Mara Paraguassu

A Petrobras sempre sofreu intervenções políticas ao longo de sua história, em grau e intensidade distintas, mas nunca um governo planejou e executou um plano amplo de uso da estatal como ocorreu nos mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. É  a conclusão da jornalista Roberta Paduan, autora do livro Petrobras: Uma história de orgulho e vergonha. Por mais de 15 anos, Roberta escreveu sobre óleo, energia e gás para a revista Exame.

Durante dois anos, em dedicação exclusiva, se debruçou sobre relatórios, inquéritos, depoimentos, atas, projetos e planos, entrevistou empregados colocados na geladeira ou não, familiares, engenheiros aposentados, políticos e diretores. Quando a Lava Jato desnudou a existência dos crimes partilhados sistematicamente por três partidos – PT, PP e PMDB – e empreiteiras, Roberta não acreditava na tese largamente difundida de que a estatal sofrera, desde 2003, o maior esquema de corrupção de todos os tempos.

Confrontada com os estudos feitos, em marco temporal de 32 anos, a jornalista, na obra de quase 400 paginas, tem a segurança de que em momento algum a Petrobras foi utilizada politicamente como foi, assumindo projetos caros e complexos ao mesmo tempo, muitos inacabados, gerando volumosas propinas em contratos milionários.   

Ex-presidente da petroleira no governo José Sarney, Osires Silva queixava-se: “O centro de decisão da Petrobras não fica na avenida Chile (Rio de Janeiro, sede da empresa), mas em Brasília.” E foi da capital federal que os petistas comandaram um projeto fundado solidamente nos interesses político-eleitorais, de longa permanência no poder, levando a Petrobras subir ao céu e descer ao inferno em apenas seis anos.

Interesses empresariais foram deixados de lado em momentos cruciais, causando prejuízos incalculáveis à empresa. Durante sua pesquisa, Roberta Paduan se deparou, claro, e os casos são relatados no livro, com a corrupção nos governos Sarney, Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.

Encontrou semelhança tremenda no que chama de projeto piloto de Collor para saquear a empresa e o projeto do clube de empreiteiras, partidos políticos e empregados da companhia nos anos petistas. Bem, Lula e Collor ficaram amigos íntimos, tão íntimos que o primeiro permitiu o ainda senador fazer o que bem quisesse na BR Distribuidora.   

É incrível como um partido de esquerda, aspas à vontade, que mobilizava petroleiros e esbravejava contra a privatização tenha sido, por ironia da história, o que desmoralizou a Petrobras, com mais de 60 anos de existência, para a alegria de setores da direita que sonhavam com sua desnacionalização.        

Roberta conta sobre o plano da Agencia Nacional de Petroleo (ANP) durante o governo FHC para acabar com o controle de preços dos derivados. Algo bombardeado pela oposição petista. Um engenhoso trabalho resultou numa formula que permitiu o reajuste mensal, acompanhando a cotação internacional do petróleo.

O consumidor industrial e outros agentes do setor passaram a conviver com as oscilações dos preços de mercado da nafta, querosene de aviação, óleo combustível e lubrificantes entre outros derivados do petróleo durante pouco mais de três anos. A liberação dos preços da gasolina e diesel nas refinarias só ocorreria no começo de 2002, último ano do segundo mandato de FHC.    

Inferno

Em 2003, bingo !, o governo Lula acaba com isso. Durante a posse de José Eduardo Dutra na presidência da Petrobras, a  então ministra Dilma Rousseff (Minas e Energia) afirma que o reajuste de combustíveis passava a ser uma decisão de governo e não da empresa. Na campanha de reeleição, Dilma mantinha os preços defasados para obter votos, uma política que entre 2010 e 2014 gerou perdas calculadas em R$ 159 bilhões à Petrobras.   

O inferno chega traduzido por gigantesca teia de corrupção em todas as diretorias, algo nunca antes visto, revelado ao Brasil no primeiro ano de operação Lava Jato, em 2014, que também lança luz sobre decisões palacianas orientadas por critérios políticos desastrosos, ignorando apelos de ordem técnica de empregados da estatal. É o caso da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, para a qual se associou a petroleira da Venezuela, mas nenhum centavo Hugo Chavez destinou à obra, iniciada sem o fundamental projeto básico, e de onde bilhões foram surrupiados.

A ruivinha

A jornalista reconstitui o processo de contratação de alguns desses projetos, orientados por critérios exclusivamente políticos. Há detalhes não revelados pela Lava Jato, como a refinaria de Pasadena ser chamada de “ruivinha”  por técnicos que a visitaram, dada a quantidade de ferrugem em suas instalações. Roberta nos conta mais:

  • Nunca em sua história a Petrobras havia realizado tantas substituições em cargos de segundo, terceiro e quarto escalões como aconteceu a partir de 2003, e o plano de carreira da estatal foi totalmente subvertido, com centenas de nomeações sem formação adequada;    
  • A Petrobras encampou diversos projetos, caríssimos, assumindo um terço dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007;
  • Somente em um trecho mais simples (A) da construção do gasoduto Urucu-Manaus teve 19 aditivos contratuais, elevando o preço do gasoduto de R$ 2,4 bilhões para R$ 4,5 bilhões, e apesar do aumento do preço da obra as empreiteiras não cumpriam prazo. A operação do gasoduto começou em novembro de 2009, um ano e oito meses depois do previsto; o engenheiro Gezio Andrade, especialista em gás, e que durante o processo de construção alertara sobre aditivos em desacordo com as normas da Petrobras, foi afastado pela Diretoria de Serviços, que gerava milhões em propinas;
  • A compra da refinaria de Pasadena é uma sucessão inacreditável de atos ilícitos, e nunca deveria ter sido feita: era um aditivo de baixa qualidade, que precisaria de volume enorme de investimentos para adaptar a tecnologia de refino de óleo leve para óleo pesado, objetivo da Petrobras ao decidir pela compra de uma refinaria no exterior ;
  • Cheia de ferrugem e deplorável, Pasadena, adquirida pela belga Astra por 42,5 milhões de dólares, custou ao contribuinte brasileiro a absurda quantia de quase 2 bilhões de dólares, e nunca foi adaptada para o objetivo da compra;
  • Presidente do Conselho de Administração da estatal durante alguns anos, Guido Mantega, super encrencado na Lava Jato, nunca fez reuniões do conselho na sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, preferindo, que diretores, assistentes e membros conselho se deslocassem para as reuniões em São Paulo ou Brasília, algo “absurdo” na opinião de diretores, pelo gasto que provocava; e
  • A combinação de alto nível de investimentos em projetos realizados ao mesmo tempo e muitos abandonados; baixo aumento da produção de petróleo, portanto, pouca receita adicional e a venda de produtos e preços defasados gerou explosão da dívida.

Essa dívida líquida, entre 2003 e 2015 explodiu de 6 bilhões de dólares para mais de 100 bilhões de dólares, fazendo da Petrobras a mais endividada entre as petroleiras de capital aberto do mundo.  

Foi assim, com pré-sal e todo o capital humano formado nas décadas de 60, 70 e 80, que um governo de 13 anos deixou a Petrobrás. Vital não esquecer, para não mais eleger.

Recomendo vivamente a leitura de Petrobras: Uma história de orgulho e vergonha

maraparaguassu1@gmail.com