Mansonia, ampliado.

PORTO VELHO – Eles atacam no crepúsculo vespertino e à noite. São verdadeiras pragas. Dois anos atrás, laudos de biólogos aos quais Expressão Rondônia teve acesso prenunciavam a atual infestação do mosquito Mansonia nas circunvizinhanças das usinas hidrelétricas Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. Em abril de 2015, a empresa Sapo estudou os hábitos desses mosquitos para a Santo Antônio Energia. Ainda há dúvidas se haverá equilíbrio nessa fauna.

Se naquela ocasião o inseto ainda não estava tão presente nas casas de Jacy-Paraná e Nova Mutum-Paraná, hoje penetra por janelas e frestas. Alguns moradores põem tela de proteção. Mesmo diminuindo a frequência do mosquito Anopheles [anofelino, transmissor da malária], aumenta a proliferação do Mansonia, que também é visto atualmente em bairros periféricos de Porto Velho.

Dois anos depois do estudo biológico, moradores de Jacy-Paraná e Nova Mutum-Paraná se debatem contra a infestação, conseguindo combatê-la com a borrifação de inseticida, soluções de carrapaticidas e outros medicamentos misturados com álcool e água.

O estudo demonstra que o aumento dos mosquitos adultos se deve à profusão de plantas macrófitas em igarapés da região às margens do Rio Madeira. O relatório da Sapo associava a reprodução diretamente à concentração da vegetação flutuante Eichhornia spp, também conhecida por aguapé, alface d’água, baronesa, entre outros.

“A instalação e funcionamento de uma hidrelétrica gera modificações ambientais que interferem nas populações de culicídeos [mosquitos e pernilongos]” – diz o primeiro relatório.

Um possível impacto causado é o aumento na fauna de vetores de doenças, a exemplo dos mosquitos do gênero Anopheles – analisa. E lembra que na área de influência de uma represa, o acúmulo de vegetação aquática e a expansão de macrófitas na fase de enchimento dos reservatórios eleva a densidade dos anofelinos e outros culicídeos que encontram condições favoráveis para proliferar.

Aguapé concentrava 85,7% das larvas em 2015. Ou seja: a diversidade e riqueza da fauna de mosquitos é fortemente afetada após a primeira fase de enchimento, podendo ocorrer uma redução de culicídeos adultos, resultante da morte de imaturos pela elevação do nível d’água. “Após essas modificações, com a operação das usinas, espera-se que a fauna de mosquitos se estabilize no decorrer dos anos” – assinala o documento. Já se passaram dois, e moradores da região estão inquietos.

Captura e pesquisa larvária

Os mosquitos monitorados foram capturados com sucção manual das 18h às 6h do do dia seguinte, de janeiro a março de 2015. A empresa distribuiu armadilhas New Jersey – fixadas em tripés de metal e conectadas à rede de energia – em três pontos nas linhas 9, 15 e 17 do Assentamento Joana D’Arc, para verificar a dispersão do Mansonia para a cidade. Concentrava-se (60,9%) na linha 15 o maior número de espécimes; os demais estavam na linha 17 (25%).

Já na linha 9 do assentamento, o número reduzido de mosquitos se deveu à distância de dez quilômetros dos bancos de macrófitas. Biólogos, técnicos e assistentes trabalharam nos igarapés Ceará e Flórida, caracterizados por águas paradas, claras e frias, em ambiente de baixa luminosidade devido aos aguapés.

Além do aguapé, onde eles coletaram 85,7% das larvas,  apareciam outras vegetações: Pontederia sp (10,9%) e Paspalum repens (3,4%), ambas comuns no Pantanal Mato-Grossense e na Amazônia.

Em dois bancos de macrófitas encontrados nas margens do Rio Madeira, o Igarapé Ceará apresentou 2,9% das larvas do Mansonia e o Igarapé Flórida 97,1%. Larvas coletadas com o auxílio de pipetas plásticas foram inseridas em tubos com rosca contendo álcool a 70%. A identificação foi feita no laboratório de entomologia médica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá.

Crepúsculo em Jacy-Paraná. Nessa hora, nuvens de mosquitos invadem casas, galinheiros e currais

Recorde no Joana D’Arc

“Durante a primeira campanha de monitoramento, a Sapo coletou quatro espécies: Mansonia titillans, Mansonia fonsecai, Mansonia humeralis e Mansonia pseudotitillans. Destes, o recorde foi do Titillans, com 7.084 espécimes”, revela o estudo.

“Esse achado está relacionado ao fato de ser essa espécie a mais abundante e amplamente distribuída nas Américas, ocorrendo no hemisfério ocidental tropical e subtropical do sul dos EUA para Argentina, incluindo ilhas do Caribe”.

Em cinco semanas de estudos [25 de março a 22 de abril de 2015], 8.153 mosquitos coletados (59,5%) tiravam o sossego dos moradores da linha 17 do Assentamento Joana D’Arc, enquanto 21,6% estavam na linha 15.

MONTEZUMA CRUZ
YTALO ANDRADE (fotos)

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