José Hiran da Silva Gallo; Doutor em Biotética; diretor do Conselho Federal de Medicina (CFM)

Nos últimos anos, o movimento médico brasileiro entendeu que, mais do que argumentos, é necessário mostrar quantitativamente a dimensão dos diferentes problemas que afetam o atendimento da população e a prática profissional. O Conselho Federal de Medicina (CFM) foi pioneiro nesta abordagem, sendo que, desde 2009, passou a divulgar diferentes levantamentos que ajudam a entender a dimensão da crise na área da saúde, em especial na rede pública.

Foi assim que vieram a público dados estarrecedores de falta de leitos, de precariedade na infraestrutura de postos de saúde e hospitais e de uso inadequado de recursos públicos destinados a essa área. Não é por acaso que, pela seriedade e coerência do trabalho realizado, o CFM passou a ser referência junto à imprensa e aos órgãos de fiscalização e controle quando o tema é acesso à assistência oferecida aos pacientes e qualidade dos serviços disponíveis.

Outras entidades médicas têm adotado a mesma estratégia e chamado a atenção da população e das autoridades para diferentes facetas do exercício da medicina, bem como de suas dificuldades. Uma das mais recentes a adotar esse caminho foi a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) que, com a ajuda do Datafolha, desenvolveu estudo que trouxe duas constatações relevantes e que apontam a necessidade de providências por parte dos gestores.

A primeira tem relação com as condições oferecidas nos estabelecimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). O resultado coloca médicos e pacientes na mesma situação: ambos são vítimas de gestões que não assumem suas tarefas de dotarem a rede de equipamentos, leitos, insumos e medicamentos, enfim, tudo que é necessário para prevenir, diagnosticar e tratar doenças.

Pelos dados revelados, a maioria dos pediatras brasileiros tem uma percepção negativa das condições de trabalho oferecidas nos serviços da rede pública. Para 85% dos entrevistados, a infraestrutura disponível oscila dentre os conceitos péssimo (15%), ruim (35%) e regular (35%).

As notas mais baixas atribuídas aos serviços do SUS predominaram nos municípios de regiões metropolitanas, onde 89% dos respondentes classificaram as instalações como ruins, péssimas ou regulares. Por outro lado, as avaliações mais positivas (bom ou ótimo) predominaram nas cidades do interior, com 15% das menções.

A exposição à violência no ambiente de trabalho configura outro sério problema apontado pelos pediatras brasileiros, na pesquisa. De acordo com o levantamento, dois em cada 10 pediatras afirmam que sofrem com frequência situações de violência no trabalho. Essa rotina de agressões afeta diretamente o cotidiano de 26% dos pediatras que trabalham apenas no SUS e de 26% dos que se dividem entre a rede pública e consultórios de planos de saúde.

O sentimento de exposição à violência é maior entre as mulheres (24%) e nas faixas etárias que vão de 26 a 34 e de 35 a 44 anos (30%em cada uma). Do ponto de vista da distribuição geográfica, a percepção é mais significativa nas regiões Norte (26%) e Sudeste (25%). Por outro lado, ela é menor no Sul do País (16%) e nos municípios do interior (19%), que é seis pontos percentuais abaixo do que se relatado nas regiões metropolitanas (24%).

Os dados revelam ainda que um quarto dos entrevistados sofreu agressão no trabalho nos últimos 12 meses. A agressão verbal é a mais comum. Isso se traduz na forma de insultos, xingamentos, ofensas ou intimidações. No entanto, há relatos de agressões físicas e psicológicas.

Contra dados números é difícil argumentar. Assim, sugerimos a quem cuida da saúde, no Brasil e em Rondônia, que procure conhecer esses dados. Eles não foram feitos com o objetivo da crítica, mas são contribuições para que se reflita sobre os rumos tomados no campo da assistência e se busquem soluções para os problemas indicados.

A classe médica quer colaborar com esse projeto de (re) construção, pois sabem o quanto ainda pode ser feito para que todos tenham a saúde que merecem.