MONTEZUMA CRUZ
MONTEZUMA CRUZ

Tinha que ser ele. O repórter que localizou na selva de Ariquemes o avião perdido após a queda. O editor que noticiou a Caravana Ford, o avanço da BR-29 (depois BR-364) rumo a Rondônia. Euro Tourinho testemunhou as agruras dos territórios do Guaporé e Rondônia e colaborou o quanto pôde na base de estudos para a criação e instalação do estado.

Alinhar seus feitos ocupa o espaço destas breves considerações. Ele viu o nascimento de cidades, noticiou epopeias tão significativas quanto o apito do trem na floresta amazônica.

A exemplo do fundador do jornal, o médico baiano Joaquim Tanajura, o mato-grossense Euro dedicou parte de sua vida à extinta vila de Santo Antônio do Rio Madeira, aonde chegou ainda menino.

Tanajura veio procedente da Bahia. Membro da Comissão Rondon, aos 32 anos fixou-se em Santo Antônio no início do século passado. Euro chegaria aos dez anos, em 1932, acompanhado do pai e da família, todos eles se deaparando com a vila arruinada e seus casarões abandonados.

Ele próprio recorda-se que na década de 1930, no antigo centro comercial, às margens do Madeira, moravam apenas sete famílias.   

Contratado em agosto de 1910 pela empresa Madeira-Mamoré Railway Company, o médico sanitarista Oswaldo Cruz se incomodava com os hábitos e costumes do povo sofrido desta parte da Amazônia.

Para ele, o lugar “era pior do que o inferno”.  Entre os anos 1970 e 80, Euro publicaria reportagens revelando o sufoco de migrantes assentados pelo Incra em diferentes regiões territoriais. Gente que o Ministério do Interior reconhecia como migrantes. Destemidos pioneiros.

Alto Madeira ampliava o horizonte inicialmente limitado por Tanajura aos que estavam circunscritos à cidade que sucumbia, dando lugar a Porto Velho.

“A solução para Santo Antônio era botar fogo em tudo”, decretava o cientista Oswaldo Cruz quando aqui esteve. Tanajura reagia, afinal, trabalhava na Amazônia havia cinco anos, acudira muitos seringueiros com malária, influenza, febres tifóide e amarela, e isso não era plenamente suas atribuições.

Era um profissional que fazia da medicina também um sacerdócio. Sua posse de médico ocorrera em 1912, quando foi criada a enfermaria em Santo Antônio. O movimento do Hospital da Candelária caía da média de 120 para 60 pessoas atendidas por dia e as mortes diminuíam de 419 para 209.

Dezoito anos antes da chegada de Euro, Santo Antônio tinha 911 habitantes, dos quais, 697 na zona urbana; 148 eram crianças.  Houve uma queda de 46% na mortalidade infantil no primeiro ano de gestão do então prefeito Tanajura. Malária, bronquite e pneumonia tiravam a vida de crianças.   

Alto Madeira era produzido tipograficamente em Porto Velho, numa casa onde havia funcionado o jornal O Município, de 1915 a 1917, cujos equipamentos Tanajura comprara.

O médico-prefeito enfrentava campanha difamatória contra a localidade onde, conforme ironias, “até as árvores tremiam de malária”. No entanto, respondia a todas elas, com lições sociológicas e respeito ao ser humano que aqui habitava

No mesmo Alto Madeira, no período 1975-1985 dirigido por Euro, Jaru e Ariquemes eram quem levava a pecha de “campeões nacionais e mundiais da malária”.

A relação do jornal com epidemias e sofrimento do ser humano sempre  existiu durante este século agora comemorado.

Tanajura não chegara a ver Santo Antônio ser extinta e incorporada a Porto Velho. Mudava-se para Curitiba em 1940, oito anos após a chegada de Euro e foi referência de grande médico, intelectual e jornalista.  

Morreu em 19 de junho de 1941, aos 63 anos, durante viagem a São Paulo. Seu corpo foi sepultado no Cemitério da Consolação.

O fundador do Alto Madeira virou nome de rua em Porto Velho, Manaus e Livramento de Nossa Senhora (BA). É patrono da cadeira 22 da Academia de Letras de Rondônia e está na galeria dos fundadores da Maçonaria.

Aos 95 anos, Euro trabalha diariamente em seu jornal, onde lê, escreve e revisa algumas páginas. Na Redação e na portaria, distribui bombons, amendoim e sempre tem uma palavra amiga para quem o procura. Deus o conserve mais tempo no cotidiano desta terra.

NOTA
Este texto sairia na edição centenária do Alto Madeira. Por falha na edição, saiu outro que não é de minha autoria.