulo ao manejo ambiental; e a implantação de políticas de urbanização efetivas: estas são medidas que deveriam estar sendo tomadas ao longo dos anos e que poderiam reduzir o risco de aclimatação da febre amarela nas cidades.

Conforme relatam diferentes e conceituados epidemiologistas, o Brasil vive um momento delicado que exige preocupação e ações efetivas.

Teme-se que o vírus chegue às zonas urbanas e passe a ser espalhado pelo mosquito Aedes aegypti, também transmissor da dengue, chikungunya e a zika. Seria uma enorme tragédia, pois a febre amarela apresenta um alto índice de letalidade em caso de não tratamento.

Ressalte-se que com a diminuição das áreas florestais, macacos que foram infectados podem frequentar os centros urbanos em busca de alimento e abrigo. Nestes locais, eles podem ser picados pelo mesmo agente transmissor da dengue, abundante nas cidades brasileiras, tornando realidade um pesadelo.

Diante de tantos temores, os brasileiros que vivem em áreas de risco devem procurar o abrigo da vacinação. Observar as orientações das autoridades sanitárias sobre quem está apto para tomar uma dose é uma necessidade. Contudo, não se pode agir apenas de forma reativa às ameaças que o vírus da febre amarela nos impõe.

É fundamental que os Governos – federal, estaduais e municipais – promovam medidas que tornem reais e prioritários investimentos em políticas de saneamento, proteção ao meio ambiente e desenvolvimento sustentável das áreas de fronteira.

Tanto quanto o acesso às vacinas esses são os ingredientes que serão capazes de afastar o fantasma da febre amarela que ronda nossas cidades.

Doutor em Bioética pela Universidade do Porto
Diretor Tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM)