Hiran Gallo

O que leva uma pessoa a escolher a medicina como profissão? Para 63,5% dos médicos jovens, recém-graduados nas universidades brasileiras, essa decisão foi pautada pela vontade de fazer o bem. Entre outros motivos que justificam a decisão aparecem, respectivamente, o interesse pelo organismo humano e o processo que leva ao seu adoecimento (54,5% das respostas) e o estabelecimento da relação médico-paciente (41,5%).

Começo assim minha reflexão para ressaltar, com dados estatísticos, os compromissos dos médicos brasileiros com sua missão É o que foi apontado em pesquisa encomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) ao Instituto Datafolha.  No estudo, que buscou avaliar diferentes percepções dos egressos sob aspectos da vida profissional e sua relação com a medicina, foram ouvidos 4.601 médicos recém-formados, no período de setembro de 2014 a outubro de 2015.

No entanto, a vocação humanista e humanitária dos médicos brasileiros esbarra em uma série de obstáculos ao longo de sua trajetória. No campo da saúde pública, a falta de condições de trabalho e a remuneração incompatível com a responsabilidade e a dedicação exigidas acabam por afastá-los do Sistema Único de Saúde (SUS).

Contudo, o interesse permanece. Para 46,7% dos entrevistados, caso as condições de trabalho, remuneração e extensão de jornada fossem equivalentes em serviços do SUS e particulares ou de planos de saúde, a opção seria atuar exclusivamente na rede pública.

Na avaliação de 41% dos respondentes, o modelo de emprego seria indiferente. Apenas 12,2% optariam pelo setor privado.

Para 91,6% dos entrevistados, a falta de suporte operacional (ausência de leitos, equipamentos, insumos, equipes multidisciplinares etc.) é o calcanhar de Aquiles para que um médico aceite trabalhar para o SUS num município mais distante e ali se instale por mais tempo.

Questões como qualidade de vida, educação continuada e jornada de trabalho também foram destacadas pelos entrevistados.

Dados assim deixam cada vez mais, parece evidente a dificuldade do Governo, em todas as suas instâncias, em entender a mensagem deixada pelos médicos.  Há anos, dados e pesquisas são apresentados aos gestores, apontando as causas dos gargalos da assistência, mas, mesmo depois disso, as decisões corretas não são tomadas. É o que tem acontecido quando se coloca em debate a importância de uma carreira de Estado para o médico no Sistema Único de Saúde (SUS).

Essa proposta, defendida pelo CFM e que está pronta para ser votada no Congresso, poderia ser a solução para fixar médicos no interior. Contudo, apesar de todos os sinais que lhe são favoráveis, permanece sem o apoio que os gestores deveriam lhe dar.

O interessante é que todos os problemas relatados pelos profissionais têm soluções no projeto em tramitação. Ou seja, os sintomas e o tratamento são conhecidos, mas esbarram na vontade dos políticos que parecem descolados da vida prática.

Não é por acaso que este é um dos tópicos da Carta do Médico Jovem para o Brasil, recentemente aprovada no encerramento do II Fórum Nacional de Integração do Médico Jovem, realizado em Belém (PA). Trata-se de um documento importante, que deveria ser leitura de cabeceira de ministros, governadores e prefeitos, sem falar nos secretários estaduais e municipais da saúde.

No documento, os médicos apontam para as autoridades as medidas que devem ser adotadas com urgência para garantir o bom exercício da medicina e a qualidade no atendimento dos pacientes. No texto do manifesto, os profissionais reivindicam competência na gestão dos modelos de assistência em saúde no Brasil nas esferas pública e privada; aumento dos recursos financeiros destinados à saúde pública e a adoção de medidas que impeçam o déficit de leitos de internação; entre outros pontos.

Trata-se de um pleito justo, legitimo e comprometido com a defesa dos direitos humanos e sociais. Não se pede nada além do que a sociedade deveria receber de forma ordinária, mas que são ignorados num processo de escuta eletiva. Os gestores até podem fingir que não escutam esse clamor. Porém, os apelos da sociedade e dos médicos continuarão a soar alto. Afinal, esse é um compromisso de quem valoriza a cidadania e luta pela boa medicina e assistência em saúde no Brasil.

José Hiran da Silva Gallo
Doutor em Bioética
Diretor do Conselho Federal de Medicina (CFM)