CARLOS ARAÚJO –
Sob o olhar daqueles que só veem defeito nos 20 anos em que os militares mandaram no Brasil, o empresário Rômulo Furtado seria um ‘filhote da ditadura’, mas, ao deter-se mais a fundo em sua história de vida, descobre-se um homem cordato, consciente da sua colaboração ao governo dos militares e, desde muito cedo, antenado com o futuro do Brasil e, especialmente, o futuro de Rondônia. Secretário-geral do Ministério das Comunicações nos governos de Geisel, Figueiredo e Sarney, Rômulo acompanhou a distribuição de concessões de canais de Tvs e emissoras de rádios para todo o Brasil. Muitas delas, para políticos influentes.

Ele mesmo, com apoio de sua então esposa, a deputada federal por Rondônia, Rita Furtado, angariou várias concessões de rádio e TV em Rondônia e, em meados dos anos 1980 montou o Grupo Rondovisão, com retransmissoras de TV e emissoras de rádio em Porto Velho, Ariquemes, Ouro Preto, Ji-Paraná, Pimenta Bueno, Cacoal, Rolim de Moura, Vilhena e Colorado. Hoje suas emissoras retransmitem a programação da tV Bandeirantes e do SBT e produzem programas jornalísticos locais.

O senhor e a deputada Rita usaram a influência política em Brasília para conseguir as concessões de rádio e TV? “Vou explicar a você exatamente como se procedia. Aqui no estado alguns políticos receberam outorga. Um exemplo é o ex-senador Odacir Soares e outros deputados da época, quando surgiram os editais que foram abertos aqui a pedido não só da Rita, mas de outras pessoas. Quando esses editais foram postos na praça, as empresas se qualificaram e o ministério analisou como sempre analisa e nem era no meu setor. O ministério analisou as qualificações das empresas, se elas atendiam aos requisitos e dizia se essas empresas estavam qualificadas. Aí vinham os apoios e é claro que aparecia Rita Furtado como apoiadora. Quero dizer que não foi influência minha no ministério. Foi o critério que se usava a época. O critério em que o presidente da República dá a quem ele quiser, dentre as empresas qualificadas. Se entre as empresas qualificadas existissem uma ou mais emissoras apoiadas por correligionários, o governo atende. Minha participação nisso foi lateral, mas dentro do que a legislação mandava”.

Nesta Entrevista da Semana, Rômulo fala de sua relação com os governos militares, com o estado de Rondônia, como conheceu sua primeira esposa, a radialista e ex-deputada federal Rita Furtado e de sua expectativa quanto ao futuro de Rondônia. “Completo 80 anos em janeiro próximo, já resolvi a sucessão das empresas entre minhas duas filhas e me sinto realizado com o trabalho que realizei pelo Brasil e por Rondônia”, afirma, com tranquilidade este capixaba da pequena Alfredo Chaves, mas que logo cedo escolheu cursar o colégio militar no Rio de Janeiro, depois foi para o renomado ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica), formou-se engenheiro de comunicação e fez carreira no serviço público federal.

Expressão – Quem é Rômulo Furtado?

Rômulo – Sou capixaba, nasci no interior do estado, numa pequena cidade chamada Alfredo Chaves.  Fui interno no colégio militar do Rio de Janeiro, depois fiz exame de admissão para o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos. Estudei lá cinco anos engenharia eletrônica e de telecomunicações, vindo a me formar em engenharia eletrônica em 1961. Dali fui para minha vida profissional, fui para o Estados Unidos junto com um grupo de mais três engenheiros para acompanhar o projeto de fabricação da prima da primeira estação de comunicação por satélite em 1962. Nós a trouxemos para o Brasil ainda sob o regime militar, mas negociando tecnologia com uma empresa privada, a ITT. Montamos em Jacarepaguá e fizemos dez comunicações experimentais. Desde então, as comunicações se desenvolveram. Então, dessa estação de satélites eu fui trabalhar numa fábrica de equipamentos de telecomunicações Standard Elétrica, depois fui para o Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel) e depois passei ao  Ministério das Comunicações, vindo a sair em 1980. Em 1974, ainda no ministério, eu assumi a secretaria geral e fiquei por três governos: Geisel, Figueiredo e Sarney. Depois deixei o governo e passei a ser empresário, voltei a vida privada.

Expressão – O que levou o senhor a ir para o Ministério das Comunicações foi sua formação como engenheiro de comunicações?

Rômulo – Eu me formei em engenharia eletrônica no ITA, com orientação do setor de telecomunicações. Saí do ITA e fui para os Estados Unidos, contratado por uma empresa que fazia comunicações no Brasil. Entrei na área de comunicações, fui para os EUA acompanhar o desenvolvimento do satélite e trouxe essa estação de satélite. Junto com mais três engenheiros, instalamos e operamos. O meu encaminhamento, desta forma, para a área de comunicações e telecomunicações foi natural, não só pela minha formação, mas, também, em função da minha primeira atuação profissional no setor. Terminada essa operação com satélite que durou uns três anos, mais ou menos, fui para fábrica de equipamentos de telecomunicações e de lá fui convidado a compor o antigo Conselho Nacional de Telecomunicações, um precursor do Ministério das Comunicações.

Expressão – Ser secretário executivo de algum Ministério naquela época era ser muito poderoso?

Rômulo – Sim.

Expressão – Era praticamente um vice-ministro?

Rômulo – Era de fato vice-ministro, porque era o substituto do ministro e é quem cuidava da parte executiva do ministério. Isso dava um nível de responsabilidade muito grande, mas, até hoje, o secretário-geral dos ministérios tem uma responsabilidade muito grande. Naquele tempo as secretarias gerais eram sempre ocupadas por profissionais.

Expressão – Não havia indicação política?

Rômulo – Não havia indicação política, porque nos regimes militares o ministro era também uma pessoa com formação na área. Eram, em geral, pessoas que tinham capacitação naquela área de atuação. Por exemplo: os meus ministros militares eram todos engenheiros de telecomunicações, eram pessoas da área. Então, o ministro e o secretário-geral eram profissionais da área. Na maioria dos ministérios isso acontecia.

Expressão – O senhor acredita que essa qualificação que os militares exigiam na hora de escolher os ministros é o que faz a diferença em relação aos dias atuais?

Rômulo – Isso faz toda a diferença na minha maneira de ver. Primeiro, eu não fiquei três governos militares. Fiquei dois governos militares e um civil que é o governo do Sarney. Então exatamente nos governos militares eu via o preenchimento das empresas públicas, dos ministérios por profissionais qualificados das diferentes áreas. Já quando entrou o governo Sarney, eu comecei a ver a mudança em que o preenchimento de caros públicos passou a ter a influência política

Expressão – O critério passou a ser mais político que técnico?

Rômulo – O critério mais político que técnico e isso daí eu acho que foi uma transformação muito negativa para o desenvolvimento nacional, porque você passou a negociar politicamente – como a gente tem visto – as funções públicas. Isso tem levado o país a crises ou a viver períodos de grande dificuldade econômica, porque as políticas nem sempre são adequadas. Por uma questão de justiça, no governo Itamar e Fernando Henrique eles tiveram um foco muito profissional nesse perfil e, sobretudo na área econômica. Tanto é que foi com Fernando Henrique ministro da fazenda e o Itamar Franco presidente, que o Brasil teve uma equipe econômica altamente qualificada e profissional. Foram eles que conseguiram conceber o plano real e você sabe que foi quase milagroso o que aconteceu; nós estávamos numa hiperinflação e ela desceu para níveis de 3% a 4% naquela época. Acredito que houve uma mudança muito grande. Depois vieram esses governos de ideologia de esquerda. O primeiro governo Lula ainda seguiu muito a receita e a forma de atuação do governo Fernando Henrique, mas eu acho que já no segundo governo Lula isso começou a ser transformado. O governo Dilma foi trágico.

Expressão – Em que momento o senhor conheceu a Rita Furtado?

Rômulo – A Rita foi minha primeira esposa. Eu a conheci a em 1963 e começamos a conviver e em 1968. Casamo-nos e formamos família.

Expressão – Ela era estudante a época?

Rômulo – Na época que eu a conheci ela já tinha se formado em letras na Universidade Federal do Brasil, que era a Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde hoje é o Fundão. Ela já era profissional, já trabalhava, então eu a conheci já na vida profissional dela.

Expressão – E o senhor ficou casado com ela quantos anos?

Rômulo – De convívio e casamento nós tivemos de 1963 até 1990.

Expressão – Desse casamento foram quantos filhos?

Rômulo – Foram dois filhos, a Luciana e a Adriana.

Expressão – A Luciana é quem comanda as empresas em Rondônia. E a Adriana?

Rômulo – A Adriana também ajuda, cuida mais do Sistema Meridional de Comunicações (Band) e a Luciana cuida mais da TV Allamanda (SBT), mas as duas atuam. Agora, a Luciana é quem está em caráter permanente.

Expressão – O senhor acompanha Rondônia desde os tempos do regime militar. Poderia fazer um breve balanço daquela época em que Rondônia entrou na sua vida?

Rômulo – É uma coisa muito interessante, eu estava no ministério e recebo a visita de um prefeito de uma cidade do interior de Rondônia, Ariquemes. E Rondônia não estava muito no meu radar. Então, conversei com ele e ele estava desejando uma rádio em sua cidade. Eu orientei tudo que precisava orientar para ele e, finalmente, a rádio foi pra ele mesmo. E ele me disse: quando for a Rondônia não esqueça que eu quero receber a sua visita lá em Ariquemes.

Expressão – Esse prefeito era o Gentil Valério?

Rômulo – Não, era o Francisco Sales e eu disse: eu vou te visitar então. Não muito tempo depois, eu vim para cá (já era o Teixeirão o governador, que algumas vezes me visitou no ministério). Disse ao Teixeira que eu tinha vontade de dar um telefonema para o prefeito de Ariquemes para lhe dizer que estava aqui, pois ele me convidou para visitar e eu quero dizer que não dá. Aí, o Teixeirão falou: você quer ir lá? Eu mando o avião te levar. Falei que iria então. Ligaram para o prefeito e falaram que eu ia visita-lo. Ficaram lá me esperando. Peguei o avião eu e o piloto, voando em cima da mata e, de repente, vejo um rasgo no meio da selva, um rasgo de terra e o cara desceu a aeronave, pousou/taxiou e abriu a porta para eu descer. Só havia um coreto como ponto de apoio. O piloto fechou a porta do avião e decolou. Fiquei sozinho no meio da floresta, no fim da tarde sem ninguém. Ai eu falei: meu Deus do céu como é que vou fazer, não sei onde estou e não sei para onde eu vou, não tem comunicação com ninguém. Passado uns 10 minutos vejo carros chegando. Era o prefeito e mais gente chegando ao campo de pouso. O que eu não percebi é que o piloto, quando foi chegando a Ariquemes, ele passou em cima da cidade e deu um sinal. Então o pessoal se aprontou, mas eu não sabia disso e nem percebi. Foi aí que eu visitei a rádio. Então, Rondônia entrou no meu radar dessa forma.

Expressão – Isso era o que? 1978 mais ou menos?

Rômulo – Não, ainda era o período do Geisel, 1976 por aí.

Expressão – Porque eu conheci o Sales em Ouro Preto ainda distrito. Depois, ele veio para Ariquemes e foi nomeado primeiro administrador.

Rômulo – Quando é que ele veio pra Ariquemes?

Expressão – Eu acho que em 1977 ou 1978…

Rômulo – Deve ter sido por ai, eu não me lembro bem essa data, mas ai havia uma coisa interessante: nessa época a Rita, minha mulher, dirigia a programação para a Amazônia, da Rádio Nacional, com ondas curtas e ela tinha uma programação muito rica e muito atraente com o pessoal. Ela recebia muitas cartas pedindo orientações sobre saúde, direito da família e dicas de necessidades básicas. E ela não só atendia essas casas como convidava muitos especialistas ou pessoas da área para dar explicações sobre esses temas. Como essas ondas curtas da nacional atingiam uma grande parte da Amazônia os políticos da região, o Maranhão dos Sarney, Pará, Amazonas, Acre, Rondônia iam muito nesse programa da Rita para ser entrevistado. A Rita ficou muito conhecida nessa região. Uma vez presidente da Arena, Sarney falou: Rita nós não temos mulheres no nosso quadro, você não quer ser candidata por algum estado? Ela falou comigo e eu disse: claro que sim, você deve aceitar esse convite. Sarney tinha pedido para ela escolher um estado, porque ela era bem vista em toda a Amazônia. E ela escolheu Rondônia, pois era de onde ela recebia o maior número de cartas. Ela se elegeu e aí o nosso vínculo com Rondônia foi se fortalecendo.

Expressão – Lembro-me que naquela época era um trio: Edelson Moura, Rita Furtado e Márcia Ferreira. Era sucesso absoluto…

Rômulo – Era uma coisa impressionante esse trio. E, durante a campanha política da Rita, fez muito shows.

Expressão – Foi esse calor do povo rondoniense que fez o senhor escolher Rondônia para montar suas empresas?

Rômulo – Exatamente. Acredito que eu me senti logo muito próximo do Estado, como a Rita também. Até mesmo por ser representante e havia um desejo e necessidade de comunicação com as comunidades. A primeira coisa que sugeri a Rita foi que a prestasse um bom serviço ao público, sem nenhum rendimento. Pensei: nada é fácil, mas temos a possibilidade de colocar retransmissoras de TV nessas em várias localidades. Na época, a retransmissora de TV não exigia licitação. Bastava que a parte interessada fizesse um requerimento, porque, na verdade, retransmissora de TV era capturar o sinal do satélite e colocar no ar. Isso, sem previsão de nenhuma receita, era um ônus para quem desejasse fazer. Mas eu disse: Rita vale a pena, porque isso não é uma coisa cara. É uma coisa barata de fazer e você pode com isso fazer um atendimento muito bom ao público. E assim foi feito. Em primeiro lugar, nós colocamos três retransmissoras em cada uma dessas grandes cidades da rota foi aqui em Porto Velho, Ariquemes Ouro Preto, Ji-Paraná Rolim de Moura, Cacoal, Pimenta Bueno, Vilhena e Colorado. Depois das retransmissoras, foram colocados estúdios para fazer uma programação local noticiosa e tudo isso também autorizado pela legislação.

Expressão – Aí já exige um pouco mais de investimento

Rômulo – Isso já exigia um pouco mais de investimento, mas esse foi o começo da rede do nosso Sistema Rondonvisão de Comunicação.

Expressão – Em 1982, com a eleição da sua esposa, Rita Furtado para representar o recém-criado estado na Câmara dos Deputados o senhor se aproximou ainda mais de Rondônia. Como o senhor avalia esse relacionamento?

Rômulo – Basicamente foi isso mesmo. Nosso relacionamento se estreitou muito quando a Rita se tornou deputada federal e nós começamos a investir aqui. Modestamente, porque a retransmissora é um negócio barato não é uma coisa cara.

Expressão – Ainda em 1982 os rondonienses puderam assistir à copa do mundo ao vivo e diz a história que o senhor, como secretário-geral do Ministério das Comunicações, teria negociado com o governador Jorge Teixeira a vaga da sua esposa Rita Furtado e, em contrapartida, liberaria o sinal da Copa do Mundo pela televisão para Rondônia. Tem algum fundo de verdade nisso?

Rômulo – Nenhum fundo de verdade nisso, até porque quando veio a Copa do Mundo, já em 1974 era transmitida por satélite.

Expressão – Em 1978 Rondônia assistia aos jogos um dia depois, pelo sinal da Embratel.

Rômulo – Pois é. Mais ainda porque não estavam instaladas, por exemplo, a Globo, mas não me lembro se já transmitia ao vivo para Rondônia. Já em 1982 a Globo já transmitia. A Embratel entregava o sinal para as grandes redes e as grandes redes colocava no ar, isso daí independentemente de qualquer tipo de negociação desse tipo. Não tem nada ver com isso. Na verdade, quem escolheu Rondônia para a Rita Furtado ser candidata foi o presidente da Arena, que era o José Sarne. Ele que teve a ideia de que a Rita viesse a ser candidata a deputada por algum estado da Amazônia e ela escolheu Rondônia.

Expressão – Ela se elegeu a primeira vez na eleição de 1982?

Rômulo – Sim, eleições de 1982.

Expressão – Já era PDS?

Rômulo – Já era PDS nessa época. Mais não teve esse problema da gente negociar, esse sinal estava disponível.

Expressão – Está no campo da estória?

Rômulo – Está no campo da estória. Não tem nada a ver.

Expressão – Como foi a passagem em que o senhor, secretário-geral do Ministério das Comunicações, que tinha como titular Haroldo Corrêa de Mattos, promoveu uma reconciliação dele com o então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães?

Rômulo – Não foi propriamente um visitante e nem era um inimigo, mas era o seguinte: houve um pequeno atrito entre meu ministro Haroldo Corrêa de Mattos e Antônio Carlos Magalhães. Eles haviam tido uma desavença por um assunto que eu já não me lembro mas, eu acho que o Haroldo deu apoio ao Luiz Viana Filho que era inimigo do Antônio Carlos, eu não me lembro direito. E o Antônio Carlos e eu, por razões até de conhecimento muito antigo, éramos padrinhos da filha de meu concunhado. Então, de vez em quando ele me visitava no ministério, ele ia ao meu gabinete me visitar e não no do ministro. E na minha mesa no ministério havia sido instalado, em caráter experimental, um sistema de vídeo fone. Era uma tela com um sistema que eu teclava e o ministro aparecia pra mim e eu aparecia para ele a gente conversava. Um dia, eu tive a ideia, pois Antônio Carlos estava me visitando e eu falei: ministro queria lhe mostrar uma novidade que o senhor não conhece que é o vídeo fone, por favor, senta aqui na minha cadeira, eu vou ligar o vídeo fone. Eu liguei e atende o Haroldo e vendo do lá o Antônio Carlos, eles tiveram que conversar. Então, o Antônio Carlos e Haroldo tiveram que conversar, pois eles estavam de mal. Eles entenderam e deu tudo certo. Eu não sei como é que vocês souberam dessa história.

Expressão – O governo militar usavam as concessões de radio e TV para cooptar adversários ou para agradar os aliados?

Rômulo – Sempre foi assim, ao longo de toda nossa história. Porque a lei que regulava sobre todo o setor de comunicação seja ela comunicação publica, telefônica ou telex como também a parte de radiodifusão estabelecia a forma de outorga. E a forma era a seguinte: uma pessoa jurídica dizia que gostaria de ter um canal em determinada cidade. O Ministério abria uma licitação naquela cidade mas essa licitação na verdade era um edital de qualificação, não era um licitação no sentido de quem dava mais como é hoje. Naquela época abria um edital de qualificação em que as empresas que tivessem interesse naquele canal deveriam se apresentar atendendo a determinados requisitos. Por exemplo, só podiam ser brasileiro nato e uma série de pré-requisitos que eram exigidos das empresas. E isso era muito fácil de atender. Dificilmente a gente desclassificava uma empresa, e a legislação dizia que uma vez qualificada a empresa cabia ao presidente da República a prorrogativa de escolher qualquer uma pra outorgar o canal. Nós, do ministério ouvíamos entidades vinculadas a localidades, por exemplo, igrejas, associações e políticos da localidade. Se tivesse um Rooney Clube na cidade a gente ouvia também qual era a opinião, dentre tais concorrentes, a gente ouvia um conjunto de pessoas e levava para o ministro dizendo qual emissora tinha apoio de qual entidade. Os políticos também eram ouvidos. Os políticos sempre tinham muito interesse, mesmo que não fossem pra eles. E os políticos estavam nessa lista, sempre muitos políticos é claro. Os políticos favoráveis ao governo, os aliados ao governo tinham preferência no atendimento. É claro que se um político da oposição tivesse ali apoiando um determinado postulante dificilmente ele levaria. E dentro de um regime democrático, isso era justificável, porque quando houve a transferência do poder do governo da oposição ele vai dar também para aqueles que sejam seus correligionários. É assim que na época funcionava. No período do Fernando Henrique Cardoso mudou-se esse critério e estabeleceu outro modelo de outorga. Passou a ser daquele que oferece o maior valor pela concessão.

Expressão – Deixou de ser concessão para ser outorga?

Rômulo – Não, continua sendo concessão. Mas uma não era paga e a outra passou a ser paga.

Expressão – Rômulo Furtado e Rita Furtado usaram a influência no Ministério das Comunicações junto ao governo federal para consegui essas rede de emissoras e empresas que o senhor tem hoje em Rondônia?

Rômulo – Acabei de explicar a você exatamente como se procedia. Aqui no estado alguns políticos receberam outorga. Um exemplo é o ex-senador Odacir Soares e outros deputados da época. Rita Furtado foi uma invenção do Sarney como presidente do maior partido e que depois virou presidente da Republica. Ele que sugeriu que Rita fosse candidata a deputada. Quando surgiram os editais que foram abertos aqui a pedido não só da Rita, mas de outras pessoas. Quando esses editais foram postos na praça, as empresas se qualificaram e o ministério analisou como sempre analisa e nem era no meu setor. O ministério analisou as qualificações das empresas, se elas atendiam os requisitos e dizia se essas empresas estavam qualificadas. Aí vinham os apoios e é claro que aparecia Rita Furtado como apoiadora. E acontecia também o seguinte: para a FM o presidente da Republica podia outorgar duas emissoras na mesma localidade. Então isso permitia que se atendessem duas correntes políticas, por exemplo. Mas que fossem correntes aliado ao governo e assim foi. Quero dizer que não foi influência minha no ministério. Foi o critério que se usava a época. O critério em que o presidente da República dá a quem ele quiser dentro as empresas qualificadas. Se dentro as empresas qualificadas existissem uma ou mais emissoras apoiadas por correligionários, o governo atende. Minha participação nisso foi lateral, mas dentro do que a legislação mandava.

Expressão – Conhecendo Rondônia desde os anos 1980, o senhor imaginava que Rondônia fosse se transformar nesse estado pujante que é hoje, como potência do Norte brasileiro?

Rômulo – Eu tinha essa esperança e essa expectativa. Claro que a gente não podia ter certeza. Mas, na minha maneira de ver, Rondônia foi privilegiada com a vinda do Teixeirão para cá. O governador Jorge Teixeira foi um elemento fundamental no desenvolvimento econômico, na consolidação do estado, até porque, foi na época dele que se criou o estado. Então veja, ele era muito amigo do Figueiredo, presidente da República, não havia nada que o Teixeirão pedisse que o Figueiredo não procurasse atender. O Teixeirão era um batalhador, um tanque de guerra, um sujeito que trazia muita coisa para o estado que os outros governadores não tinham condição de trazer. Outra coisa que eu acho que foi um privilégio do estado, uma circunstância muito favorável, foi o processo de colonização que se adotou. Esse foi muito importante, porque foram concedidas ou vendidas a preço de banana propriedades médias e pequenas para pessoas qualificadas que vieram do Sul do Brasil, que já eram homens do campo com um nível muito bom e redundou em um exemplo de reforma agrária que deu certo.

Expressão – O senhor considera que Rondônia é um exemplo de reforma agrária que deu certo?

Rômulo – Acho que é a maior experiência de reforma agrária exitosa no mundo. Isso foi um privilégio para Rondônia. Se você olhar, você tem as linhas tudo planejado, foi uma circunstância extremamente favorável. Pegou-se uma área virgem, por assim dizer, pode-se fazer um planejamento adequado e fazer a outorga desses lotes por licitação para as pessoas que vieram do Sul, os imigrantes. São pessoas que venderam o que tinham lá no Sul – vendiam suas propriedades, uma terra muito valorizada por um valor expressivo – chegavam aqui e, por 10% do valor, conseguiam comprar uma área de terra que era uma coisa extraordinária. Isso ai eu acho que foi muito importante, extremamente importante.

Expressão – E qual a avaliação que o senhor faz de Rondônia na atual quadra?

Rômulo – Eu acho que Rondônia está exibindo um processo de desenvolvimento que poucos estados no Brasil podem exibi. Agora mesmo houve uma avaliação do plano de desenvolvimento de Rondônia por um painel de especialistas lá em São Paulo e Rondônia sai qualificada nas primeiras colocações. No item competitividade, uma iniciativa do estado que foi muito apreciada foi desenvolvimento da rede de fibra ótica interligando os órgãos públicos. Rondônia está mostrando que tudo aquilo que aconteceu no passado está desembocando num processo de desenvolvimento positivo e ouve a consolidação econômica. Esse pessoal que foi para o campo e trabalhou a terra e hoje a gente pode dizer que Rondônia é uma grande produtora de alimentos, pois o gado já era uma tradição do estado, mas de 10 ou 15 anos para cá entrou a soja e outros cereais, a piscicultura, o café já existia também e se expandiu muito mais. Outra coisa que Estado tem de peculiar é que ele é um ponto de conexão para logística modal de várias modalidades de transportes. Temos a hidroviária, tem a parte aérea e tem a rodovia para o pacifico e a possibilidade de sair uma ferrovia. E os chineses têm interesse nisso, porque essas terras daqui do Brasil estão próximas da China. Chegando ali ao Pacífico é um passeio até a China e outros mercados asiáticos.

Expressão – Como era sua relação com o governador Teixeirão, homem também de personalidade forte?

Rômulo – Nos dávamos muito bem e isso foi ótimo, pois eu gostava muito do Teixeirão. Ele era o cara que ia lá ministério, sempre em busca de resolver assuntos de interesse do estado. Por exemplo, a parte de telefonia e telecomunicações e eu lembro que ele fazia suas oblações e eu realmente me empenhava em atender, pois eu via nele um grande líder, um cara com uma enorme capacidade de trabalho, com muita determinação, muita vinculação. Isso me fez aproximar e me entusiasmar ainda mais com Rondônia, porque ele era um cara de dinamismo extraordinário, muito autêntico. Também falava o que tinha de falar, não era de meias palavras. Foi um sujeito admirável e que deu uma grande contribuição para o estado.

Expressão – Em 1990 acabou seu casamento com a deputada Rita Furtado e o senhor constituiu uma nova família. Dessa família nasceram outros filhos?

Rômulo – Não.

Expressão – Então seus filhos são só Adriana e Luciana?

Rômulo – Exatamente.

Expressão – Além de Porto Velho, suas emissoras estão em Ariquemes, Ouro Preto, Ji-Paraná, Pimenta Bueno, Cacoal, Rolim de Moura, Vilhena e Colorado. Essas empresas são todas autossustentáveis?

Rômulo – Sim, eu diria a você que sim são autossustentáveis, claro, no limite. O nossa mercado não é um mercado exuberante em termos de publicidade e claramente a gente tem sempre que realizar uma administração muito austera, para garantir o equilíbrio e se possível algum resultado positivo. O que eu posso dizer é o seguinte: eu nunca tive antes e nem tenho hoje nenhuma esperança de recuperar o capital investido, porque na verdade o resultado que dá paga as despesas da empresa, mas dizer que sobra um capital para recuperar o investimento, retornar a origem, isso não sobra.

Expressão – O senhor está com quantos anos?

Rômulo – Estou 79 anos, vou fazer 80 anos em janeiro.

Expressão – O senhor já está tratando da sucessão familiar?

Rômulo – Já está em nome das filhas. Não tem nada no meu nome mais. Eu já transferi. Não tenho problema de sucessão, posso morrer em paz.

Expressão – O senhor quer acrescentar alguma coisa, algum fato pitoresco que por acaso eu não tenha me lembrado?

Rômulo – Tem um fato pitoresco muito interessante que eu vivi. Eu sempre viajei com alguma frequência para o interior. Ainda hoje faço essas viagens, mas antigamente era mais e eu lembro que eu parava em Cacoal no pernoite e sempre ia à noite a um restaurante com os companheiros. Era um restaurante bom e dizia-se que lá tinha um cozinheiro francês, mas era um cearense, um cara bacana, um sujeito muito afável e eu conversava muito com ele. Sempre nos atendia muito bem. Eu até dava uma publicidade gratuita para o restaurante nas nossas emissoras. Uma vez eu cheguei lá em Cacoal e chamei o pessoal para irmos ao restaurante jantar. Aí me falaram: o fulano quebrou. Eu falei: poxa, que pena era um bom restaurante.  No dia seguinte, casualmente eu estava na rua, fui ao banco fazer alguma coisa e, quando eu saio do banco dou de cara com o dono do restaurante e lhe falei: me disseram que você quebrou. E ele falou: doutor Rômulo, não quebrei. Eu trinquei. Quer dizer ele trincou, rachou um pouquinho, mas não quebrou. Eu achei isso uma coisa bacana e muito criativa.

Expressão – O site Expressão Rondônia agradece pela entrevista…

Rômulo – Bom Carlos, muito obrigado por ter vindo aqui me entrevistar. Eu gosto de falar para o público de Rondônia a meu respeito, mas, sobretudo, a respeito do estado que eu vivi, da história desde o começo até os dias de hoje. O que acho é o seguinte: quando a gente olha essa história, a gente tem que se sentir mais seguros, mais confiantes, porque o estado que eu vi no passado e que eu vejo hoje a diferença entre um e o outro é enorme.

Expressão – Pra Melhor, claro?

Rômulo – Pra melhor! Eu me lembro que as nossas estradas para interior era difíceis, eram estradas de terra. A própria BR-364 não era essas coisas, hoje a gente sabe que as estradas do estado estão, em larga escala, asfaltadas.

Expressão – Cidades fora do eixo da BR-364 todas estão interligadas…

Rômulo – Rondônia teve um extraordinário desenvolvimento, disso não tenho a menor dúvida e é isso que faz a gente confiar. Nós sabemos perfeitamente como é que o empresariado tem que encarar o nosso estado. Todo mundo vive dificuldade, pois a vida não é fácil para ninguém, mas a gente confia.

Expressão – Obrigado!