HIRAN GALLO

Extremamente infeliz a recente declaração do ministro da Saúde, Ricardo Barros, ao afirmar, em entrevista, que os médicos “fingem trabalhar”. A repercussão desse comentário não poderia ser outra: as entidades médicas e a imprensa o acusaram de tentar transferir a responsabilidade pela crise que afeta a rede pública de assistência para os ombros dos profissionais da medicina.

Nesta quarta-feira (18), pela primeira vez depois desse mal-estar, o ministro Ricardo Barros estará frente-a-frente com as maiores lideranças da categoria. Será durante audiência, em Brasília (DF), quando o tema deverá ser tratado sem panos quentes e num diálogo tenso, com a abordagem de problemas que têm sido, estrategicamente, ignorados pelo gestor máximo do Sistema Único de Saúde (SUS).

Os médicos vão cobrar respeito pelo seu trabalho e o fim de provocações que em nada têm contribuído para melhorar o atendimento da população.

Entre os itens de reivindicação da categoria estão: o aumento da participação do Estado com o gasto sanitário total no País; a oferta de melhores condições de trabalho em hospitais e postos de saúde; e a implementação de uma gestão moderna e eficiente.

Como os brasileiros, os médicos também já não suportam mais o descaso com a rede pública, o que os tem obrigado a medidas quase heroicas para assegurar cuidados a pacientes de todas as idades. Não são poucos os profissionais que têm investido do próprio bolso na compra de medicamentos e de insumos necessários ao funcionamento das unidades de saúde. Assim, como há muitos que se mantém em seus postos, atendendo normalmente, mesmo com constantes atrasos de salário.

Ministro da Saúde, Ricardo Barros

Esse empenho dos médicos tem sido reconhecido pela população. Pesquisa do Datafolha, feita no segundo semestre de 2016, aponta a categoria como a que detém os maiores percentuais de confiança e de credibilidade junto aos brasileiros. Com 26% de preferência, fica à frente de professores e de bombeiros. Na lanterninha do ranking, com 0,3%, estão os políticos, classe representada pelo Ministro da saúde.

E mais: esse mesmo levantamento mostra que os brasileiros consideram que a gestão dos serviços atrapalha o desempenho dos médicos. Os constantes problemas de infraestrutura, os baixos salários pagos pelos gestores e a corrupção na saúde, entre outros fatores, são apontados como obstáculos que impactam negativamente na vida de pacientes e de profissionais.

É evidente que, como em todos os grupos, há indivíduos dos quais as categorias se orgulha e outros que renega. Não é diferente na medicina. Contudo, cabe ao Estado, no seu papel de administrador dos interesses públicos, assumir as rédeas da situação e eliminar possíveis distorções no se refere às regras de trabalho. Isso não somente é justo, como necessário.

Por outro lado, quando um Ministro de Estado parte para a generalização infundada assume para si o ônus da agressão gratuita contra um grupo de profissionais que, historicamente, tem contribuído para que a saúde do Brasil melhore seus indicadores, como as taxas de mortalidade materna e infantil, os índices de cobertura vacinal e o controle de doenças crônico-degenerativas.

Finalmente, neste espaço, não posso deixar de expressar meu ponto de vista pessoal sobre tudo o que tem ocorrido. Assim, compartilho com meus leitores e pessoas que comungam dos mesmos valores e princípios, minha indignação e revolta com os acontecimentos recentes que, na verdade, são apenas mais um capítulo numa longa sucessão de ataques injustos e gratuitos contra os que têm atuado de forma comprometida com a saúde dos brasileiros.

Aos tomadores de decisão, aos gestores em todas esferas, faço o meu apelo, que é o mesmo de milhares de pacientes e de médicos: basta de provocações. É tempo de deixar de lado cizânias e cuidar do que interessa, o Sistema Único de Saúde (SUS), tornando-o um modelo de atenção que ofereça aos brasileiros o acesso ao atendimento que precisam, sempre com qualidade, no momento em que estão mais frágeis e vulneráveis.

José Hiran da Silva Gallo
Doutor em Bioética
Diretor-Tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM)