Pouco mais de 30 anos atrás, a arrozeira do empresário Luiz Bernardo beneficiava seis toneladas por mês, em sacos de 60 quilos. Atualmente alcança três mil t [três milhões de quilos] por mês de arroz longo fino.

Bernardo Alimentos tem uma linha de 170 produtos e lança novidades nas áreas de farináceos, condimentos, ervas e temperos. Sua atuação em Ji-Paraná, a 367 quilômetros de Porto Velho, enriquece a pauta exportadora rondoniense.

Paulista de Birigui, Bernardo foi criado em Cianorte, noroeste do Estado do Paraná. Ele afirma que sua empresa faz a sua parte para melhorar as safras. E prevê o ingresso de Rondônia em mercados mundiais. Lembra que o Irã adquiriu 2,4 milhões de t de arroz em 2013; Arábia Saudita, 1,3 milhão; e China, 1,05 milhão.

ENTREVISTA DA SEMANA
Carlos Araújo e Montezuma Cruz
Fotos: Rosinaldo Machado

Quem é Luiz Bernardo?
Bernardo – Tenho 57 anos, sou filho de Delmiro Bernardo e Dirce Cruzes Bernardo. A Arrozeira Bernardo nasceu da sociedade de dois irmãos e dois primos. Atualmente, a Bernardo Alimentos tem representações comerciais no Acre, Amazonas, Distrito Federal, em Mato Grosso, Minas Gerais, no Rio de Janeiro, São Paulo, e exporta para África do Sul, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Como foi a saída de São Paulo, rumo ao Paraná?
De Birigui para Cianorte, a mudança de nossa família viajou num caminhão Fenemê [da FNM, Fábrica Nacional de Motores]. Eu tinha só quatro meses de idade, cresci por lá, com outros seis irmãos, e aos 15, por conta e risco, fui embora sozinho para Curitiba, onde cursei o segundo grau e química industrial na Universidade Federal do Paraná. Três anos depois de chegar a Rondônia, estudei e me formei em administração na Ulbra. 

Quantas pessoas trabalham aqui, atualmente?
Oferecemos 170 empregos, na média de um para cada produto. Empregos indiretos são aproximadamente quinhentos.

Como foi sua chegada a Rondônia?
Cheguei ainda no tempo da fartura: fartava tudo. O agricultor cortava o arroz com cutelo [instrumento cortante formado de um ferro semicircular com um cabo de madeira], empilhava verde mesmo, ele amarelava, azedava e a gente comprava, mesmo sem a qualidade ideal. No tempo da “bica corrida”, o arroz era vendido a granel, em sacos de 60 quilos. Hoje, cargas de arroz beneficiado e de seis tipos saem de Rondônia em caminhões e são embarcadas em contêineres no porto de Rio Grande (RS), para a exportação.

Bernardo Alimentos produz mensalmente 4 mil toneladas de produtos. Além do arroz beneficiado, saem dali:  canica, farofa de calabresa, farinha de milho flocada, farinha de rosca flocada, paçoca e temperos em geral.

Qual é o período de maior movimento em suas indústrias?
De fevereiro a abril, no pico da safra, 20 a 30 caminhões param todo dia na balança da nossa planta industrial, aqui no Anel Viário de Ji-Paraná. Na área de descarregamento funciona um laboratório, onde as funcionárias identificam o arroz, limpam e o padronizam. Depois, ele vai para o beneficiamento. Nesse laboratório funciona a máquina selecionadora de impurezas, com amostras de 500 g cada uma.Como foi o começo?
Nós começamos numa área sem energia e sem água encanada. Hoje estamos na modernidade: movimentamos 17 equipamentos que garantem produtos classificados e temos também o nosso laboratório classificador. Também adquirimos máquinas de beneficiamento com torres altas, todas elas de fabricação nacional [Zaccaria e Suzuki, entre elas].

E no que mais a tecnologia tem ajudado?
Trabalhamos com fardos gigantes que se destacam próximos às cargas embaladas com pacotes menores. O conteúdo do big-bag com farelo, por exemplo, é de meia tonelada. Sem os equipamentos modernos não teríamos como movimentar esses volumes.

A estrutura está centralizada ou existe alguma filial ou outra estrutura de apoio?
Abaixo da esteira que transporta arroz em casca até o moinho, construímos uma oficina mecânica. Ela funcionava em outro local e estava distante das principais operações, por isso fizemos a transferência para cá. O sistema está automatizado.

O senhor tem parcerias com os produtores rurais. Como isso como funciona?

Até 2013, nessa parceria com os produtores a empresa distribuía sementes, adubo, óleo diesel e subsistência a 82 agricultores. Mas o agravamento do quadro econômico obrigou a gente a interromper o benefício.

Precisamos zerar, porque o crescimento das lavouras passou a exigir o máximo do agricultor, e assim ele tecnifica ou está fora. As variedades da Embrapa agora  estão à disposição de todos.

O senhor tem estudos da demanda do mercado internacional?
[O empresário mostra alguns dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] – Sim, esse estudo aqui revela que em 2014, as exportações brasileiras de arroz totalizaram 929,9 mil toneladas. Cuba adquiriu US$ 57,05 mil, Venezuela 51,8 mil, Senegal 37,4 mil, Bolívia 29,1 mil, Serra Leoa, 27,6 mil, Gâmbia 26,2 mil, Nicarágua, 24,9 mil, Peru 19,7 mil, Benin 17,3 mil, Iraque, 14,8 mil, Angola 13,4 mil, Turquia 11,6 mil, Estados Unidos 9,4 mil, Suíça, 8,9 mil, Costa Rica, 8,4 mil; outros países 34,9 mil.

O senhor vê perspectivas para ampliação de mercado?
O próximo grande mercado para os nosso produtos é a região noroeste de Mato Grosso, onde a estrutura necessária para distribuição será montada com recursos do Fundo Constitucional do Norte. Mas estamos de olho nesses estudos Apex, e eles demonstram que hoje o arroz semibranqueado ou branqueado (85%), mesmo polido ou brunido (glaceado, 85%), e o quebrado (15%), trinca de arroz, abastecem mais a Bolívia, que importou US$ 4,01 milhões em 2013.

Então, há espaço de sobra lá fora?
Se melhorarem as safras, Rondônia terá à disposição outros mercados mundiais, destacando-se o Irã, que adquiriu 2,4 milhões em 2013; Arábia Saudita, 1,3 milhão; e China, 1,05 milhão. Já o feijão [branco, carioca e preto] também se torna forte item na nossa pauta de exortação. Com esse acréscimo nas vendas dos nossos produtos, aumenta a circulação de recursos e cresce a arrecadação. Nosso mote me parece bem expressivo: Das mãos do agricultor à mesa da família. Desta maneira, colaboradores da Bernardo Alimentos percorrem um caminho de trabalho e respeito humano.

A paçoca é um sucesso e o senhor também fabrica temperos, farofa… Diversificou bem a sua produção.
O mercado exige, a gente diversifica. E cresceu bem com a venda da paçoca [embalada em potes redondos e quadrados, conforme se vê na foto abaixo]. Vendemos até em farmácias, porque elas também facilitam o troco de compras. Temos 50% do mercado regional. Antigamente as vendas eram restritas aos supermercados, hoje temos clientes de A até Z”. Também comercializamos nosso pasteurizados e geladinhos para diferentes regiões. E com a farofa, a tendência é semelhante. Quando eu entrego um fardo de arroz, automaticamente entrego mais um com outros produtos.

Quem lhe fornece matéria-prima nessa diversificação?
No romaneio das cargas embaladas, sabemos o que é matéria-prima regional e o que vem de fora. O amendoim cru ou torrado, por exemplo, é comprado no Estado de São Paulo. Num dos nossos setores vejam os produtos embalados quase artesanalmente: cravo, cebola em flocos, erva doce, folhas de louro, linhaça, nós moscada, pimenta calabresa, entre outros. Usamos equipamentos em aço inoxidável para trabalhar essa matéria-prima e estocar alimentos. Instalamos três novos laboratórios na atual fase de expansão.

De que maneira o senhor administra toda essa estrutura?
A minha esposa, Maria Fernanda [na foto abaixo] é engenheira química formada pela Universidade de Campinas (Unicamp) e trabalha o dia todo na indústria. Aqui servimos o café da manhã às 7h. E tomamos café junto com nossos colaboradores. Essa proximidade facilita o zelo deles e a busca da excelência. Em ocasiões especiais, organizamos festas de confraternizações tradicionais, entre as elas, o Dia do Trabalhador, Dia das Mães e festas juninas.

Bernardo Alimentos faz ações sociais?
Sim. Onze menores encaminhados pelo Senai aprendem e trabalham conosco. Também contamos com a colaboração de dois portadores de necessidades especiais, já incorporados ao quadro de colaboradores. Nossos funcionários recebem cartão alimentação, desfrutam de horário de almoço em casa, têm área social com campo de futebol e churrasqueira. Quem quiser almoçar aqui, e alguns fazem isso, trazendo marmitas de casa, dispõe de mesas e local adequado.

E o apoio aos colaboradores?
Pelo convênio com o Serviço Social da Indústria (Sesi), mantemos um médico do trabalho de plantão. Duas vezes por semana oferecemos fisioterapeuta e dentista. Aos cuidados como lazer, incorporamos zelo higiênico: os banheiros na empresa são todos padronizados [o empresário conduz os repórteres para conhecer os banheiros da empresa]. Não há diferenças entre os banheiros utilizados pela diretoria e os que são utilizados pelos nossos colaboradores.Da mesma maneira, tomamos esses cuidados nos banheiros da sala de cursos e reuniões e na recepção aos visitantes. Todas as dependências industriais e administrativas ganham o mesmo padrão de qualidade material – boxes, azulejos, pias, espelhos, entre outros.

Agradecemos pela entrevista…
Quero agradecer a equipe do Expressão Rondônia pela oportunidade de falar um pouco da nossa trajetória em Rondônia. Nossa filosofia de trabalho segue os bons preceitos da igualdade de tratamento. Isso aí fala mais alto e agrada a todos.

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