PORTO VELHO – Estamos falando dos idos de 1980, quando ele partiu de Brasília para trabalhar na Embrapa em Porto Velho onde criou raízes profundas, conquistou amizades e a admiração de pessoas simples e de personalidades poderosas. Seu nome de batismo é Marcellin Champagnat Macedo de Medeiros, mas todos o chamam pelo apelido Macalé. Natural da cidade de Belém, no Pará, foi muito jovem residir no Rio de Janeiro e, depois de morar com a família em vários estados, seguiu rumo à Capital Federal, Brasília, onde por muitos anos exerceu a função que mais gosta de fazer na vida: pilotar aviões e virou, podem acreditar o comandante Marcellin Champagnat. Em Porto Velho, dentre os muitos amigos, um entre tantos se tornou mais que amigo, um quase irmão. O saudoso jornalista Paulo Queiroz, que virou nome de prestigiado prêmio de jornalismo.

Primeiro Bangalô, na Pinheiro Machado, marcando a noite de Porto Velho muito antes da calçada da fama

Casado há décadas com Marilene Gusmão com quem teve um casal de filhos, Marcelo e Luciana, Macalé tem mais dois rebentos do primeiro casamento. Rodrigo e Alessandra.

Aos 72 anos, Macalé com a esposa Marilene Gusmão: agora dedicação total aos netos

Por 20 anos Macalé comandou as noites e madrugadas do famoso Bangalô, o primeiro bar de Porto Velho a ter música ao vivo, inclusive, com canjas de nomes famosos da nossa música, como João Bosco, cuja música Papel Machê virou hino do bar, e Waldick Soriano, apenas para citar dois dos muitos artistas que por ali passaram. Isso sem falar nas deliciosas e inesquecíveis histórias que Macalé, com memória prodigiosa e senso de humor a mil por hora, conta nesta Entrevista da Semana.

A entrevista: por Carlos Araújo

Fotos: Tales Araújo e arquivo pessoal

Expressaorondonia – Quem é Macalé?

Macalé – Meu nome é estranho né. Marcelin Champagnat Macedo de Medeiros e foi uma escolha do meu pai, o senhor José Pinto de Medeiros. Sou filho dele, um artista plástico que fazia as pinturas do Colégio Marista por todo o Brasil, com a cabocla paraense Eliete Macedo de Medeiros. Nasci em Belém, em 21 de setembro de 1945, numa das passagens do meu pai pela cidade, a trabalho. Mas cresci no Rio de Janeiro e morei em várias cidades. Depois, me formei em ciências contábeis, fui para Brasília, contratado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e, de lá, fui transferido, em 1978, para ajudar a colonizar Rondônia.

Expressaorondonia – Em que momento você virou o Macalé?

Macalé – Meu grande amigo médico e senador Claudionor Roriz – que passou ao andar de cima, fora do combinado – e Caio Pena certa vez chegaram ao Bangalô, e o Claudionor me chamou e disse: Marcelin Champagnat é nome bom para se ter uma biblioteca, uma pinacoteca, não um bar. A partir de agora você será o Macalé e, nisso, até hoje todos me chamam de Macalé.

Marcellin Champagnat Macedo de Medeiros, virou Macalé, apelido dado pelo médico e senador Claudionor Roriz

Expressaorondonia – O teu pai era de certa forma um nômade?

Macalé – Sim, um artista plástico nômade.

Expressaorondonia – Mas contratado?

Macalé – Sim, porque ele terminava uma obra em um colégio e automaticamente o diretor gostava do serviço e passava e falava ao outro. Por isso eu estive em vários estados do Brasil e algumas cidades também, por exemplo, na Bahia, nós moramos em Salvador. A Catedral de Vitoria da Conquista, desde os bancos às obras sacras, tudo foi trabalhado pelo meu pai, que além de escultor, era marceneiro. No Rio de Janeiro nós moramos no Irajá. No Norte fluminense também tem uma catedral muito bonita que se chama Santo Antônio de Pádua Meu pai trabalhou nestas igrejas e, além dos quadros sacros e imagens, existe também uma pintura que ficou famosíssima, da época do monsenhor Diniz em tamanho natural e sentado com aquela continência. E um dos detalhes da obra do velho é o anel dele, a perfeição do anel no dedo do monsenhor Diniz é algo que chama a atenção.

Expressaorondonia – Um detalhe que destacou.

Macalé – Um detalhe que ele destacou.

Expressaorondonia – Poderia se dizer que seu pai foi para os Colégios Maristas do Brasil o que foi Michelangelo para o Vaticano.

Macalé – Exatamente, um pequeno Michelangelo.

Expressaorondonia – Michelangelo topicalizado.

Macalé – Obras fantásticas dele. A criação do mundo, por exemplo, que tem na cúpula de uma das igrejas é uma cópia fiel do Michelangelo, que o papai fez com muita perfeição e foi muito elogiado pelos críticos.

Expressaorondonia – Dessa convivência nos colégios religiosos e igrejas, sobrou alguma influência religiosa no Marcellin?

Macalé – Influencia religiosa é Católica. A gente mantém essa tradição, pois meus pais eram católicos e a gente sempre manteve a nossa linha de Católico Apostólico Romano.

Expressaorondonia – Agora vamos trazer um pouco para o nosso universo. Quando se deu o interesse por Rondônia?

Macalé – Como eu te falei, eu estava na Embrapa em Brasília e o chefe da Embrapa daqui, o Márcio, um grande amigo que também já nos deixou, fora do combinado. À época eu havia me separado e ele falou: você que ir para Rondônia? Eu falei que topava ir para Rondônia, propriamente em Porto Velho.

Expressaorondonia – Rondônia tinha um estigma nessa época como terra dos separados.

Macalé – Exatamente. Era aqui que todos os separados se encontravam.

Expressaorondonia – Em que ano que foi isso Macalé?

Macalé – Foi em 1978 para 1979. O governador era o Guedes e, depois, o Teixeirão. Fiquei na Embrapa e na época também trabalhei com o Teixeirão e acompanhei a transformação de território em estado. Isso me orgulha muito.

Expressaorondonia – E como foi àquela história do presente que você trouxe para entregar ao Teixeirão, mas tinha de ser entregue em mãos?

Macalé – Pois é. Essa é uma estória em off, pois é um segredo que a gente mantem durante muito tempo. Uma determinada pessoa, que era nossa amiga mandou para o Teixeirão um presente pessoal e, quando eu fui entregar, o chefe de gabinete disse: eu vou entregar para o Teixeira assim que ele chegar. Eu disse: desculpe, mas eu preciso entregar em mãos. É uma encomenda para ser entregue em MP (mão própria). Eu entreguei pessoalmente e ele agradeceu e ficamos muito amigos. Como te falei, sou piloto e ele era botina marrom, que é o detalhe dos paraquedistas do Exército. Desfrutei da amizade dele. Não como governador, mas como Teixeirão.

Um dos quadros pintados por frequentadores do Bangalô. Macalé não se lembra que é o autor da obra

Expressaorondonia – Você chegou ao estado em 1978/1979 e era funcionário público técnico do governo, como a maioria dos técnicos que vinham para cá naquela época. O bangalô nasceu em 1981, o que se fazia em Porto Velho nos fins de tardes antes do bangalô?

Macalé – Antes do Bangalô tinha alguns bares tradicionalistas aqui na Gonçalves Dias com Avenida Abunã, o Jangadeiro e o Te Guenta e ali era o nosso ponto de encontro, onde nos encontrávamos para tomar uma cervejinha. Nessa época todos de nível superior eram estrangeiros e, mesmo os rondonienses, tinham estudado fora, como nossos amigos o Sadeck, Clênio e outros. Pois bem, eu tive a ideia com minhas amigas Marilene e a Eloisa, de fazer um bar em que pudessem se encontrar todos os forasteiros, todos os profissionais liberais daquela época, e deu certo por que no bangalô da Pinheiro Machado se encontrava todos os dias os engenheiros, advogados, médicos, dentistas, funcionários públicos e ali se formou uma nação de ‘estrangeiros’ e de grandes amigos de quem só tenho lembranças maravilhosas, histórias maravilhosas e isto me deu muitas alegrias. Foram 20 anos de história, 12 na Pinheiro Machado e oito na Terreiro Aranha.

Expressaorondonia – Em que ano você fechou o bangalô?

Macalé – Fechei em 2000, então temos 17 anos sem bangalô. O que me alegra é que se comenta o bangalô como se ele ainda existisse. Ainda cobram cadê o sandubão do bangalô? Pois tínhamos uma característica que era o sandubão e os caldos do final de noite e era uma passada obrigatória antes das festas e após as festas. Eu sempre amanheci o dia, era uma época boa sem violência e fechávamos entre 8 e 9 horas da manhã.

Expressaorondonia – O que o levou a fechar o Bangalô?

Macalé – A idade chega e foram 20 anos de noite. A noite não é cansativa, principalmente para quem é notívago, é uma curtição, mas a administração durante o dia é cansativo e a nossa época de bar é diferente da atual. Hoje, qualquer um pode montar um bar porque tem a facilidade de ter tudo, tem as distribuidoras que trabalham 24 horas e tem as padarias que trabalham 24 horas. Na nossa época não. Tínhamos de nos virar no horário comercial, antes de abrir e comprar de uma maneira em que nada faltasse. Quantas vezes o bangalô deixou, após grandes festas, acabar  a cerveja, refrigerante, o pão?  Era necessário provisionar tudo antes, pois não tinha como esperar abrir a padaria, esperar abrir a distribuidora. Hoje não. Hoje é bem mais fácil.

“O Claudionor me chamou e disse: Marcelin Champagnat é nome bom para se ter uma biblioteca, uma pinacoteca, não um bar. A partir de agora você será o Macalé e, nisso, até hoje todos me chamam de Macalé”

Expressaorondonia – Das muitas histórias que rolaram no bangalô, o que você guarda na memória. Pode nos trazer algum caso interessante nestes 20 anos de bangalô?

Macalé – São histórias fantásticas. O Bangalô sempre teve histórias extraordinárias, mas existe uma que se tornou folclórica em todo o Brasil, com todo respeito ao amigo Juvenal (Advogado e procurador da Assembleia Legislativa), que também nos deixou fora do combinado. Nós tínhamos um escritoriozinho e uma vez o Juvenal ficou lá dormindo e tal. Falei com o vigilante para que assim que o doutor Juvenal acordasse ele abrisse a porta, porque de sábado para o domingo, eu amanhecia o dia, mas fechava às 10 horas da manhã. E esta história que virou um “causo” em todo o Brasil. Foi narrado sem o nome próprio dele. Em um domingo, uma determinada pessoa ligava para mim perguntando: Macalé, que horas você vai abrir o bangalô? Dez minutos depois novamente e eu atendia e dizia: eu não abro o bangalô aos domingos você não sabe disso. Dez minutos depois novamente, você não vai abrir o bangalô porque eu estou aqui dentro. E porque tu queres sair, eu perguntei? E ele respondeu: sair eu não quero não, mas acontece que acabou o gelo. O Antônio Marrocos montou essa história e como o Juvenal é um cara queridíssimo em toda a OAB do Brasil ele ligava e contava esse caso. Depois o Marrocos foi à internet e essa história segue sem o nome do Juvenal. É uma história fantástica.

Anúncio de aniversário de 3 anos do Bangalô, produzido pela Oana Publicidade e publicado no jornal O Estadão em 13 de dezembro de 1984

Expressaorondonia – Mas teve outras, igualmente engraçadas?

Macalé – Teve outra história engraçada de um grande amigo nosso que uma vez, era 9 horas da manhã do domingo, e ele muito bem acompanhado por duas damas da noite. De repente, para um carro e desce aquela senhora que era a esposa dele com uma sacola. Ela chegou, jogou a sacola em cima da mesa e falou: vagabundo isso é hora? Aqui está liquidado o assunto pode ficar por aqui mesmo. Voltou para o carro, deu partida, desligou o carro retornou à mesa, pegou a sacola e disse: não é assim não, vamos para casa, pois você tem filho para criar vagabundo.

Expressaorondonia – Desistiu do divórcio?

Macalé – Desistiu do divórcio. São histórias fantásticas. Teve um caso também muito interessante de dois grandes amigos nossos que estão vivos ainda. Eles discutiram e um saiu para pegar uma. Foi em casa, voltou e quando ele chegou o outro tinha saído também para pegar uma arma. Então não conseguiram se encontrar para resolver a discussão. Quando os dois se encontraram eu já havia guardado as armas, não teve discussão, não teve nada. Graças a Deus, nunca teve nenhuma violência no bangalô. Isso não existia, eram só brincadeiras e tivemos muitas.

Expressaorondonia – O bangalô era também um point de todos os políticos de Rondônia. Todos os governadores passaram por lá?

Macalé – Exatamente.

“O Teixeirão não era notívago, mas esteve no Bangalô uma vez. Desfrutei a amizade pessoal dele

Expressaorondonia – Teixeirão ia ao bangalô?

Macalé – Não era muito notívago, não, mas teve por lá uma vez me dando um abraço. Tive muita honra de receber o Piana, mas só foi ao bangalô depois de ser governador. É meu grande amigo  e também marcou a presença dele no bangalô, que tem muitas histórias da noite, de pessoas ilustres que passaram por lá. Por exemplo, à época o cantor e compositor João Bosco, começando a carreira, veio dar um show no Yes Bananas e como acontecia em todas as festas, ele foi para o bangalô e em uma  daquelas mesinhas ele cantou Papel Machê, que virou hino tema do bangalô por muitos e muitos anos e até hoje os antigos amigos quando toca essa música, lembram-se do bangalô.

Expressaorondonia – Virou o hino do Bangalô?

Macalé – Virou o hino. E quem teve por lá também foi o Waldick Soriano, veio dar um show também aqui e depois passou por lá e, com seu indefectível chapéu e seus óculos escuros deu uma canja. Com o pé em cima do banquinho cantou “Eu não sou cachorro, não”. Então têm histórias assim fantásticas, como a passagem da cantora Rogéria, Emilio Santiago, enfim… Também teve uma paraense que depois ficou famosíssima que era grande amiga do Zé Luiz, o dono do Yes Bananas que também antes de explodir na tevê e no rádio cantou no bangalô. E o bangalô se tornou o primeiro bar a ter música ao vivo por onde passaram grandes músicos como o Júlio Yriarte, Bado, Binho, os Casaras, a Marfiza que faz sucesso hoje no Rio de Janeiro, a Ciça, nosso amigo Bira Lourenço, à época ainda tinha os cabelinhos pretos, o Junior Batera, o Paulinho Batera, entre tantos. Sou um apaixonado por música e fiz da música uma das atrações do Bangalô.

Expressaorondonia – Tinha muito embate político, já que lá era o point de encontro dos técnicos e dos políticos?

Macalé – Teve muitas discussões e muitas apostas né. Na época de eleições, nós tínhamos o livro de apostas em que todos davam o seu palpite. A gente apostava e era muito interessante esse livro de aposta. São muitas histórias também quando houve as mudanças políticas, principalmente com os políticos do interior. Na época houve uma grande gozação.

“O João Bosco veio fazer um show em Porto Velho,foi ao Bangalô e cantou seu grande sucesso da época: papel machê. Virou hino do Bangalô”

Expressaorondonia – Você lembra se alguma candidatura nasceu de algum embate do bangalô?

Macalé – Tivemos algumas vitorias sim. Como você ver, em função da idade o HD me falha um pouco, mas eu sei que deputados saíram alguns de lá, o Piana, por exemplo, foi um candidato que saiu de lá, e mais outros deputados que frequentava o Bangalô.

Expressaorondonia – O Heitor Costa…

Macalé – Sim o Heitor também se elegeu. Era um frequentador assíduo, o bigodinho famoso. Sinto muita falta desse grande amigo, mas que está aí também, mas está igual ao Macalé, ou seja, já é avô. Aliás, todos nós dessa faixa etária ficamos mais presos à família e não da noite, pois agora existem os netos. Eu e a Marilene, por exemplo. Cancelamos inúmeros compromissos em função do Marcelo chegar e falar assim: papai a gente queria sair e não tem com quem deixar as crianças. Pronto está resolvido o problema: elas vão ficar com a gente.

Éramos todos jovens: Marilene, Macalé e e Helloísa, a Loura; os três fundadores do Bangalô e a parede onde os frequentadores deixavam suas marcas

Expressaorondonia – Como telespectador e partícipe privilegiado da nossa história recente que chegou aqui no limiar da transformação do território em estado, acompanhou essa transformação de Rondônia. Como avalia estes 35 anos de emancipação de Rondônia?

Macalé – Eu sou um apaixonado por esse estado, eu tenho uma paixão muito grande por ele e acompanhei o crescimento dele e vivo a pujança de Rondônia. Quando chegamos aqui o que nós produzíamos? Produzíamos nada.

Expressaorondonia – Era tudo comprado de fora né?

Macalé – Era tudo comprado fora. Aqui onde é Ipem, existia uma cooperativa da Codaron que recebia digamos, 10 mil litros de Leite e hoje nós produzimos milhões de litros de leite. Hoje nós temos um maior rebanho bovino do Norte, produzimos grãos fantasticamente em todo o estado. Então, isso muito me orgulha, orgulha meus filhos e vão orgulhar demais minhas netas. Quanto ao problema político, eu acredito que haja algumas mudanças, que deem oportunidades aos jovens. E quando eu falo jovens, não me refiro à idade, falo dos jovens políticos, de novos partidos que venham com o intuito de dar uma pujança maior ao estado e consigam verbas para atender o que for necessário. Eu bem sei, porque estive no serviço público, que não é fácil administrar,

Expressaorondonia – Quero fazer um contra ponto contigo a respeito do prefeito Hildon, que foi eleito ano passado dentro dessa novidade que é o político não político. Como é que você avalia esse primeiro ano de gestão do Hildon?

Macalé – Tenho certeza que o Hildon vai dar continuidade a administração dele fora de política, porque ele é um gestor e eu acredito muito no Hildon. Tenho certeza que ele vai concluir o mandato dele com bons resultados, pois tem feito muito por Porto Velho. Acredito que os resultados vão ser positivos, mas como eu te falei é uma cidade grande e não foi planejada e sabemos que é um pouco desorganizada. Foi crescendo na marra né?

Expressaorondonia – Como era Porto Velho quando o Macalé, ou melhor, o Marcellin, chegou por aqui? A cidade já ultrapassava a Jorge Teixeira, antiga rua Kennedy ou era até ali um pouco no limite da rodoviária, um pouco mais?

Macalé – Era exatamente até ali.

Expressaorondonia – Você sempre morou aqui no Santo Antônio?

Macalé – Estou há 35 anos aqui no Santo Antônio. Isso aqui só tinha areia e saúva e na época foi um horror para os técnicos que chegavam para trabalhar no serviço público. O Texeirão mandou construir 250 casas para os técnicos de nível superior do governo e muitos rasgaram o contrato, devolveram a chave dizendo assim: esse governador não nós respeita. Como é que nós vamos morar tão longe assim? Tão longe que era o Santo Antônio e hoje é um bairro central perfeito, perto de tudo e de todos. Para ir ao aeroporto era uma vielazinha aqui na Campos Salles que passava pela cascalheira até chegar lá. Mas isso aqui foi uma das grandes obras do Teixeira esse conjunto, onde criamos nossos filhos  e agora nossas netas. Tenho certeza que a nossa capital vai ser uma grande capital ainda.

Expressaorondonia – E com o Manelão, o General da Banda, como era seu relacionamento? O General da Banda era um frequentador assíduo do bangalô?

Macalé – Desculpas, eu até me emociono (enxugando as lágrimas), Manelão era um irmão querido, era um cara fantástico, nós éramos grandes amigos, trocávamos ideias e éramos grandes gozadores. Quando a gente se sentava, além de falar de todos e contar as histórias de todos e temos um amigo em comum muito querido que fazia parte da nossa rodinha de conversa que é o Chiquito Paiva.

Manelão era um grande amigo, praticamente um irmão, para Macalé

Expressaorondonia – Chiquito Paiva grande figura!

Macalé – Figuraça! Na época da banda, o Manelão contava aquelas histórias todas e tinha uma, com grande respeito, é obvio, que era gozação e é bom manter isso, pois faz parte da história da banda. Na semana da banda a gente perguntava e ai Manelão como é que está ai o caixa da banda? E ele respondia: “esse ano está mal. Esse ano vou ter  de pôr do meu bolso de novo, vou ter que vender umas cabeças de gado e tal, vou ter que baixar uma por que vender camiseta não vai dá”.

Expressaorondonia – Na verdade todo ano era isso!

Macalé – Todo ano a mesma ladainha, mas a banda saia pelo esforço desse grande herói e continua saindo, nesse belo trabalho que a filha dele, a Siça, está realizando com toda garra.

Expressaorondonia – A Siça dá um show né!

Macalé – A Siça está dando um show. Eu a vi criança.  Ela é uma das crianças filhas de amigos nossos que frequentavam o Bangalô com os filhos, por que lá nós servíamos pipoca para a garotada. Hoje, já são mulheres e homens que já tem filhos também, são engenheiros, doutores, advogados, que na época iam com os pais, com o tio comer pipoca, amendoim e batata frita que era muito comum para eles. Mas eu sempre menciono o Bangalô e agradeço esse nome que tenho através do Bangalô. Mas não posso deixar de mencionar que a história do Bangalô só existe pela dedicação de duas mulheres fantásticas.

Expressaorondonia – Quem são?

Macalé – São a Marilene, minha querida esposa e a Eloisa, que todos nós conhecíamos como Loura, funcionária do governo e muito querida por todos. Gaúcha, ela tem alguns defeitos, por exemplo, ser gremista, mas nem todo mundo é perfeito (risos).

Expressaorondonia – De onde surgiu o nome Bangalô. Qual foi a ideia de bangalô?

Macalé – Detalhe interessante, Aquela casa do Jacob Atallah tem o formato arquitetônico de bangalô aquele estilo de casa com aquelas varandinhas, é o estilo antigo de arquitetura que se chamava de bangalô. Então, na época eu achei bonito. Eu estava saindo do clássico ambiente de lojas quadradas e fui para uma casa completamente diferente em que transformei dois quartos em duas salas privadas. Na frente, a sala principal e, na varanda era o ponto de encontro de todos, onde tinha a mesa cinco que era no canto esquerdo e era o ponto de encontro de todos os nossos amigos queridos tanto os que aqui estão quanto os que já subiram antes do combinado que fazem falta como meu amigo Aldo Castanheira, Hugo Mota, Paulo Queiroz, Manelão.

Expressaorondonia – Por falar em Manelão, sabendo que você também é piloto, como é aquela estória que o Manelão dizia ser piloto comercial e que uma vez pediu ao comandante para aterrissar um Boeing aqui?

Macalé – Essa é uma daquelas ‘estórias’ do Manelão, que sempre falou que era piloto.

Expressaorondonia – Ele era piloto mesmo?

Macalé – Eu te juro que honestamente não sei, acho que ele começou a fazer o curso, mas não terminou. Como tinha alguém nas proporções dele que era o Ruizinho, dono de uma empresa de taxi aéreo, a Tama. O Ruizinho era do tamanho do Manelão e era um grande piloto da época, um verdadeiro herói. Pilotos que voavam aqui numa época que só tinha a rádio Caiari e não tinha GPS. Eles colocavam o aparelho MDB na proa e uma antenazinha apontada para torre da Caiari, mas quando o tempo estava ruim, cada raio que dava tremia a antena e tirava-a da direção. Então, o cara tinha de conhecer até os Ipês para usar as árvores como guia. Chamavam de voo do macaco.

Expressaorondonia – É o Manelão chegou a te contar essa estória?

Macalé – Sim ele contava essa estória e o Chiquito Paiva que estava junto me cutucava e comentava bem baixinho em tom de gozação: ‘comandante Manelão’. Gargalhadas.

Expressaorondonia – Como vê a noite de Porto Velho hoje?

Macalé – Quando abri o Bangalô, existiam três bares na Pinheiro Machado. O mais tradicional de todos, que eu tinha o maior respeito pelo grande amigo também que era um ‘pé sujo’ tradicionalismo e ficava na Pinheiro Machado com Campos Salles, o Meio Quilo Bar e esse era o mais antigo. Tinha a Taba do Cacique e depois veio o Bangalô, Hoje, só na Pinheiro Machado, de ponta a ponta, tem mais de 50 bares.

Expressaorondonia – Só no treco do bangalô ali tem uns 10…

Macalé – É a famosa “calçada da fama”. Na época a Pinheiro Machado era mão dupla inclusive era local onde se deixava carro aberto, carro com chave, quantas vezes eu guardava o carro e a chave para o cara buscar no outro dia. Hoje, realmente é difícil, pois poucos bares amanhecem o dia. Eu sempre amanheci o dia e sem nenhum problema de violência e nada que pudesse apagar o brilho do Bangalô. Nossa cozinha era uma cozinha que tive muito capricho e eu sempre fui muito chato com comida e nós criamos o Sandubão em função do Yes Bananas. Eu fiz um sanduiche frio e dei o nome de ‘Yes Bangalô’. Quem voltava das festas comia o tradicional sandubão ‘Yes Bangalô’, que era levado para casa. E tínhamos os caldos – o principal e o mais tradicional era o de caranguejo -, o caldo verde e caldo de carne que também era tradicional.

Expressaorondonia – E de onde compravas caranguejo para fazer os caldos?

Macalé – Na época o caranguejo vinha de Belém. Comprava na Casa do Camarão, com meu grande amigo Raul. Eu servia tanto o caldo de caranguejo como também a casquinha do caranguejo.

Expressaorondonia – Algum detalhe de sua vida ou do Bangalô que nós deixamos de abordar aqui na entrevista e que você gostaria de realçar?

Macalé – Só quero realçar o seguinte: nesses 20 anos de Bangalô ele só me trouxe alegrias, amizades, grandes amizades, amigos honestos e isso, às vezes, me dá esse choro de saudades, sou muito emotivo. Não tenho mais idade nem preparo físico pra continuar na noite, mas se eu pudesse eu continuaria.

Expressaorondonia – Em algum momento, você se sentiu o rei da noite de Porto Velho, o nosso Ricardo Amaral?

Macalé – Não. Mas, de certa forma gostava de ser chamada assim. Eu tinha essa vaidade e quando falo vaidade é pelos elogios. Mas entendo que dei sorte. E o Bangalô era uma referência, onde aconteciam muitos encontros que terminavam em noivados, casamentos. Às vezes, os noivos saíam do casamento direto para o Bangalô. Era uma festa…

Expressaorondonia – Teve ameaças de divórcios, mas também teve de casamentos?

Macalé – Tivemos muitas histórias, Tudo isso me envaidece muito e me deixa muito feliz. São lembranças sem igual.

Tive algumas dificuldades financeiras com o Bangalô, mas tive doses muito generosas de prazer e construir muitas amizades

Expressaorondonia – Uma coisa está devidamente percebida, que o bangalô te deu muito prazer, construiu amizades. O Bangalô dava lucro?

Macalé – Vou dá um conselho para quem começa um negócio e principalmente na noite, no comércio em geral e falo com convicção. Você não pode misturar amizade com comércio. Tem que ter amizades, mas amigos, amigos negócios à parte. No final do Bangalô, eu cheguei a um ponto de amizade tamanha que, como na época não tinha maquininha de passar cartão como tem agora, então o que acontecia é que os penduras e amizade era tamanha que, por exemplo, se você assinasse uma nota, você me pagaria e eu tinha certeza disto, mas devido o tempo, viajava e voltada e eu ficava com vergonha de te cobrar tamanha era a amizade e isso me enfraqueceu um pouco financeiramente, pois eu tinha de comprar à vista e ter aquele dinheiro no caixa e não tinha. Às vezes eu tinha de receber, e, por exemplo, nunca deixei de ir ao Tribunal de Contas, Tribunal de Justiça para receber uma conta e não receber, mas eu me sentia constrangido.

Expressaorondonia – Já finalizando, quero te agradecer por esse encontro, uma satisfação reviver boas histórias da nossa Porto Velho.

Macalé – Eu que devo agradecer a você por essa oportunidade de contar essas nossas histórias e as nossas histórias. Continuo dizendo que, o Bangalô me fez grandes amigos e me deu grandes amizades e me deu grandes satisfações e que todos que por lá passaram são meus amigos, pois não existe na história do Bangalô alguém que possa ter alguma magoa. Não acredito que haja, por que eu sempre fui um notívago. A profissão de dono de bar é uma profissão árdua, por que você tem que entender que aquele seu cliente bebeu e ele se alterou um pouquinho. Então, você tem que entender e eu fiz isso tudo e nunca discuti com cliente. Se o cliente chegava e dizia “esse uísque não está bom”, eu, imediatamente, trocava. Se um tira gosto não estava bom, eu trocava. Você tem de atender e entender o cliente, pois ele é a razão do teu negócio, porém, ele pode te distratar e te ofender. Mas se você é um cara da noite e entende a noite você vai compreendê-lo. E nesses anos eu tive histórias fantásticas. Gostaria de deixar registrada que na Tenreiro Aranha o Bangalô foi uma referência por duas coisas: não falei do ‘Baile do Vai quem Phode’, uma criação do Sérgio Valente nosso grande amigo e nosso jornalista querido, meu irmão querido; e nós criamos um baile que se chamava “só vai quem phode”, assim mesmo, com ph, no bom sentido.

Expressaorondonia – Era o baile de abertura do carnaval?

Macalé – Era o de abertura que era na quinta-feira, e no sábado no dia na banda, ali era concentração de todos que iriam pegar a banda naquela passagem. Éramos um tradicional ponto de referência. Não tinha jeito: depois do desfile da Banda iam todos para o Bangalô. Tudo isso e agradeço aos meus dois amigos Sergio Valente e Manelão, que estão lá em cima.

Expressaorondonia – Que Deus os tenha!

Macalé – Que Deus o tenha

Expressaorondonia – E que nos mantenha por aqui mais um tempo.

Macalé – Já falei com o Miltão que o meu apartamento lá em frente a Unir pode prorrogar o prazo para ocupação. Não tenho pressa, não (risos).

Expressaorondonia – Mais uma vez muito obrigado.

Macalé – Espero que faça uma matéria boa, eu acompanho o seu trabalho, com matérias muito inteligentes e sem falsetes, como o bom jornalismo tem de ser. O Facebook, infelizmente tem coisas boas e coisas ruins e muita falsidade, muita mentira, muita coisa desagradável.