PORTO VELHO – Os principais frigoríficos de Rondônia estão recebendo a visita de inspetores internacionais e do próprio governo brasileiro, para afastar suspeitas levantadas pela operação Carne Fraca, da Polícia Federal, quanto à qualidade da carne brasileira. O prejuízo para as exportações brasileiras ainda estão sendo calculados, mas em Rondônia a Federação da Agricultura e Pecuária (Faperon) avalia em 600 milhões de dólares ao longo de um ano.

Hoje, 70% da nossa carne abastecem os mercados interno e externo

Na quinta-feira (6), fiscais do Ministério da Agricultura, Governo do Estado e representantes do setor produtivo inspecionaram frigoríficos em Rolim de Moura e Vilhena. Para esta semana está prevista a inspeção, por representantes da Arábia Saudita, ao frigorífico da JBS em Vilhena. O Oriente Médio é um dos destinos da carne produzida em Rondônia.

Técnico em agropecuária por formação e produtor rural, o presidente da Faperon, Hélio Dias de Souza, um migrante sul-mato-grossense de Dourados, que chegou a Rondônia em 1982, no primeiro ano da nova estrela que começava a brilhar no azul da União, vê exagero na forma de divulgação da operação da PF e aponta os prejuízos para a economia de Rondônia:

“Fomos diretamente afetados com a suspensão das exportações e as restrições impostas pelos países importadores também se estendem a Rondônia, afinal, 70% da nossa carne abastecem os mercados interno e externo, e a partir do momento que suspenderam os abates, na lei da procura e da oferta a queda ficou entre 10% e 15% no preço da arroba do boi”

Personagem desta Entrevista da Semana, Hélio Dias – encarnando a missão de resgatar a própria entidade que dirige, depois de ficar quase 30 anos sob a mesma administração – faz as contas e garante que, em 2015, o preço da arroba do boi era de 136 reais/142 na média, voltou pra 128 e agora caiu pra 123 reais, como efeito da operação Carne Fraca. E os custos de produção continuam subindo, adverte.

Casado, pai de dois filhos e com formação superior em pedagogia, Hélio Dias começou a carreira política como vereador em Rolim de Moura, eleito sete anos depois de chegar a Rondônia. Foi duas vezes prefeito do município de Castanheiras [93 a 96 e 2000 a 2004], foi secretário estadual adjunto por duas vezes [em 1998, na Ação Social e, em 2014, na Secretaria de Assuntos Estratégicos, Seae] e, em agosto de 2015 assumiu como presidente da Faperon, depois de demolir a ‘igrejinha’ montada na entidade por Chico Padre, que ficou presidente por quase 30 anos.

Carlos Araújo – A Operação Carne fraca feita pela Polícia levou a uma queda na exportação da carne brasileira. Esse problema afetou Rondônia diretamente?

Em reunião do setor produtivo

Hélio Dias – Eu entendo que a corrupção no Brasil já está encravada em vários setores da economia e não era diferente dentro do nosso setor do agro. Diretamente, o que eu entendi, o que eu vi dessa operação é que na verdade ela deveria atingir o cerne do problema, e acredito que ele seriam os corruptos, os fiscais agropecuários. Existe uma minoria que realmente levava vantagens de uma forma ou de outra, mas esse problema trouxe grande prejuízo pra Rondônia. Fomos diretamente afetados, como você viu e sabe, porque a partir do momento em que estourou a operação foram suspensas as exportações e as restrições impostas pelos países importadores se estenderam também a Rondônia, afinal, 70% da nossa carne abastecem os mercados interno e externo, e a partir do momento que suspenderam os abates, na lei da procura e da oferta a queda ficou entre 10% e 15% no preço da arroba do boi.

…perda dinheiro mesmo…

Logicamente, os produtores foram levados a perder dinheiro, porque os custos de produção das nossas atividades principalmente a pecuária de corte não baixaram, continuando no mesmo nível de 2015/2016, e lá atrás, em 2015, nós tínhamos preço de 136 reais/142 na média, voltou pra 128 e agora caiu pra 123 reais.

Na entrega da moto ao dirigente do sindicato de Machadinho do Oeste

A Federação tem estimativa do impacto financeiro dessa queda de preços na economia de Rondônia?

Se você considerar que o Estado de Rondônia estima um valor global de 500 a 600 milhões de dólares por ano. Se você jogar ai uns 10% de quebra só aí que a gente ver que tivemos um prejuízo significativo aí de 500/600 milhões de dólares na economia como um todo.

Aí todo mundo perdeu, perdeu tanto sem dúvida alguma. Os trabalhadores do segmento, o comércio e a indústria, enfim toda a cadeia produtiva que envolve o agro.
 

O que faz pelo produtor a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Rondônia?

A Federação da Agricultura e Pecuária de Rondônia é uma entidade sindical de caráter superior, formada por 25 sindicatos de produtores rurais organizados nas diferentes regiões do estado. De Cerejeiras a Guajará-Mirim, de lá até aqui, o maior objetivo do nosso sistema é fortalecer esse segmento do setor produtivo nas atividades econômicas do agronegócio. O segmento é abrangente, com destaque para a pecuária de corte, pecuária de leite, culturas do café e do cacau, hortifrutigranjeiros…O estado se destaca na criação intensiva, a suinocultura e avicultura, enfim, todas essas atividades de criação da parte animal e vegetal, que são o foco do nosso trabalho, fortalecendo o campo.

No estúdio da Rádio Globo em Porto Velho

O senhor pode explicar como funciona o plano safra? O custo, a maneira de ser menos oneroso para o produtor…

Nossos sindicatos trabalham na defesa de diversos problemas que afetam os interesses da categoria. A Faperon alinha problemas de ordem comercial, problemas de crédito rural. Nós temos uma das bandeiras do sindicalismo de Rondônia, e ela é a redução de custo do plano safra, que todos os anos está disponível nas redes bancárias para custeio investimentos nas atividades agropecuárias.

O sindicato e a Faperon trabalham de mãos dadas na luta para reduzir custos, melhorando a abrangência desse atendimento em benefício de um número maior de produtores. Trabalhamos muito forte na questão fundiária, que é um problema iminente no estado de Rondônia.

A titulação das áreas tem merecido o apoio de outras entidades, e o Governo do Estado dá todo apoio. A regulação desse setor fortalece nossos produtores.

Rondônia é um estado que está com 36 anos, e ficou conhecido por ser a terra onde a reforma agrária deu certo. É um estado que tem quase 100 mil pequenas propriedades rurais. Essas propriedades nunca foram regularizadas?

Concordo com você no sentido de dizer que a regulamentação fundiária deu certo em Rondônia, o modelo de reforma agrária os chamados PICs [Projeto Integrado de Colonização]. Ela deu certo, os assentamentos dirigidos de Ouro Preto do Oeste e de Sidney Girão, em Guajará-Mirim, Rolim de Moura, entre outros projetos eram antecipadamente cortados pelo Incra. Essas regiões, principalmente ao longo da BR-364, atraíram milhares de imigrantes produtores de outros estados, que para cá vieram e foram assentados. Essa primeira leva realmente foi um trabalho muito intenso do Incra; de 15 anos pra cá, novas fronteiras agrícolas surgiram no estado, e daí pra cá não se emitiu praticamente nenhum título praticamente em Rondônia. Foi uma titulação insignificante perante a demanda de áreas, e mesmo em assentamentos ela ficou à mercê da documentação, da imissão do título definitivo. Mesmo nessas áreas mais antigas nas quais o Incra distribuiu o que se denominou documentos precários/provisórios.

Esses títulos precários hoje são objeto de insegurança jurídica no campo, por duas razões: porque durante esse período favoreceu invasões por movimentos sociais, e a grande maioria das áreas altamente produtivas, como na região da grande Vilhena, Corumbiara e o outras do Vale do Jamari, então com isso.

Houve um acúmulo, mas eu acredito que em Rondônia carecem de regularização as novas áreas para assentamentos, tanto dirigidos como espontâneos, aquelas subdivididas, propriedades que eram 42 alqueires e se transformaram em três. Tudo deve ser feito perante a nova legislação, e com isso temos no mínimo mais de 30 mil propriedades que hoje carecem de receber a sua titulação, o seu reconhecimento formal pelo Incra.

Qual seria o impacto econômico dessa regularização fundiária hoje no estado?

Na economia, diretamente. Já existe um planejamento entre as instituições governamentais, um compromisso do setor produtivo com a sociedade para a titulação de 10 a 11 mil títulos este ano. A partir do momento em que esses produtores estiverem documentados, com o título reconhecido pelo Incra, eles terão acesso às linhas de crédito agropecuário, e com isso essas propriedades podem ingressar no sistema de financiamento rural, custeando assim suas despesas com a formação de lavouras, atividades agropecuárias em geral, injetando dinheiro na economia do estado de forma direta ou indireta a economia do estado.

Tem estimativa?

Não tenho, mas acredito que os valores são significativos, porque são mais de 10 a 12 mil propriedades que sairão da clandestinidade e virão para a legalidade. E o acesso aos agentes financeiros e ao crédito rural será mais fácil para os proprietários.

A Faperon montou algum plano ou programa pra fiscalizar e acompanhar o abate do boi em Rondônia? 

Nós, juntamente com a Fiero e demais entidades, estamos trabalhando em duas frentes: temos a frente administrativa e a parte produtiva, e esta, a do processamento aconteceu quinta-feira (6). Houve uma grande visita técnica, com a participação de dirigentes das Federações da Agricultura, da Indústria, da Fecomércio, da Agência Idaron. Nosso objetivo foi demonstrar para a sociedade que temos uma carne de primeira qualidade, segura, porque nossas plantas frigoríficas são uma das mais modernas do Brasil. Hoje, por exemplo, o Minerva de Rolim de Moura tem o que há de mais moderno no País, tanto que a Comunidade Europeia esteve o ano passado aqui, vistoriou essa planta e conheceu os sistemas de produção de algumas propriedades e fazendas de Rondônia. E realmente comprovou que nosso boi é criado a pasto, boi verde, natural, com acabamento de carcaça de dois a quatro meses à base de milho e farelo de soja, o que garante carne de qualidade.

No painel, a logomarca do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural

Foram momentos decisivos para a retomada dos negócios?

Desde 2015, quando entrei aqui, nossa diretoria tem uma preocupação muito grande pela qualidade da carne. Reunimos pecuaristas de todos os municípios, principalmente ao longo da BR-364, e com eles debatemos um formato da pecuária sustentável em Rondônia. Fazendo a nossa parte, a indústria fazendo a dela, somamos com o governo, que oferece incentivos ao setor. Aí teremos uma política forte que possa juntar essas forças por uma pecuária igualmente forte e rentável para o produtor, proporcionando empregos e divisas para o Estado, e também gerando emprego no meio urbano.

É o formato da cooperação…

Sim, desse entendimento está saindo agora um termo de cooperação técnica. Provavelmente vamos assinar esse documento agora na (Feira) Rondônia Rural Show. Produtores representados pela Faperon devem assinar esse termo em várias atribuições de nossa responsabilidade desde recuperação de pastagem, melhoria da capacidade genética de nosso rebanho  redução da idade de abate.

Enfim, são várias medidas previstas, numa demonstração da sustentabilidade da nossa criação, do nosso rebanho, a forma como a gente cria, e a sociedade saberá como trabalhamos.

As indústrias também serão parte do termo de colaboração. Elas se responsabilizarão pelo êxito de um período de cinco anos chamado de Programa Rondônia Pecuária Sustentável, e pelo qual os frigoríficos apoiarão várias ações do segmento produtivo.

Outra grande ação que vamos trabalhar em conjunto com a indústria é a implantação da balança do pecuarista na linha de abate. Além dessa balança do próprio frigorífico, vamos concretizar essa ideia em todos eles, com o grande objetivo da transparência, de fazer com que a cada dia exista a confiança entre pecuarista e frigoríficos do estado.

O senhor considera que o Brasil paga o preço da Operação Carne Fraca para combater um pequeno foco de corrupção, ou ele não era pequeno?

Eu acho que a corrupção está encravada na sociedade brasileira, mas temos aí o Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] com 11 mil e poucos funcionários, 2.600 fiscais agropecuários, o que significa muito pouco uns 30 desvirtuarem suas condutas profissionais. Então, eu ainda creio e confio. Nós temos um serviço de inspeção federal ainda confiável no Brasil e temos que confiar na ação do ministro Blairo Maggi, um empreendedor nato, pecuarista de grande porte. Pensamos que ele mudará a cara do Ministério e vai corrigir essas distorções, e não temos dúvida alguma, o Mapa será mais atuante, possibilitando que isso também aconteça nas federações.  Nós, em nossas entidades representativas, entendemos que o setor tão importante para a economia não pode pagar por tudo. O Brasil vem assistindo e sentido seu PIB [Produto Interno Bruto] ser manchado ou prejudicado por ações isoladas, mas é possível corrigir essas distorções. A gente continua sendo o primeiro exportador numa atividade, o segundo noutra.

Hélio Dias (em pé) debate com líderes sindicais do setor agropecuário

O que a Faperon faz pela pecuária leiteira atualmente?

A gente tem a responsabilidade de atuar de maneira firme administrativamente e tecnicamente em todas as atividades. Eu, hoje, vejo o leite como a atividade que melhor distribui renda em Rondônia. Nessa atividade temos uma capacidade de processamento dos nossos laticínios em torno de 4 milhões litros por dia.

Já foi maior essa produção?

Já foi maior, já chegou a 2.500 milhões a 2.600 milhões de forma que dobrou a capacidade de processamento de industrialização do nosso leite em forma de mussarela ou leite empacotado. Mas a nossa produção tem que tecnificar mais, e essa é a nossa preocupação. É também a preocupação da Secretaria de Agricultura e demais órgãos estaduais, no sentido de aprimorar as tecnologias apropriadas para o setor que agora tem vários programas dentro dessa área, tanto na gestão da Emater quanto no Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e de outras entidades, no sentido de aprimorarmos tecnologias de produção, levando as da Embrapa, o Balde Cheio,  por exemplo, que é um programa de apoio que apoio recomendado para micro, pequeno e médio produtor. Na mesma área ele pode produzir três a quatro vezes mais leite do que produz hoje, logicamente tendo a alimentação e a pastagem como ponto de apoio. pastagem de qualidade e também vacas com genéticas superiores Rondônia passou uns 10/15 anos, eu posso afirmar, havendo muitas linhas de crédito para produtores, porém, muitas vezes fazendo rodízios, adquirindo matrizes dentro do próprio estado. Isso não melhorou, e de dez anos pra cá nossa pecuária melhorou lentamente, estagnando a produção global e diária de leite no Estado. Com esses novos e novos pensamentos do governo e das entidades responsáveis pela assistência técnica, acredito que dentro de curto prazo poderemos dobrar a produção e otimizar as indústrias. Diferentemente de outras áreas como a do peixe, que tem a produção e não tem indústria do processamento, o leite nós trabalhamos com a capacidade ociosa de quase 40%%, 50%.

Rondônia se destaca como grande produtor de café, a Faperon acompanha a questão da manufatura desse café ou apenas a exportação de matéria-prima?

Nós temos a mesma preocupação com todos os elos da cadeia desde produção, o plantio, a condução, da cultura e também a comercialização e industrialização. A cafeicultura de Rondônia está renascendo; foi muito forte antigamente, no período da colonização de Rondônia. Mas esses cafezais foram se acabando, tendo produtividade baixa, e agora felizmente vemos a atividade se recuperar, graças ao trabalho de imigrantes capixabas e mineiros, que gostam da atividade e continuam firme segurando.

De três anos para cá tivemos uma reviravolta na cafeicultura de Rondônia, com a introdução de novas tecnologias: o café clonal, por exemplo, vindo da experiência bem sucedida da Embrapa em Ouro Preto do Oeste.

Produziram boas mudas, outros clones surgiram do próprio produtor, então foi essa soma de conhecimento que hoje é a base dos novos cafeeiros e novos plantios. Só este ano, mais de 16 milhões de mudas no período de 2016/2017 estão sendo plantadas. Assim, crescerá a área cultivada. Aqui, basicamente nós plantamos o Café Conilon, e hoje Rondônia é o 3º estado em termos de produção. Nossa área de café arábica é inexpressiva, pequena. Mais de 90% é mesmo do Conilon, e no ranking nacional nos somos o 3º. Mesmo assim, temos dificuldades com a comercialização e industrialização. A Faperon, juntamente com alguns setores do governo espera melhorias nos próximos anos.

E as exportações?

Nosso café atualmente é exportado, de maneira que praticamente 80% dele sai como matéria-prima para o sul do país e lá ele é industrializado e volta para Rondônia. Hoje, 70% do café moído de várias marcas vem de fora para as gôndolas dos supermercados. Somos produtores de matéria-prima, porém, nossa indústria é incipiente. Então, nossa preocupação é fortalecer as torrefações, no que contamos com a Fiero. Assim, no sentido de estarmos juntos com eles numa competição justa com as indústrias de Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e de São Paulo, que vêm normalmente competir conosco.

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