PORTO VELHO – Aos 71 anos de idade, a inteirar em 25 de abril próximo, o economista, jornalista, radialista, apresentador de TV e empresário da radiodifusão, Eudes Marques Lustosa é uma testemunha ocular, privilegiada, da história de Rondônia, em quatro décadas e meia. Polêmico, sincero, sem meias palavras, ele já foi fichado no SNI (Serviço Nacional de Informações), órgão da ditadura militar, que o considerava “agitador e subversivo”. Depois ele seria alcunhado por colegas de profissão no jornalismo como “agente da ditadura infiltrado no meio”.

– Nem uma coisa nem outra. Fui vítima duas vezes de maledicências dos dois lados. Fui fichado no SNI por um coronel do exército, aqui em Rondônia, porque me insurgi contra o abuso de duas diretoras de escolas em Guajará-Mirim. Desfeito o mal-entendido, passei a ser visto como pessoa séria e confiável pelas autoridades que mandavam em Rondônia. Talvez por isso, alguns colegas, tangidos pela inveja, inventaram essa história de que eu seria um agente infiltrado nas redações – ele conta.

Um dos fundadores da Grande Loja Maçônica de Rondônia, casado há mais de 40 anos com a advogada Maria das Graças Lustosa, pai de três filhos e avô de quatro netos, esse manauara vive em Rondônia desde o início dos anos 1970. Já assessorou governador, foi chefe da Casa Civil em dois governos, diretor financeiro do extinto banco Beron, diretor presidente da Caerd, da extinta Cohab e presidente da antiga Teleron.

Nunca respondeu a processo por prática de irregularidades no serviço público e, há cerca de 20 anos é a voz grave que ecoa pelas ondas da rádio FM 95, em Rondônia, de segunda a sexta-feira, com o programa Falando a Verdade. Garante que nunca foi contestado no ar ou processado pelos seus comentários, e já ameaçou suspender anúncio da grade de programação, por causa da reclamação de um ouvinte. “Se o que estou anunciando aqui não for o que o anunciante oferece ao cliente, não anuncio mais”, esbravejou, no ar.

Eudes idealizou e apresentou o programa Regra do Jogo, ao lado da falecida ex-deputada federal e radialista Rita Furtado. Ele conta ao Expressão Rondônia um pouco dos bastidores do poder no tempo dos coronéis, fala de corrupção, do jornalismo, e arrisca avaliar como seria Rondônia se Teixeirão não tivesse sido nomeado governador.
A entrevista:

Marias das Graças e Eudes Lustosa

Quem é Eudes Lustosa?

Eudes – Nasci em Manaus em 25 de abril de 1946, portanto, no próximo mês faço 71 anos. Estou bem conservado, a natureza tem sido generosa comigo. Sou filho de um piauiense que chegou ao Amazonas como soldado borracha em 1942. Em 1944 casou-se com aquela que viria a ser minha mãe. Passei toda minha infância em Manaus. Fiz meu curso primário no Grupo Escolar Marechal Hermes, onde mais tarde funcionou a Câmara dos Vereadores da capital amazonense. Depois fui para a Escola Técnica de Manaus, fazer o curso ginasial, que era, também, profissionalizante. Nessa ocasião, ganhei a profissão de marceneiro. Concluído o curso em Manaus, me transferi para o Rio de Janeiro, onde fiz o curso colegial, também profissionalizante e depois o curso superior. Sou casado, pai de duas filhas e um filho. Uma filha de 38 anos, um filho de 36 anos e outra filha de 34 anos. A filha mais velha é dentista, o filho do meio é advogado militante e a minha filha mais nova é formada em jornalismo, porém, só fez um estágio e não quis se dedicar às comunicações. Queria muito que fosse minha companheira de trabalho. E sou avô de dois netos e duas netas que são as criaturas mais interessantes do mundo.

Como foi o início da vida na cidade grande?

Eudes – Fui sozinho estudar e morar na casa de um tio. Fiz o concurso para Escola Técnica Federal do Rio de Janeiro, antiga Escola Técnica Nacional, que virou depois Escola Técnica Federal da Guanabara, e finalmente Escola Técnica Celso Suckow da Fonseca. Este foi o engenheiro e educador, que morreu como diretor da escola e o homenagearam dando o nome dele à escola. Lá eu cursei o 2º grau profissionalizante, formando-me em eletrônica e, antes de terminar esse curso fui convidado a trabalhar na Standard Eletric. Foi lá que eu tive o meu batismo de fogo como técnico em eletrônica e onde trabalhei praticamente cinco anos. Antes disso, porém, por ser filho de uma família humilde – meu pai era pintor letrista e minha mãe era doméstica –, senti a necessidade de trabalhar para ter algum dinheiro e consegui meu primeiro emprego como foca [principiante] na Tribuna da Imprensa, de propriedade do jornalista Hélio Fernandes.

Onde mais o senhor trabalhou no Rio e quanto tempo ficou lá?

Eudes – Trabalhei um ano, depois de fazer – no próprio jornal – um curso intensivo de jornalista para melhor desempenhar minhas tarefas. Trabalhei um ano sem receber salário, mas era fascinado pelo cheiro da tinta e aquela convivência com jornalistas, entre eles, o poeta Ledo Ivo, que era revisor e mais tarde viria a ser um dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Ele chegava por volta das 5h ou 6h da tarde, recebia o material que já tinha sido produzido e revisava. Depois fui estudar Economia.

Na Standart Eletric passei cinco anos, e de lá saí quando estava no último ano da faculdade. Saí para me submeter a um estágio em economia no Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], que nessa época funcionava no Rio de Janeiro. No Ipea permaneci o ano de 1971 como estagiário no grupo chefiado pelo economista PhD Cláudio de Moura Castro, hoje consultor da Unesco e que escreve regularmente na revista Veja.

Em janeiro de 1972, ao final do meu estágio, fui contratado como economista do Ipea. Recém-formado em Economia, ganhei, como prêmio pela minha participação na pesquisa sobre Ensino Profissionalizante no Brasil – do IPEA, bolsa de estudo para Universidade de Chicago. Comecei a estudar inglês, já que era muito fraco nesse idioma, me preparando para, em agosto de 1972 viajar para Chicago, onde faria o mestrado com vistas ao doutorado em Economia da Educação, mesma especialidade do Cláudio Moura Castro.Em junho daquele ano eu reencontrei, depois de uns dez anos, o empresário Moisés Bennesby, meu conhecido desde Manaus. Desde a infância fui amigo de Isaac Bennesby, irmão de Moisés.

…E daí veio para Rondônia?

Eudes – Sim, o Moisés me convidou para vir a Rondônia, mais precisamente para Guajará-Mirim. Eu não estava propenso a aceitar o convite mas perguntei-lhe quais eram as condições, e ele pediu que eu dissesse em que condições eu viria. Eu então, pedi-lhe um salário X (igual ao de um Phd do IPEA – Ministério Planejamento), mais casa, comida, roupa lavada e uma viagem por ano para o Rio de Janeiro nas férias. Antes que eu terminasse minha fala, ele aceitou as minhas condições e eu não pude mais dizer não. Quando fui avisar ao Cláudio de que abriria mão da bolsa porque viria para Guajará Mirim, ele disse que eu era louco. Pegou um mapa do Brasil e olhou onde se localizava Guajará-Mirim e disse: “isso é o fim do mundo. Você está deixando Chicago para ir para Guajará-Mirim?”

E isso balançou sua decisão?

Eudes – Eu respondi que sim, porque sou de origem humilde e a oportunidade de ganhar um salário daquele tamanho tão cedo, recém-formado, era algo que eu só teria depois de quatro ou cinco anos, quando concluísse o PhD. Então, decidi vir para cá. Não conformado, o Cláudio disse que suspenderia a minha bolsa, adiando-a por um ano, porque ele sabia que eu não me adaptaria aqui, não ia me acostumar com Rondônia e voltaria. Isso era maio ou junho de 1972 e, em 23 de julho daquele ano desembarquei no Aeroporto Belmont, com destino a Guajará-Mirim. Quando desci em Porto Velho foi um choque térmico, porque saí do Rio de Janeiro em 23 de julho com a temperatura de 17° e desembarquei aqui com 38°. E choque de civilização também, porque, quando vim do aeroporto para a cidade, a Avenida Lauro Sodré estava sendo asfaltada e, consequentemente, interditada. Tive que entrar na cidade pela Avenida Kennedy (mais tarde denominada Jorge Teixeira) que naquele tempo ainda não era asfaltada, era só poeira.

Como foi a vida em Guajará-Mirim?

 Eudes –Estive cinco anos lá. Era uma cidade muito boa. Lá conheci e casei com a mulher que é a mãe dos meus filhos. Eu gostava muito de Guajará. Ao chegar lá eu ganhava salário de PhD. Aí fiz um contrato de seis meses com o Bennesby, porque minha intenção era voltar ao Rio no final daquele ano. Em dezembro de 1972, quando fui me despedir do Moisés, ele disse que a minha remuneração havia dobrado e que eu deveria continuar na empresa. O argumento dele era muito forte, fui ao Rio passei as festas de fim de ano e voltei para Rondônia onde estou há quase 45 anos. Quando vinha a Porto Velho tinha imensa vontade de voltar logo, porque não me adaptava ao calor, à poeira, enfim, achava Porto Velho muito inóspito. Depois, me submeti a um teste na Embratel, que precisava de um economista para ser o responsável administrativo financeiro para o distrito Rondônia e Acre. Fui aprovado no teste e me deram uma semana para assumir. Disse que não podia, pois tinha um compromisso com Moisés Bennesby, que era diretor administrativo e financeiro da usina de beneficiamento de castanha Rondex, e tinha que dar pelo um mês de aviso prévio a cumprir. Embora não fosse empregado, eu era contratado para aquela tarefa de diretor e não podia abandonar a empresa abruptamente.

Voltei para Guajará-Mirim e, quando avisei que ia sair o Moisés Bennesby propôs cobrir o salário que eu viria ganhar em Porto Velho. Não aceitei a proposta e um mês depois mudei para a Capital. Lá eu vivi cinco anos. Ao final desse período, ganhava algo em torno de 15 mil cruzeiros por mês. Na época, o governador do território recebia 12 mil cruzeiros.  

Eu era um profissional bem remunerado e decidi vir para Porto Velho porque aqui eu receberia um salário 35% maior.

Que idade o senhor tinha nessa época?

Eudes – Tinha 29 anos, já estava casado com a Graça, minha mulher até hoje. Estamos casados há 41 anos e meio. Vim para Porto Velho, me apresentei na Embratel num final de semana e, na segunda-feira fui trabalhar. Trabalhei segunda, terça e, na quarta-feira, me mandaram embora sob alegação de que a Assessoria de Segurança e Informação (ASI), do Ministério das Comunicações, tinha vetado meu nome. Eu perguntei o porquê ao chefe do distrito da Embratel aqui, o Calhau, e ele não sabia dizer. Disse que tinha um problema qualquer no SNI [Serviço Nacional de Informação] que não abriu o caminho para mim. Eu pedi-lhe que me desse aquilo por escrito, pois havia abandonado emprego, tinha vendido tudo e de repente, com três dias, me mandava embora sem aviso prévio, sem nada… Aquela decisão não podia ser apenas verbal.

O senhor era um subversivo?

Eudes – Constava no SNI que sim, mas não era verdade. Fiquei seis meses desempregado. Nesse meio tempo eu fiz concurso para os Correios, passei, mas não entrei, o chefe do departamento de pessoal me chamou e disse que houve um impedimento. Foi aí que me dei conta que a Embratel e os Correios pertenciam ao mesmo Ministério da Comunicação. No caso do Correio, foi tudo até mais rápido, porque já estava com a minha ficha em cima da mesa. Foi só mandar embora. Eu fiquei nessa situação e todo dia era uma angústia. Eu tinha um dinheiro guardado e esse dinheiro foi se acabando. Continuei morando na casa que a Embratel tinha me franqueado, mas todos os dias me cobravam a devolução e eu dizia que não sairia, porque não tinha para onde ir. E ficou naquela briga: eu e a Embratel. Um dia procurei um amigo chamado Murilo Aguiar, então diretor da TV Rondônia, a quem pedi dinheiro emprestado para comprar gasolina e voltar em minha Brasília para o Rio de Janeiro, tirando Rondônia do currículo de uma vez por todas.

Coronel Humberto Guedes (D), governador de Rondônia entre maio de 1975 e abril de 1979

Conseguiu o empréstimo?

Eudes – Murilo me disse: rapaz, não vá embora não. Rondônia está mandando buscar técnicos lá fora. Contei pra ele a razão e ele telefonou para o coronel Guedes, então governador de Rondônia e de quem ele era muito amigo. O coronel me conhecia da campanha eleitoral de 1976, quando estive nos palanques. O Murilo relatou minha situação ao Governador Guedes e pediu uma oportunidade para mim. O coronel disse: ele é muito malcriado, mas comunista ele não é não. Mande ele aqui comigo amanhã. No dia seguinte eu procurei o Governador Guedes. Quando cheguei, ele mostrou-me uma pasta cheia de recortes de jornal, cartas anônimas e outros apontamentos a meu respeito, coisas que compunham o que podíamos chamar de meu dossiê. Ele pegou a pasta e disse: você vai trabalhar comigo e eu só espero que você não me dê motivos para acreditar no que tem nesta pasta e a colocou nas minhas mãos. Dei uma olhada rápida e a devolvi.

De subversivo a assessor do governador?

Eudes – Ele me encaminhou à Secretaria de Agricultura, onde eu trabalhei até a chegada do coronel Jorge Teixeira [sucessor de Guedes no governo]. Mas, antes disso, em 1978, uns dias antes da eleição, o coronel Guedes me chamou ao gabinete. Antes, porém, o apresentador do telejornal da TV Rondônia, Jorge Sarrafe dos Santos, entrou em férias, e fui convidado para substituí-lo, e dessa substituição eu não saí mais. Fiquei lá quase 12 anos. O coronel me chamou ao seu Gabinete e disse e que faria uma palestra na Universidade Federal de Goiânia sobre Rondônia – suas expectativas e oportunidades – e queria que eu o ajudasse nisso. Eu não sabia exatamente o que eu ia fazer, mas ele me explicou, deu-me uns textos e pediu-me que montasse a palestra com transparências no retroprojetor. Quando lhe mostrei o material acabado, ele gostou muito e disse que tinha pensado melhor e decidira que em alguns momentos eu participaria da exposição. Em alguns momentos eu falaria em “off”.

Fizemos alguns testes e fomos para Goiânia. A palestra foi um sucesso e um pessoal do Clube de Engenharia Rio de Janeiro que estava presente convidou o Governador Guedes para fazer a mesma palestra no Rio de Janeiro.  

Quinze dias depois estávamos no Rio de Janeiro fazendo a mesma palestra do mesmo jeito, com a minha participação em off e também foi um sucesso. Ele foi muito aplaudido. Nessas viagens eu trocava muitas ideias com o coronel e ele me perguntava muita coisa.

E sobre o que eram essas conversas?

Eudes – Quando ele soube que eu vivia aqui há muito tempo e que conhecia muita gente, começou a me fazer perguntas – na verdade checando algumas informações que ele detinha. Eu não tinha nenhuma necessidade de exagerar na verdade, nem de mentir dizendo o que não era verdadeiro. A cada coisa que ele me perguntava se era verdade eu confirmava, e se não era verdade, eu dizia que não era. Ao final dessas viagens, ele me convidou para todo dia ir ao palácio às 14h para gente conversar. Naquele tempo, tinha um horário de expediente da tarde que começava mais ou menos às 15h00 e, antes de ir pra secretaria de Agricultura, eu passava lá e a gente conversava de 30 a 40 minutos. Tinha dias que nem conversávamos e normalmente era para se informar de coisas que estavam acontecendo em Rondônia, qual era a versão que eu tinha e assim eu fui colaborando com ele.

O coronel Guedes era um militar político?

Eudes – Não, ele não era político. Mas acabou derrotando os políticos na eleição de 1978. Depois eu explico melhor este episódio.

E você já tinha alguma participação político partidária?

Eudes – Sim. Eu era filiado ao partido Arena (Aliança Renovadora Nacional). Representava Guajará-Mirim no Diretório Regional do Partido.

Coronel Carlos Augusto Godoy, militar de fronteira e homem do temido Serviço Nacional de Informações (SNI)

Explique a vitória do coronel governador sobre os políticos.

Eudes – Quando chegou a eleição de 1978, Odacir Soares montou uma chapa composta por ele, João Bento, Isaac Newton Pessoa e Francisco Teixeira. Não deu chance para a outra chapa formada pelo coronel Carlos Godoy, Leônidas Rachid e Assis Canuto. O coronel Guedes achava que essa chapa seria vencedora e cederia a quarta vaga para o Odacir, que era presidente da Arena e figurava na outra chapa.Houve a convenção e a chapa apoiada pelo governador foi derrotada. O governador Guedes, estimulado por algumas pessoas, resolveu apoiar o advogado Isaac Newton Pessoa, componente da Chapa encabeçada pelo Odacir. Isaac não tinha a menor possibilidade de ganhar a eleição, mas com o apoio de Guedes foi eleito deputado federal surpreendendo a todos inclusive a ele mesmo.

O senhor participou desse evento?

Eudes – Sim. Eu era convencional e tinha comigo mais 9 votos. Como eu tinha esses dez votos, atendi o apelo do coronel Guedes e votamos na chapa que ele apoiava. No dia da convenção, a chapa do Odacir ganhou por 21 a 10. Os dez que eu prometi ao governador eram dos convencionais de Guajará-Mirim e os 21 votos vencedores eram os que Odacir dominava na convenção.

Consta que o senhor foi fichado no SNI, isso é verdadeiro?

Eudes – Infelizmente é verdade. Vou tentar falar rapidamente sobre isto. Eu ainda morava em Guajará-Mirim em 1974, quando me insurgi contra a cobrança de uma taxa para caixa escolar obrigatória no valor de 30 cruzeiros [o salário mínimo era algo em torno de 100 cruzeiros]. Eu era diretor da Rondex, onde trabalhavam cerca de 500 pessoas contratadas diretamente para descascar castanhas – 98% mulheres e alguns homens. O trabalho de descascar castanha era feito manualmente. No começo do ano produtivo, a Rondex contratava muitas pessoas que, ao final do ciclo da produção da castanha eram demitidas e recontratadas no início do outono, aí pelo mês de março, abril. As pessoas nem estavam contratadas ainda e já pediam adiantamento de um hipotético empregador. Ocorreu-me de lhes perguntar por que estavam querendo adiantamento. E me explicaram que lá no Colégio Paulo Saldanha e no Colégio Rocha Leal só matriculavam os filhos se pagassem a taxa para caixa escolar. Mas isso era uma contribuição espontânea, não era e nem é uma taxa obrigatória.

O senhor insuflou estudantes dos colégios de Guajará-Mirim?

Eudes – Eu escrevia semanalmente no jornal O Imparcial [fundado por Emílio Santiago] uma coluna de notas e notícias. Escrevi a respeito daquela cobrança indevida, que no Rio de Janeiro também havia acontecido, e o então governador Chagas Freitas determinara a devolução do valor cobrado e a suspensão da cobrança. A diretora do colégio, dona Aliete Morhy, e a diretora do colégio Rocha Leal, dona Helena Ruiz, disseram que eu tinha pirado, que estava maluco, que não sabia o que dizia. Fiz uma carta ao então governador Teodorico Gahyva, em 1974, dizendo o que estava acontecendo, e alguns dias depois ele me mandou um “rádio”, dizendo que tinha tomado providências e determinado à direção das duas escolas o fim da cobrança e que devolvessem o valor cobrador, porque era indevido. Esperei uns três dias e não aconteceu nada, ninguém devolveu nada, apenas pararam de cobrar. Fui à escola à procura da diretora [à noite eu dava aula de moral e cívica e organização social e política do Brasil] e ela não estava. Falei com o vice-diretor, professor Salomão Silva, a quem eu disse que tinha recebido um “rádio” do governador e que eu queria comunicar aos alunos. Salomão autorizou-me e eu fui de sala em sala comunicando aos alunos. Ao final tinham várias dezenas de alunos atrás de mim gritando: “eu quero meus 30”. Por isso, fui considerado subversivo, teria sublevado os alunos.

E como soube que estava fichado no SNI?

Eudes – Eu ia passando ali onde funcionava o Meio Quilo Bar [esquina da Campos Sales com a Pinheiro Machado], entrei pra comprar cigarros, e encontrei-me com o Omar Morhy bebendo cerveja, sentado a uma mesinha na calçada. Nos cumprimentamos e iniciamos uma conversa, foi quando ele me disse que antes não gostava de mim, mas passou a gostar. E acrescentou: Só para você ter ideia do quanto eu não gostava de você, eu e Aliete denunciamos você como subversivo ao Godoy, e ele fichou você no SNI. Dona Aliete era comadre do coronel Godoy, comandante do Comando de Fronteira Acre e Rondônia [CFAR]. Ela disse a ele que tinha um comunista em Guajará que estava agitando e sublevando os alunos do colégio. Com essas informações ele fez uma carta ao SNI, me fichando como subversivo, e assim eu fui inscrito nos anais daquele órgão como subversivo. O Omar já tinha bebido um pouco a mais, já estava com a língua solta. Na hora, a vontade que eu tive foi a de dar um soco nele, porque eu sofri muito com aquilo. Aonde eu ia as portas estavam fechadas em função disso, até que o coronel Guedes teve a coragem de me contratar, apesar dessa ficha. Omar disse que estava arrependido e que iria falar com o Godoy [de quem era compadre] para ele limpar minha ficha no SNI, eu agradeci e despedi-me.

E o Omar Omar Morhy falou com o coronel Godoy?

Eudes – Ocorreu o seguinte: aproximava-se a convenção da Arena para escolha dos candidatos a deputado federal (1978) quando um dia o jornalista Jorge Santos foi à minha casa, disse que o coronel Godoy estava no Hotel Vitória e queria eu fosse lá conversar com ele. Eu disse que não iria, porque não queria conversa com ele. Eu continuava fichado no SNI e não tinha nada a tratar com ele, afinal ele havia prejudicado a minha vida. Meia hora depois, Godoy chega à minha casa, eu estava tão chateado que nem o convidei a entrar, e o atendi do lado de fora mesmo. O que o senhor deseja? – perguntei. Ele disse: eu sei que o senhor está muito insatisfeito comigo, e eu vim lhe dizer que eu vou fazer uma carta de próprio punho ao SNI dizendo que houve um equívoco grave meu e que você não é nada daquilo que em determinado momento no passado eu disse que era. Eu assenti que estava tudo bem, e ele continuou falando: você não precisa votar em mim na convenção. Passados uns três ou quatro dias, recebi um telefonema do Glaber Gamaz de Magalhães, responsável pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] em Rondônia, querendo se encontrar comigo. Mostrou-me um bilhete que tinha sido mandado pelo Godoy: diga ao Eudes que em Brasília já está tudo resolvido. A qualquer consulta será respondido que os “registros existentes não contraindicam”. Por favor, destrua esse bilhete. O Glaber entregou-me o bilhete para que eu o destruísse. Fumante, peguei o isqueiro e toquei fogo no bilhete. Hoje percebo que não deveria ter tocado fogo naquele documento, pois era uma peça histórica. Só agora vejo valor histórico nisto aí, mas eu fui decente com ele. Ele pediu para destruir, eu destruí.

Resolveu o seu problema?

Eudes – A partir daí os caminhos se abriram e as coisas começaram a melhorar.

O senhor já era afiliado ao partido?

Eudes – Eu já era afiliado a Arena.

De subversivo, você foi redimido e aceito na Arena?

Eudes – Eu já era membro da Arena quando fui fichado no SNI. Na verdade, naquele tempo quando se queria sacanear com alguém bastava dizer que esse alguém era comunista. Ninguém ia checar para ver se era ou não. Apenas colocava lá o carimbo e pronto. Era o coronel que mandava dizer e alguém ia duvidar do coronel? Não. E o coronel ia duvidar da comadre dele? Depois, ele viu que a comadre havia mentido, que estava cobrando, indevidamente, dinheiro dos alunos.

Como foi que nasceu a ideia do Guedes apoiar o Isaac para deputado federal?

Eudes – Eu fui a Guajará-Mirim, com o Desival Ribeiro e o Murilo Aguiar. Lá o Dezival me contou que o governador Guedes estava querendo apoiar um candidato do MDB. Eu disse: se ele apoiar, o cara vai ser o deputado. Argumentei que um governador da Arena não poderia apoiar um nome de outro partido.

Pedi ao Desival e ao Murilo que tentassem demover o Governador daquela ideia.Eu estava sempre com o governador, mas não tinha intimidade suficiente para chegar e tentar “fazer a cabeça” dele. Mas o Desival e o Murilo tinham uma amizade muito forte com ele. Pedi que eles apelassem para ele continuar com a gente.

Deputado Isaac Newton Pessoa, de Guajará-Mirim

Sugeri que o Isaac Newton era o nome ideal, uma pessoa que falava inglês fluente, era bacharel em Direito, gerente Banco do Brasil e tinha uma visão bem mais panorâmica de Rondônia do que qualquer um dos outros candidatos.

Desival teve dúvida?

Eudes – Ele perguntou: será? Mas onde a gente vai encontrar o Isaac, ninguém sabe onde ele está? E, prontamente, falei: eu encontro ele para vocês e, em seguida telefonei ao Chico Torres [empresário de Guajará-Mirim], de quem à época Isaac – então licenciado do Banco do Brasil – era consultor. Marquei um encontro no escritório do Chico, ele chamou o Isaac e fomos conversar. Falei do propósito nosso e ele aceitou o apoio de Guedes, e a condição de não renunciar ao mandato.

Isaac tinha o perfil de quem renuncia?

Eudes – Não! Mas o Odacir era amigo-irmão dele. O Isaac não era político; político era o Odacir. Por isto temíamos que uma vez eleito, o Isaac renunciasse em favor do Odacir. Que ele seria eleito, nós tínhamos certeza. Que o Odacir seria o 1º suplente, também. À noite, o Desival e o Murilo foram à casa do governador, era 13 de setembro, aniversário dele – por coincidência, mesmo dia do aniversário do Território Federal de Rondônia – e deram a notícia da conversa com o Isaac. O coronel Guedes gostou da ideia e mandou um avião ir buscar o Isaac. Conversaram e o Isaac passou a receber o apoio do Governador que foi fundamental para sua eleição. Ao voltar de uma viagem ao Rio com o Governador, procurei Odacir e disse: fiz campanha com você até ontem, mas agora vou ter de fazer campanha para o Isaac, porque o governador decidiu apoiá-lo. O Governador convidou-me para participar da campanha pro-Isaac e eu aceitei.

Senador Odacir Soares Rodrigues, que presidiu a Aliança Renovadora Nacional (Arena) em Rondônia, no final dos anos 1970

Ótimo! – disse o Odacir – porque aí a gente faz do Isaac 1º suplente. E eu disse: se você não tomar cuidado, o 1º suplente vai ser você. Ele disse: não pode, o Isaac ninguém conhece.

O resultado é que numa campanha de um pouco mais de 30 dias o Isaac sagrou-se vencedor e Odacir 1º suplente, como previra. No final do ano, sai de férias e quando voltei, no final de janeiro, o coronel Guedes me disse que estava de saída do governo.

Isso foi em que ano?

Eudes – Em janeiro de 1979, após a eleição da qual Isaac saiu vencedor. Conversei com o governador e ele disse que tinha se aborrecido, porque o ministro Andreazza [do Interior e dos Transportes] telefonou para ele: interessa-lhe continuar no Governo de Rondônia? E o governador disse não. Ele gostava do trabalho que estava fazendo, mas considerava essa pergunta deselegante. Se o Andreazza tivesse dito: eu quero que você continue governador, ele teria aceitado, mas como ele não fez isso, Guedes achou que aquela era uma maneira sutil de dizer vai embora. Então, veio o coronel Teixeira, que assumiu, salvo engano, dia 10 de abril de 1979. Eu fui o mestre de cerimônia dessa posse. Nessa época eu era sempre chamado para ser o mestre de cerimônia.

É o que o Lenilson faz hoje?

Eudes – Sim, o que o Lenilson faz hoje. Eu fazia, em função do meu trabalho na televisão.

Rondônia seria o que é hoje se o coronel Guedes tivesse dito sim para o ministro Andreazza?

Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, governador de Rondônia entre abril de 1979 e janeiro de 1982

Eudes – Você me põe entre a cruz e a espada. Vou responder por partes: primeiro, para que Teixeira fizesse o que fez, foi necessário todo o planejamento feito pelo coronel Guedes. Quando o governador Teixeira assumiu, o prato estava servido. Ele [Teixeirão] botou o tempero ao gosto dele. Posso dizer ainda que o coronel Guedes foi o grande arquiteto e o Teixeira o grande mestre de obra. Agora, eu não sei se o Guedes conseguiria continuar governador e executar os projetos que tinha elaborado. Ele era um homem que pensava mais, planejava mais. Teixeirão era mais de executar. No meu entendimento, Guedes não conseguiria fazer o que Teixeira fez no tempo disponível, talvez precisasse de um tempo maior.

E o senhor ficou no governo…

Quem me apresentou ao Teixeira – e eu só vim saber disso dois anos depois – foi o coronel Guedes, que deixou uma carta recomendando-lhe alguns nomes para alguns cargos. E eu posso reproduzir aqui: ele indicava Badocha para continuar na Secretaria de Educação; indicava Canuto (Assis) para ser prefeito de Ji-Paraná; indicava Bader Massud para ser prefeito de Guajará-Mirim [nessa época, os prefeitos eram nomeados]; indicava a mim para ser diretor administrativo-financeiro da Caerd e, finalmente, dizia que o Teixeirão deveria substituir o doutor José Mario Alves na Secretaria de Segurança por qualquer pessoa. Não sei o porquê dessa observação. Eu tomei conhecimento disso no dia que o Teixeirão me deu pra ler essa carta, porque eles haviam brigado feio por causa de uma fofoca tremenda que envolveu até o então governador de Roraima.

Que era o outro coronel?

Eudes – O governador de Roraima era o brigadeiro Ottomar Souza Pinto, que iria contratar o filho do coronel Guedes para ser presidente da Companhia de Desenvolvimento de Roraima, e uma pessoa, que eu não vou revelar o nome aqui, encontrou o prefeito de Boa Vista, um capitão da Aeronáutica e disse para eles terem cuidado com esse menino [o filho do coronel Guedes, Luiz César Auvray Guedes], porque ele era ‘muito ligeiro’. Por conta disso, Ottomar ligou para Teixeira pedindo informações sobre o rapaz e por acaso, eu e dona Conceição Teixeira [falecida em fevereiro de 2017] estávamos no gabinete do Teixeirão quando ele atendeu o telefone e disse: é um menino muito inteligente, mas tem que colocar freio ‘bridão’ nele, pois ele é muito atirado. Com isso, mais a informação que essa determinada pessoa tinha dado ao Prefeito de Boa Vista, Ottomar desistiu de nomear Luiz César, que estava pronto para ir para Roraima, mas foi desconvidado. Depois fizeram a sacanagem de dizer ao coronel Guedes que foi Teixeirão quem vetara a nomeação. Por coincidências do destino, eu e a dona Conceição estávamos no gabinete novamente, quando alguém telefonou para o coronel Teixeira e disse que ele não tinha o direito de fazer o que tinha feito, de falar mal do filho dele.

Teixeira repetiu a frase que tinha dito para Ottomar. Do outro lado da linha, o coronel Guedes disse que o filho dele não era cavalo para usar freio bridão – freio bridão é parte do arreio de cabeça, aquele que fica dentro da boca do cavalo e quando puxa ele empurra o céu da boca para cima.

Brigadeiro Ottomar Souza Pinto, governador de Roraima entre abril de 1979 e abril de 1983

Eu pude testemunhar esses dois momentos e um dia, na casa do governador Teixeira, quando ele disse que novamente houve discussão entre ele e Guedes: nós fomos colegas de academia, nós estudamos juntos em Fortaleza e não podia estar havendo isso. Tudo o que Guedes me pediu eu fiz, leia essa carta. Foi quando ele me deu a carta e eu li, e foi assim que eu entrei na vida do Teixeira e fiquei até o último dia. Tive a tristeza de participar do sepultamento dele, porque, coincidentemente, cheguei no dia 28 de janeiro ao Rio, quando ele morreu. Assisti ao sepultamento dele, dia 29 de Janeiro. Nesse meio tempo, fui suplente de senador.

Nunca foi candidato direto?

Eudes – Não, eu fui candidatado a vereador em Guajará-Mirim em 1976 fiquei como 1º suplente da Arena. Depois fui chamado para assumir e não assumi. Não me interessava voltar para Guajará. Antônio Luiz de Macedo é que assumiu, e eu fiquei aqui por Porto Velho. Sempre tive vida política partidária, mas não como candidato, a não ser essa, e depois, em 1982, quando saí a convite do Willian [Cury]candidato a deputado estadual. No meio do caminho isso foi alterado, e me colocaram candidato a 1º suplente do senador Odacir Soares. Aí eu fiquei então como suplente do Odacir durante oito anos.

Nunca assumiu?

Eudes – Nunca assumi. Outro dia eu dava entrevista ao Dadá dos Santos, na rádio 93, e ele indagava: Odacir nunca te deu chance? E eu disse: ele não tinha que me dar chance. Eu fui eleito 1º suplente, e qual é a função? Assumir a cadeira de senador no impedimento do titular. Como não houve nenhum impedimento do titular, eu não tinha porque assumir, nem Odacir tinha esse compromisso comigo, então eu cumpri os oito anos e foi tudo muito bem. Depois fui candidato a deputado estadual.

Fiquei como 2º suplente, depois deputado federal, não fui eleito a nada, mas fui o candidato do meu partido, o mais votado em Porto Velho e o 3º mais votado no estado. Tive 10% de votos do meu do candidato a governador. Quem teve essa performance em outros partidos se elegeu deputado federal.

O senhor é um profissional conceituado, apresentador de televisão, e era tido por algumas pessoas como “agente da ditadura”. Como é que lá com os agentes da ditadura, de fato, o senhor era tido como subversivo?

Eudes – Primeiro, eu fui dito como um homem de esquerda, subversivo porque eu atrapalhei os interesses particulares das professoras de Guajará-Mirim, aí eu fui fichado como homem de esquerda no SNI.

Houve alguma participação sua em algum movimento?

Eudes – Não, enquanto eu morei no Rio de Janeiro eu fui secretário geral da União Nacional dos Estudantes Técnicos Industriais. Fui aluno da Escola Técnica Federal do Rio de Janeiro, e lá eu pertenci ao Grêmio, e do grêmio fui eleito secretário geral da União Nacional dos Estudantes Técnicos Industriais (Uneti). Em 1966 eu passei a secretaria-geral a outro que foi eleito. Naquele tempo, todos os estudantes eram tidos como esquerdistas, mas eu nunca tive nenhuma atividade propriamente dita, e essa história de agente da ditadura é porque depois, quando um agente da ditadura se arrependeu de ter me denunciado com informação falsa, eu passei a gozar de um prestígio diferenciado, eu tinha prestígio porque tinha palavra, porque eu não mentia, eu conversava olhando dentro dos olhos. Tem muito cara que se pinta e diz que foi perseguido, se alguém foi perseguido pela ditadura fui eu, que cheguei a ser fichado e impedido no Correio e na Embratel, e tem gente lá que testemunhou isso. Não estou atrás daquela indenização milionária que estavam dando.

O senhor não se sentiu no direito de correr atrás do Bolsa Ditadura?

Eudes – Não, porque primeiro eu gozava de plena saúde, tinha meu trabalho, meu emprego. Na época que esse negócio surgiu, no governo do PT, eu já tinha emissora de rádio que ganhei não com favores políticos, mas numa concorrência pública regida pela Lei 8666, ao contrário de todos os outros que têm emissora de rádio conseguidas em Rondônia antes de mim, e do Everton Leoni e de todo mundo, de 1998 pra cá. Todo mundo que tem rádio antes de 1999 foi por arranjo, porque era deputado, senador, amigo de fulano ou amigo de ciclano. Eu não, entrei numa concorrência e ganhei, da maneira como Everton Leoni entrou e ganhou. Naturalmente, alguns colegas nossos tangidos pela inveja, que é comum na espécie humana, me colocaram esse epíteto de agente da ditadura, mas eles esquecem que eu não era só jornalista; eu era jornalista e economista, e foi por conta de ser economista que eu fui diretor da Caerd e diretor do Beron.

 Chegou a presidir o Beron?

 Eudes – Não. Eu fui o primeiro diretor financeiro do Beron, mais tarde fui presidente da Teleron. Quando assumi a presidência dessa empresa, cheguei lá na porta para assinar o termo de posse, tinha um carro de som do Sinttel [Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações de Rondônia], dizendo que era um absurdo um locutor de televisão assumindo a presidência da empresa.

Quando?

Eudes – Exatamente em 15 de março de 1990. Oswaldo Piana Filho tomava posse no governo, e eu, na Teleron. Então, eu não fui chefe da casa Civil do Teixeira, eu não fui diretor do banco, não fui diretor da Cohab, não ocupei cargo de secretário de administração porque eu era jornalista; fui porque era economista. Mas os coleguinhas limitados diziam: porque que esse cara é jornalista e está lá, por que eu não? Por que você é jornalista, mas não é economista. Por isso aí.

Exercendo todos esses cargos, o senhor se considera um homem rico?

 Eudes – Sou muito rico, muito rico de paz e tranquilidade. Consigo me deitar entre 22h e 23h, e dormir bem, porque nunca me apropriei de nenhum centavo sequer de qualquer coisa. A única vez que eu tive problemas foi quando toda a mídia de Rondônia teve problemas. Era o Governo Raupp, se não me engano, e você era o secretário de comunicação. Via Nortebras, você nos pagou a todos.

O governo pagou a Nortebras, e ela pagou toda a mídia de Rondônia da época. Quando digo toda, é 101%, tanto que foi tão condenada, que uma das penas não foi aplicada: a proibição de contratação dos nossos trabalhos com o governo, porque se não o governo não tinha como anunciar nada, imagina a amplitude da coisa.  

Então, me parece que toda a mídia estava certa, mesmo assim, foi punida. Ao final eu fui condenado a devolver o dinheiro que recebi pelo serviço que prestei, então o governo se locupletou com o meu serviço e talvez, até hoje, uma ou duas empresas tenham devolvido esse dinheiro que foi cobrado de nós.

O senhor devolveu?

Eudes – Eu devolvi, por isso digo que eu não tenho nenhum centavo de poder público.

O cidadão pobre assume hoje mandato de vereador, de deputado estadual, e quatro anos depois é um cidadão rico cheio de posses, qual é a mágica?

Eudes – É porque o Ministério Público e o Tribunal de Constas fazem que não vêem, os poderes executivo e judiciário seguem na mesma direção, há uma acomodação. E eu sempre falo isso com autoridade de quem já foi denunciado pelo MP, e provei que ele estava errado, e a sentença do juiz foi me absorvendo, porque o crime que eu cometi foi cumprir uma obrigação que me foi imposta pelo MP, que depois me acusou de ter feito aquilo que ele me mandou fazer. Então, veja o quão despreparado era ou é ainda o MP do Estado de Rondônia.

Com a deputada e radialista Rita Furtado, que se elegeu por Rondônia depois de fazer carreira na Rádio Nacional em Brasília

Por isso, o seu programa que está no ar há quase 20 anos se chama Falando a Verdade?

Eudes – É, eu falo a verdade e nunca fui processado.

E nunca foi contraditado no ar?

 Eudes – Como vou ser contraditado se eu só falo a verdade?

E o que é a verdade?

Eudes – Tudo o que é incontestável. Se é verdade, você não contesta.

Como analisa a comunicação em Rondônia de 30 anos atrás, e atualmente, essas maravilhas eletrônicas, a exemplo do Iphone, transformando áudio em textos?

Eudes – Isso é maravilhoso, se alguém há 30 anos dissesse que isso aconteceria, seria internado no primeiro manicômio, tínhamos o telex. Quando eu trabalhei na Tribuna da Imprensa, havia o teletipo que era o pai do telex. A diferença é o meio de transmissão: com o telex, a transmissão se dava por meio de linha telefônica, com o teletipo se dava via ondas de rádio, ondas curtas. Então, naquele jornal, o noticiário da Agência France Press vinha da França para Buenos Aires, e de lá para o Brasil. Quando a notícia chegava à capital argentina, era vertida para o espanhol, e no Brasil, em São Paulo, para o português. Funcionavam até 22h em português, até zero em espanhol, e dali até 6h, em francês. Das 6h da manhã até 10h voltava a ser em espanhol, e dali até 22h voltava ao português. Aprendi um pouquinho espanhol e um pouco de francês lendo notícias no teletipo.

De que maneira analisa a formação dos novos profissionais no mercado atual?

Eudes – Os primeiros professores não tinham experiência acadêmica de jornalismo, mas do batente. Eu nunca cursei jornalismo, até penso na ideia de voltar a estudar para me atualizar com algumas coisas. Sou dinossauro, do tempo clichê, porém, entendo que para melhor desempenhar sua condição de jornalista, o profissional deve aprender bem a ler e a escrever. Há meninos que hoje saem da escola do 2º grau e pouco sabem. O curso de comunicação é mais uma oportunidade que ele tem para aprender a ler e escrever, interpretar texto, e isso é fundamental: reproduzir uma história que ele viu, ouviu, transformando-a no texto.

O senhor fundou pelo menos um ramo da Maçonaria?

Eudes – Você sabe e todo maçom sabe que nós temos dois segmentos maçônicos reconhecidos no Brasil: o Grande Oriente e a Grande Loja. Eu me iniciei na Grande Loja, então do Amazonas em Guajará-Mirim e só existia a loja Fé e Confiança em Rondônia. O governador Teixeira era maçom, o Zé Renato também, entre outros da Grande Loja do Amazonas, e um dia, conversando, ele soube que eu era maçom e e eu soube que ele também era. O Teixeirão perguntou por que a gente não monta a Grande Loja de Rondônia? Então, numa sala da Caerd, eu, Cirilo Neves, Eneas Frota, Roque Louise, Adelino Gurgel, Reginaldo Vasconcellos e o médico Milton fizemos a primeira reunião, e lá é que veio e nasceu o nome Estrela Renascente.

José Renato da Frota Uchôa, secretário de planejamento no Governo Jorge Teixeira. Era super-poderoso na época.

Ideia sua, foi isso?

Eudes – Sim, e aparece nos anais da história como sendo do Enéas Frota, porque ele formalizou a entrega da ideia. Nós tínhamos conhecimento que muito tempo atrás, talvez no tempo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, antes de existir o Território de Rondônia, teria havido aqui uma grande loja trazida pelo pessoal de Barbados e que tinha batido colunas [loja fechou]. Diante disso, e como naquele momento Rondônia chegava a Estado, tendo uma nova estrela no azul da União [slogan], ocorreu-me a ideia de colocar o nome de Estrela Renascente, porque a Grande Loja estaria renascendo. Participei da fundação, ela foi a segunda loja da Grande Loja em Rondônia. Aliás, tive a oportunidade de ser homenageado pela Grande Loja em 2015 como um dos fundadores aqui, e aquilo me emocionou demais. Mais honrado eu fiquei quando soube que você foi partícipe da lembrança, então eu sou muito grato a você e ao nosso irmão Juscelino Amaral.

O senhor foi diretor da Caerd de 1979 a 1982. Como pode uma empresa que vende água com abundância, hoje se depara com situação falimentar, acumulando mais de 1 bilhão de reais de débitos?

Eudes – O nome disso chama-se incompetência, que redunda em falta de gestão. Assumi a Caerd como diretor financeiro em maio de 1979. A Caerd tinha dez anos de existência e 60 quilômetros de rede d’água em Porto Velho, 15 em Ji-Paraná e 10 Km em Guajará-Mirim. Saí da empresa, já como presidente em fevereiro de 1982 e deixei Porto Velho com 180 quilômetros de rede d’água em três anos. Em três anos eu fiz mais do que foi feito em dez. Em Ji-Paraná, que assumi com 15 Km, deixei 25, Guajará-Mirim tinha 10, deixei com 20. Eram obras financiadas pelo BNH [Banco Nacional da Habitação]. A Caerd não ficou devendo nada, e no final de 1981 o balanço consignava lucro, que foi dividido com funcionários da empresa. Estava previsto no estatuto. Embora o lucro não fosse o objetivo, ela teve gestão. Você tem o monopólio de um bem insubstituível: água é água. Foi em nossa administração que a Caerd começou a distribuir água com flúor na rede. Porto Velho foi a primeira Capital do País a fluoretar a água distribuída. Nem a Sabesp (em São Paulo) fazia isso, mas nós fizemos. Eu não fiz nada demais, tinha o equipamento lá e eu coloquei pra funcionar.

O senhor era o indicado pra assumir o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas em 1986-1987, e foi preterido por questão partidária. O PMDB entrou no meio, e o indicado foi o advogado e jornalista Rochilmer Mello Rocha. É verdade essa história?

Eudes – Não é verdade. O doutor Rochilmer foi indicado pelo governador Jerônimo. Eu não estava nesta “parada”.Quando o Tribunal de Contas foi criado meu nome chegou a ser lembrado pelo governador Teixeira (segundo ele mesmo), mas alguém disse que eu não tinha idade para assumir.

O senhor seria indicado a essa vaga, já se cogitava que, lá atrás, você entraria no lugar de Zé Renato?

Eudes – O governador Teixeira chegou a me prometer a vaga do Zé Renato, quando ele se aposentasse. Mas quando o Zé se aposentou o Teixeirão já não estava mais aqui. Ele já havia morrido.

Algo a acrescentar?

Eudes – Eu lhe agradeço muito pela oportunidade de contar um pouco da história da qual também fui personagem. Agradeço a minha família por ter me dado condições de continuar a minha caminhada. Muito obrigado meu irmão.

CARLOS ARAÚJO

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