PORTO VELHO – O mosquito Mansonia é mais agressivo que outros já conhecidos na Amazônia e ataca os seres humanos quando entram em áreas de floresta, alertou esta semana o biólogo Flávio Aparecido Terassini, da Faculdade São Lucas, mestre pela Universidade de São Paulo (USP). Entre 2001 e 2003 ele trabalhou na região do Baixo Madeira e no Rio Machado, onde havia grande proliferação desse inseto. “No início da década pouco se sabia a respeito dele, porque o mosquito anofelino [Anopheles spp. Phlebotomineos, transmissor da malária] ocupava a maior parte dos artigos científicos”, lembra Terassini.

Para entomólogos, o Mansonia sempre foi abundante em áreas com águas e florestas, situação comum nos lagos das usinas hidrelétricas Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira.

“Estados Unidos e Canadá têm sérios problemas com ele, que não é algo específico aqui do Rio Madeira”, comenta. Desde 1999 o biólogo atua nas áreas da Zoologia e Parasitologia Médica, com doenças tropicais na Amazônia Ocidental Brasileira.

Biólogo Flávio Terassini

Até 2001 Terassini coletou mosquitos, barbeiros e carrapatos nos Rios Mamoré e Guaporé e, antes da construção das usinas já localizava e identificava muitos Mansonias nas barrancas dos rios. “Um dia coletamos 6 mil em uma hora [cerca de 100 por minuto]”, conta.

Os estudos foram feitos no Instituto de Ciências Biomédicas 5 USP em Monte Negro [Vale do Jamari, a 248 quilômetros de Porto Velho], em parceria com a Faculdade São Lucas.

Ao longo da pesquisa, ele constatou que a reprodução do Mansonia ocorreu em plantas, especialmente o aguapé [leia matéria nº 3 desta série]. Assim, a situação do Projeto Joana D’Arc e dos distritos de Nova Mutum-Paraná e Jacy-Paraná evidencia alterações ambientais [com cheias ou pelo próprio represamento] que resultam na sobrevivência de algumas espécies em detrimento de outras.

Com a cheia de 2014, o degelo dos Andes ocasionou muito acúmulo de água, e isso favoreceu a desova das fêmeas, explica o biólogo.

Além do aguapé, mais de 85% das larvas do mosquito Mansonia apareceram também nas vegetações Pontederia sp e Paspalum repens

Consequentemente, a infestação do mosquito, até então limitada à floresta, começou a ser vista em casas na zona urbana. “Eles migraram, atacando pessoas e animais”, constata o biólogo. “Mesmo não tendo relação com nenhuma doença na região, sua picada é dolorida e incomoda”, ele esclarece.

“Não é possível usar fumacê na floresta, nem na área rural; telar as casas pode resolver, usar repelentes, roupas com manga e calça também podem ajudar”, aconselha. Famílias ouvidas por Expressão Rondônia queixam-se de alguns reveses provocados por uso excessivo de inseticidas em latas. Houve casos de intoxicação e de alergia.

Mosquitos mortos, varridos no chão de uma casa em Nova Mutum-Paraná

Apesar de tudo, o biólogo acredita que a situação é passageira. Conforme observa, as populações de insetos “podem estar em grande quantidade num ano, e reduzidas no outro”.

Toma como exemplo a malária: os anofelinos estão cada vez mais dentro da floresta, onde vivem seus predadores, e ações governamentais auxiliam essa redução. “Na cidade temos muitos Aedes aegypti, por isso não temos os Mansonias e nem os Anopheles como antigamente”, diz.

No entanto, o biólogo adverte para o desmatamento na região da Ponta do Abunã. “Absurdamente, Rondônia hoje está com mais de 40% de seu território desmatado, o que provoca um desequilíbrio ambiental muito grande”.

Aí ocorre um descompasso: predadores desaparecem e outras espécies aumentam. “Se olharmos o mapa de satélite da região, nos dois lados do Rio Madeira veremos que o desmatamento aumentou muito e pode causar a proliferação dos Mansonias, porque eles gostam de ambientes antropizados”.

Recentemente, postaram em redes sociais que a infestação da mosquinha [Sciaridae], ou mosquitinho, em Porto Velho, decorria da construção das usinas. O biólogo refuta: “Verdade é que milhões de mosquitinhos foram fruto do desmatamento; eles se alimentam de fungos e de matéria orgânica em decomposição”.

Desmatamento no município de Porto Velho, do outro lado do Rio Madeira, no sentido Humaitá (AM)

Em fevereiro deste ano, na região de Nova Mutum-Paraná e Jacy-Paraná, a bióloga, mestre especialista em meio ambiente Káthia Inaja Pinheiro dos Santos coletou mosquitos Mansonia a pedido da direção de um escritório de advocacia de Porto Velho.

A ação resultou em três gêneros e quatro espécies: ao todo, 810 mosquitos [Diptera: Culicidae], usando-se a metodologia mais adequada para coleta de espécies hematófagas. Por atração humana protegida em Jacy-Paraná: 497 mosquitos; em Nova Mutum-Paraná: 313.

64 mosquitos picam uma pessoa por hora

Em Nova Mutum-Paraná, Khátia dos Santos  coletou apenas dois gêneros. Espécimes do gênero Mansonia foram outra vez os mais frequentes e numerosos nas amostras, representando 311 mosquitos (99,4%).

“Os valores do índice de picadas por homem hora variaram entre 17.0 e 64.00, o que quer dizer que no horário de menor quantidade estima-se 17 mosquitos picando uma pessoa e uma hora depois, segundo horário de 64.0 mosquitos picando um pessoa/h”, revela o estudo da bióloga.

Número de mosquitos Gênero Número de espécimes % IPHH
P1 = 1º hora de coleta Mansonia 17 8.7 17,0
P2 = 2º hora de coleta Mansonia 64 23.8 64,0
P3 = 3º hora de coleta Mansonia 42 16.7 42,0
P4 = 4º hora de coleta Mansonia 37 15.1 37,0
P5 = 5º hora de coleta Mansonia 45 17.7 45,0
P6 = 6º hora de coleta Mansonia 46 18.0 46,0

Número de indivíduos do gênero Mansonia coletados por hora, no distrito de Nova Mutum Paraná, no dia 13 de fevereiro de 2017, e sua frequência.
IPPH = índice de picada homem/hora.

“Dentre os Culicídeos coletados em Jaci Paraná, o gênero Mansonia sp. contribuiu com 96,8% dos indivíduos, distribuídos em seis horários, sempre em maior porcentagem, provavelmente picando as pessoas”.

“O índice de picadas por homem/hora foi maior no quinto horário. O IPHH geral desta localidades foi de 70.0 m/h/h no primeiro horário e de 87.0 m/h/h no quinto horário. Ou seja, existe um ambiente com maior probabilidade de perturbação para as pessoas”, ela constata.

Assim, Khátia concluiu que mais de 96% dos mosquitos que ocorrem nas duas localidades pertencem a esse gênero e os moradores nos dois distritos sofrem com isso. “A situação torna o ambiente impróprio para o convívio humano; as infestações incomodam a vida cotidiana das famílias”, acrescentou.

MONTEZUMA CRUZ
YTALO ANDRADE e Greenpeace (Fotos)

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