Final do Século XIX: o seringal amazônico no auge na produção da borracha; o índio com a perna necrosada, levado para o Hospital da Candelária em Porto Velho; as vilas do Rio Madeira. Cachorros, cobras, onças, comerciantes, andanças e migração forçada na floresta – contatos, tiros, facadas, violência, “colonização”.

A leitura de Diaruí nos transporta com facilidade para a cruel realidade da selva por onde passaram os trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, “a mais isolada do mundo” no início do século passado.

Quem conhece a região, percebe o que houve ali; quem não pisou nesta parte amazônica ocidental, visite-apois ainda há vestígios do cenário do livro. Nesse romance histórico amazônico lembrando, entre outros aspectos, o território sagrado Karipuna em Jacy-Paraná, nos deparamos com uma Rondônia (ex-Território Federal do Guaporé) inóspita e onde se celebrizou aquele dito mais ou menos assim: “Cada dormente da linha do trem significou uma vida ceifada”.

O escritor e acadêmico de letras Antônio Cândido da Silva transporta o leitor para um mundo sempre surpreendente, até na dor e nos mistérios. Fala da crença indígena, da simplicidade, do amor e da espiritualidade.

O trem não dava sossego e o índio vivia e padecia na sua mais pura essência de um ser especial às margens da Ferrovia do Diabo. Resistiu o quanto pôde, a exemplo dos seus irmãos do Médio Madeira, no entanto, cedeu impotente à cotação internacional da borracha, ou seja, à marcha implacável da “civilização” que se dava com a própria exploração dos brancos nordestinos em seringais da região.

As descrições de Silva guardam o sentimento de um amazônida nascido em Humaitá (AM) aliado a uma incrível disposição de ir às minúcias no relato da vida de uma gente oprimida pelo silêncio da floresta.

Na primeira parte do livro, o autor comove ao contar o drama tribal: Diaruí (Pitt) fora abandonado pelo seu povo em virtude da crença que os Karipuna tinham de que os doentes ficavam sob a dominação de algum espírito que também tomava conta de quem se aproximasse do índio doente – ele diz no capítulo “Morre o sonho de um guerreiro”.

Mutilado, Pitt ouve a enfermeira Thifany dizer-lhe que não morreria: “Nós cuidaremos de você”. Certamente pensando em honra e vergonha, ele diz: “Senhora não entende. Pitt tem que fazer as coisas para ter direito de comer, de vestir e de dormir. Não pode ser peso para o seu povo”. “Pitt, – falou Thifany – eu tenho certeza de que o doutor Lovelace (médico do Hospital da Candelária) vai querer que você fique aqui. Não se preocupe, nós pensamos diferente do seu povo e não abandonamos os nossos doentes. Você não tem idéia do quanto é importante para nós. Por sua causa a Companhia fez amizade com seu povo e nunca tivemos problemas ao atravessar a terra de vocês (…)”.

Pitt não se conforma – “Não existe guerreiro sem pernas” – com a amputação, rejeita a condição de herói, mas passa a usar um par de muletas, com prótese, uma cadeira de rodas e se movimenta com dificuldade pelo hospital. Era realmente um guerreiro, algo que lhe fora incutido na memória por médicos e enfermeiros do hospital. Esses lhe mostravam: guerreiro é aquele que luta por alguma coisa.

E aprendeu a encher cápsulas de quinino, largamente usadas em Porto Velho, Santo Antônio e nos acampamentos onde os cassacos – pessoal que cuidava da manutenção da linha férrea – executavam o seu trabalho.

“Não existe guerreiro sem pernas”

Querido por funcionários, direção a pacientes do hospital, ele sabia que não poderia combater os invasores do território Karipuna. Sofria, ao rever ali parentes atacados pela pneumonia e dos quais ouvia notícias da expulsão causada por seringueiros e caucheiros que lhe tomavam as terras à procura do látex.

Queria saber de tudo, da sua gente, dos amigos, de Daué, o grande amor de sua vida. Pitt foi feliz enquanto viveu, dentro das suas limitações.

Agonia de uma raça

Na parte dois, “agonia de uma raça”, o cenário do livro muda completamente: se antes havia paz entre os seus homens, mulheres e bichos, Jacy-Paraná perdeu nesses anos 2000 a condição de uma vila pacata. Paralisou diante da “falta de segurança e das coisas boas e ruins trazidas pelo progresso”. A construção da hidrelétrica de Jirau fez aumentar o movimento na rodovia. Prostituição, carência de atendimento de saúde e outros dramas sociais aumentaram com facilidade.

O povo Karipuna outrora habitante das cercanias do Seringal Panorama mora atualmente numa reserva de 195 mil hectares, criada pelo Governo Federal. Quantos indígenas restaram? Segundo Silva, apenas “cinco legítimos”: Aripan, Batiti e Katiká, “adultos, casados com brancos ou parceiros de outras tribos e dois jovens, Tangarei (Adriano) e Bacaê (André)”. “Kaipú mora em Ji-Paraná, Paturi em Itapoã do Oeste – ambas na BR-364 (Rodovia Cuiabá-Porto Velho-Rio Branco-Cruzeiro do Sul) e Toberrinha, que vive em Porto Velho.

A história de “Diaruí” assemelha-se à dos Xetá (no Paraná), dos Guató (no Pantanal sul-mato-grossense), dos Kaxarari (na divisa Acre-Rondônia), dos Piripikura (Aripuanã) e de outros tantos dizimados pelo avanço de frentes pioneiras movidas pela força das armas, das motosserras e dos caminhões cheios de toras de madeira de lei.

Vida no seringal e vida de índio

“O tempo caminhava pela metade da década de cinquenta e o preço da borracha continuava sendo baixo naquele final de ano, quando a lei da oferta superava a da procura.

O mercado financeiro era ingrato para com o seringalista e, consequentemente, para com o seringueiro que via o lucro do seu esforço diminuir a cada dia em virtude da política adotada pelo Banco que, na hora de financiar os produtores, época da oferta, o valor oferecido para custeio dos seringais era menor.

E assim, a cada ano, os sessenta por cento financiados tomando por base a produção anterior não eram suficientes para deixar uma margem de lucro que desse aos seringalistas financiados condições de expandir os negócios, abrindo novas colocações dentro dos seus seringais”. (Do capítulo: Os inimigos se encontram).

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“Na aldeia dos Karipuna tudo estava em paz. Os índios iriam construir uma nova oca e se preparavam para, no dia seguinte, cortarem a madeira necessária para a construção.

– Pitt – falou Ura-í – você também vai para o corte de madeira?
– Não sei ainda. Afinal de contas eu não posso ajudar em muita coisa.
– Toda ajuda é necessária e bem-vinda Pitt. Quem não pode muito ajuda pouco. Tudo é importante, até mesmo o trabalho dos curumins.

– Pitt sabe disso Urá-í, é que Pitt foi criado para ajudar muito, mas Pitt vai porque é melhor que ficar na aldeia como índia velha.

– Assim que Pitt deve pensar – falou Ucá, que ao aproximar-se, acabara de ouvir o diálogo – Pitt vai e vai ajudar como sempre fez. Pitt sorriu ao incentivo do amigo, recebeu de Ucá um pedaço de beiju e ficaram os três conversando e preparando planos para o dia seguinte, mesmo porque começava a escurecer e o Karipuna dorme e desperta com o sol, a não ser em noite de festa, quando a grande fogueira ilumina a ocara onde eles dançam e se divertem até o amanhecer. (Do capítulo: Felicidade passageira)

■ Diaruí – Antônio Cândido da Silva
Romance histórico brasileiro, 217 páginas, Editora Schoba Ltda