MONTEZUMA CRUZ
Montezuma Cruz

Em outubro de 1967 deparava-me com a notícia da execução de Ernesto Che Guevara em La Higuera, Bolívia.  A primeira informação mundial saiu no Diário da Noite, da Capital paulista. Sua repórter Helle Alves estava no país vizinho e foi a única jornalista brasileira a ver o guerrilheiro morto.

Cinquenta anos atrás eu era jornaleiro de O Estado de S. Paulo em Teodoro Sampaio. O Estadão deu a notícia somente um dia depois. Nunca mais parei de ler.

Num casebre de Villagrande, o Exército Boliviano mostrou o corpo de Che, que foi executado a 9 de outubro de 1967. Os olhos abertos e as circunstâncias em que foi capturado e morto entraram para sempre na memória das pessoas. Não se falava noutro assunto. Ernesto Guevara de la Serna tinha garantido lugar permanente na história.

Imediatamente, após a matéria da privilegiada Helle, editores escalaram enviados especiais à Bolívia. Os jornais passavam de mão em mão.

Che não foi “apenas” o guerrilheiro. Médico e asmático desde os dois anos de idade, trabalhou em sanatório para leprosos, na Venezuela. Lutou no Congo e fez parte da revolução cubana. Nunca se abateu com a doença.

Em meu livro Do jeito que vi, o redator do Diário da Noite, Carlos Gilberto Alves (*) relata: “O Diário tinha a cultura do furo de reportagem. E às vezes furava ele mesmo. No dia nove de outubro de 1967, graças ao telegrama (**) de Helle Alves, saiu com a seguinte manchete: Guevara morre na Bolívia.

“Eram tempos do ‘parem as máquinas’. Refizemos a primeira página e o DN foi o único no mundo a dar essa notícia, em cima do fato. Horas depois, a segunda edição saiu com a seguinte manchete: La Paz em dúvida. Mas, na tarde de dez de outubro, Helle, ‘podre’ de cansaço, chegou e escreveu matéria antológica. Com as fotos do Mourão (Antônio Moura), que correram o mundo e vez por outra aparecem por aí, atribuídas a terceiros”.

Che pretendia estender a luta armada revolucionária a todo o Terceiro Mundo. Instalou grupos guerrilheiros em vários países da América Latina. Entre 1965 e 1967, lutou no Congo e na Bolívia. Sua captura e execução clandestina e sumária pelo exército boliviano, teve a colaboração direta da CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos.

O blog Gosto de Ler também lembra feito da repórter:

Aos 40 anos, em 1967, a jornalista ainda trabalhava nos Diários Associados (ao qual pertencia o Diário da Noite), seu maior furo de reportagem foi quando descobriu que era a única repórter do mundo a ver e a noticiar a morte de Che Guevara. Enquanto a imprensa internacional fazia a cobertura do julgamento do jornalista francês Régis Debray, acusado de participar da guerrilha na Bolívia, a jornalista perguntou para um militar que colecionava pássaros se já havia pego o pássaro grande e ele confirmou.

Helle Alves, a primeira a noticiar a morte de Che

Helle entendeu que Che estava morto na cidade vizinha e quando chegou em Valle Grande (Bolívia) pôde constatar que ele tinha acabado de morrer a tiros. “O povo queria ver o Che Guevara e derrubou o portão do lugar onde o corpo estava e uma roda se formou em torno do corpo. As pessoas curiosas queriam ver, mas não tinham coragem de tocar nele, eles diziam que parecia Jesus”.

A jornalista estava com o fotógrafo Antônio Moura e o cinegrafista Walter Gianello, assim que acabaram de capturar as imagens eles foram passar um telegrama para o Brasil contando que Che estava morto, mas para isso a jornalista teve que pagar para passar na frente de outros pedidos de telégrafos. “O homem disse que não sabia escrever em português, mas eu falei que não tinha problema, o que ele errasse eles consertariam lá na redação”. Helle esperou até o envio da última palavra e foi embora.

As fotos estão espalhadas pelo mundo inteiro, no entanto, as filmagens se perderam em um incêndio na TV Tupi. Helle foi processada pelo Exército porque não queriam que noticiasse a morte do guerrilheiro.

La Higuera entrou para a história: “coração e rostos dos que exigem justiça” /Lautaro Actis

Pais militantes políticos

Che nasceu em 14 de junho de 1928, em Rosário, importante cidade industrial da Argentina, em uma família classe média alta. Seu pai, o arquiteto e engenheiro civil Ernesto Guevara Lynch, era militante político, apoiou a resistência republicana na Guerra Civil Espanhola, nos anos de 1930, participou de campanhas para brecar a propaganda nazista nas Américas na Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, fez oposição ao governo de Juan Perón.

A mãe, Cella de la Serna, era igualmente ativista. Foi presa diversas vezes por sua militância política. Durante a juventude de Che, a casa dos Guevara vivia repleta de republicanos espanhóis e militantes socialistas.

Ao contrário do que se poderia imaginar, Che o desenvolveu uma personalidade fraca e indolente por causa da doença. A enfermidade tornou-se um desafio que ele aceitou sem nenhuma autocompaixão. Che foi dispensado do serviço militar argentino por incapacidade em virtude da asma.

Quando tinha 12 anos, sua família mudou-se para Córdoba, segunda maior cidade da Argentina, e foi viver próxima de uma favela. O menino brincava diariamente com as crianças pobres do lugar, uma atitude pouco comum para um filho de classe média alta. Nessa época, ele começou a pegar gosto pela leitura, pois seus pais tinham cerca de três mil livros em casa.

Tomou contato com a poesia, filosofia, história e arqueologia, dentre outros assuntos. Com isso, abriu novos horizontes e quis conhecer novos lugares. A primeira viagem foi uma travessia do território argentino de bicicleta promovida por uma empresa local. Em cada cidade que parava, comprava vários livros e, desde essa época, começou a escrever um diário, hábito que manteve por toda a vida.

Nesta lavanderia foi exposto o corpo de Che /Foto Lautaro Actis

O fotógrafo argentino Lautaro Actis foi à pequena cidade do interior boliviano e expõe cenas do cotidiano do local que entrou para definitivamente para a história em 1967

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Carlos Gilberto Alves


(*) Carlos Gilberto Alves, o Giba, foi chefe da sucursal da Empresa Brasileira de Notícias, na Avenida Sete de Setembro, em Porto Velho, entre 1985 e 1986.
(**) Telegrama é a comunicação transmitida ou recebida via telégrafo.

Nas paredes das cidades argentinas, bolivianas, cubanas e de outros lugares da América Latina /Foto Yage Lane – AFP

Leia em El País
“Foi duro a ordem para eliminar Che”

Félix Rodrígues, agente cubano da CIA, o homem que capturou Che e o avisou que seria executado /Foto Giorgio Viera