PORTO VELHO – Sem apoio do Estado ou do Município, aos trancos e barrancos, projetos sociais resgatam centenas de pessoas das drogas e do crime em Porto Velho. Contando apenas com apoio de voluntários e da caridade de pessoas comuns, individualmente, esses projetos sociais chegam a abrigar, em tempo integral, dezenas de homens e mulheres, de todas as idades e nível escolar, que, sem amparo, fatalmente acabariam nas ruas ou na prática de crimes, engrossando a já extensa fileira de apenados que há em Rondônia.

Fachada da ‘Comunidade Geração Eleita’, na Zona Norte de Porto Velho, onde, nesse prédio, residem 45 internos.

A reportagem do expressaorondonia.com visitou dois desses projetos e conversou com seus mantenedores e internos. O primeiro a ser visitado foi o projeto intitulado ‘Comunidade Geração Eleita’. Segundo o pastor Ivanilson Teles, responsável pela moradia e assistência alimentar e de saúde de 45 homens e 15 mulheres, com idades entre 18 e 60 anos, o termo ‘comunidade’ afere à iniciativa um aspecto mais familiar e afetivo.

Fazendo serviço de ourives (profissão que aprendeu quando morava nas ruas) e com apoio parco dos poucos voluntários que se devotam na prestação de serviço e doação de pequenos valores e bens úteis às atividades diárias dos internos, o pastor conta que consegue oferecer o mínimo de conforto e dignidade às pessoas que se dignou a ajudar.

Pastor Ivanilson Teles que, com apoio de voluntários e doadores, assiste mais de 60 ex-moradores de rua.

Questionado sobre valores e despesas mensais, ele diz que chega a gastar cerca de R$ 10 mil só com alimentação, roupas e remédios, além de R$ 2,5 mil com aluguel, por dois imóveis onde são mantidos, separadamente, homens e mulheres, mais 1,3 mil com energia. “Os internos são separados por sexo, para que mantenham o foco na recuperação através da oração e do labor diário”, salienta.

HISTÓRIA DO PROJETO

A ‘Comunidade Geração Eleita’ teve início em 2014, através do trabalho voluntário de evangelização feito por uma assistente social e um médico, identificados apenas como A.P. e Charles. “Os dois faziam o trabalho de evangelização nas ruas e decidiram alugar uma casa, com dinheiro do próprio bolso, cerca de R$ 1,3 mil, para alojar as pessoas resgatadas das ruas”, informou Ivanilson Teles.

Logo o projeto ganhou força e passou a contar com apoio de um pastor, identificado como Alberto, um interno que havia sido resgatado das drogas pelo projeto. Com o tempo ele acabou virando voluntário. Três meses depois, devido a falta de apoio financeiro, o médico e a assistente social desistiram do trabalho social e foram embora. “Mas agradeço aos dois, foi com a iniciativa deles que também fui retirado das ruas e afastado das drogas”, diz Ivanilson Teles.

Pouco tempo depois da partida dos fundadores do projeto, o pastor Alberto também desistiu e foi embora. Outro pastor, Edilson Pantoja, assumiu a comunidade, mas ele também não conseguiu manter o projeto por muito tempo, devido às despesas e a falta de recurso. “Com três meses de fundação, o projeto já assistia 12 pessoas, totalmente dependentes dele. O pastor viu-se sozinho e mandou todos os internos embora, em seguida ligou para o corretor responsável pela casa e entregou o imóvel. Foi uma barra!”, relata o pastor Ivanilson.

Em local precário, internos cozinham seus alimentos em fogão a lenha. Rotina mantém o grupo focado na reabilitação.Mas o que parecia ser uma derrota despertou um leão. “Todo mundo estava arrumando as coisas quando olhamos um para o outro. A mesma pergunta estava no olhar de todos: ‘e agora?’. Oramos por meia hora e a palavra de Deus nos encorajou a ficar e manter aquela casa com nosso próprio esforço”, relembra. “Sou ourives e, com um trabalho aqui, outro ali, consegui juntar dinheiro para pagar as contas e o aluguel”.

RESGATE DE VIDAS                                            

Segundo o pastor, o projeto atende pessoas que buscam recuperação de todos os tipos de vícios em álcool e em outras drogas. O mais comum, entretanto, é o crack. “É a pior droga que existe”, salienta. “A pessoa fica desacreditada e acaba abandonada pela família. Muitos dos assistidos pelo projeto dependem de remédios, acompanhamento com psiquiatras e psicólogos que são cedidos ou atendidos pelo Caps AD (Álcool e Drogas)”.

APOIO

“Não consegui ainda ajuda do Estado ou do Município devido a burocracia, mas estou juntando os documentos necessários para pleitear um apoio institucional, sozinho é muito complicado”.

De acordo com o pastor Ivanilson Teles, quem quiser doar qualquer coisa à ‘comunidade’, basta entrar em contato pelo telefone (69) 9 9364-4614. “Quem quiser visitar o projeto, ele está localizado na rua Dagmar Bentes de Lima (antiga Rua 6), subesquina com a Alexandre Guimarães”.

Com um ar sereno e comedido no falar, o pastor afirma que, hoje, em Porto Velho, existem quase mil pessoas em situação de rua. “Se tivesse ajuda institucional, poderia resgatar mais gente, devolvendo-as a dignidade e o gosto pela vida”, acentua em tom de lamento e súplica.

Projeto ‘Acriar’, que funciona no sítio Emanuel, ganhou sede moderna, com academia para os internos.

Mas, mesmo com toda dificuldade, a ‘Geração Eleita’ progride. “Conseguiu    uma chácara onde pretendo  manter 120 homens e 40 mulheres. Lá a gente pretende construir uma granja e horta para manutenção dos internos e comercialização. O recurso obtido será revertido em prol da própria comunidade”, destaca.

SEGUNDO PROJETO

O segundo projeto visitado pela reportagem do Expressaorondonia fica localizado na área rural de Porto Velho, com acesso pela Estrada da Penal. O projeto ‘Acriar’, que funciona no sítio Emanuel, foi fundado há mais de 10 anos, pelo desembargador Renato Mimessi.

Acolhendo atualmente 18 homens, a ‘Acriar’ presta assistência aos ex-moradores de rua, garantindo alimentação, saúde, trabalho e reabilitação, contando apenas com apoio de voluntários da Associação Cristã de Ações na Rua (Acriar). Todo dinheiro captado é por meio de doações financeiras e recursos liberados através de alvará judicial.

“Aqui, os internos vão e vêm quando querem”, afirma Jucinei Silva Souza, de 47 anos, que há cinco anos mora e trabalha voluntariamente no sítio Emanuel. Segundo ele, para ter acesso ao espaço o interessado participa de uma triagem, que é feita no centro de assistência da Acriar, no bairro Conceição, próximo ao hospital João Paulo II, na Zona Sul da capital.

Recuperandos do Acriar, além de plantar, trabalham com criação de animais.

Jucinei Silva, o interno mais velho do projeto, diz que não chegou a morar na rua, “mas era questão de tempo”. Ele chegou a usar cocaína, álcool e maconha. “Morava com meus pais e decidi procurar ajuda para deixar o vício”, conta. Depois de cinco anos curado, não quis ir embora, se tornou voluntário no projeto que ora é coordenado por um pastor, identificado apenas como Levy (no momento da visita da reportagem ao local, o pastor não estava).

O trabalho de recuperação tem ligação direta com o labor diário e com a religiosidade. “Aqui existe um rito diário que ajuda a manter a pessoa centrada, com afazeres diversos (laboterapia), oração e alimentação”, salienta Jucinei Silva, acrescentando que, quase tudo que é consumido pelos internos, é produzido por eles que, além de plantar, se ocupam no cuidado de animais e produção de móveis, “Temos uma marcenaria onde, em breve, será oferecido curso profissionalizante”, destaca.

TEMPO PARA RECUPERAÇÃO

Questionado sobre o tempo mínimo para uma pessoa se recuperar do vício, Jucinei Silva pensa um pouco e responde com cautela: “Varia de pessoa para pessoa, mas, no geral, seis meses é o tempo mínimo para não sentir mais falta da droga. Contudo pode haver recaída”, alerta. Segundo ele, o tratamento espiritual tem grande influencia para que o usuário abandone o vício de vez.

Uma das vantagens da Acriar é que, depois do tratamento, o projeto faz o acompanhamento da pessoa e, em alguns casos, também o acompanha na busca por emprego. “Uma iniciativa dessa, para a sociedade, é muito importante, porque recupera pessoas que, não raramente, acabariam no mundo do crime”, comenta Jucinei Silva.

TESTEMUNHO DE VIDA

Projetos sociais como os apresentados nesta matéria salvam vidas e devolvem a dignidade a quem, em muitos casos, têm apenas a existência como bem. Exemplo disso é o jovem E. V. da Silva, de 34 anos. Ele conta que descobriu as drogas aos 18 anos, logo após abandonar o seminário, onde se formou em Teologia.

Ele diz ter sido vítima de abusos sexuais, por isso resolveu abandonar os estudos como seminarista e se converteu ao protestantismo, passando a frequentar a igreja Assembleia de Deus. Logo teve decepções familiares e resolveu ir morar só, trabalhava em uma faculdade particular e, depois de ser demitido do emprego, com a rescisão, cerca de R$ 5 mil, passou a investir no tráfico de drogas.

Ele revela que as pessoas do seu convívio sempre bebiam e, certa vez, em um bar, conheceu um rapaz que perguntou se ele queria ganhar dinheiro. Convencido, iniciou investindo R$ 400. Ficou animado com o resultado e montou uma equipe, investindo cada vez mais, ganhou muito dinheiro. “Mas aí cometi um erro fatal, passei a consumir e me viciei”.

Devido ao comércio de entorpecente, a casa dos pais de E. V começou a ser frequentada por muitas pessoas estranhas. “O passo seguinte foi o batismo em uma facção perigosa que teve origem no Rio de Janeiro. Foi uma loucura, usava drogas e também comecei a traficar grande quantidade de drogas, mas nunca fui preso”, diz, afirmando que não se orgulha de nada do que fez. “Meu sonho sempre foi ter paz e ser um cidadão como qualquer outro”.

Everton se envolveu em várias outras situações de crime, fugiu diversas vezes para não ser morto, roubou dos próprios pais e, depois de intenso envolvimento com facção criminosa e com o narcotráfico, perdeu todo o dinheiro e bens conquistados com a venda de droga. “Acabei na rua, na rodoviária. Lá, uma pessoa me estendeu a mão, um pastor, mas não durou muito tempo, acabei recaindo e retornei às ruas, contudo, não queria mais o mundo do crime. Certo dia, cansado daquilo tudo, fui a um posto de saúde e uma senhora perguntou se eu queria mudar de vida. Eu respondi sim, ela então ligou para o pastor Ivanilson Teles (da ‘Comunidade Geração Eleita’) e hoje encontrei realmente o que buscava. Aqui é uma nova chance, onde quem quer realmente pode encontrar libertação”, relatou.

OUTRO DEPOIMENTO

Elton Henrique Gomes, de 32 anos, também é interno da ‘Comunidade Geração Eleita’. Ele conheceu as drogas aos 14 anos, no Paraná, onde morava com a mãe. “Dentro de casa eu já bebia cachaça. Meus pais eram separados e eu morava com minha avó. Depois do álcool passei para a maconha e rapidamente evolui para a cocaína e crack”, diz, dizendo-se arrependido.

Quando se mudou para Rondônia, para morar com a tia, deixou parcialmente as drogas e passou a consumir álcool. Depois retornou ao Paraná, onde começou a trabalhar e a usar droga novamente. “Para sair do vício, retornei para Rondônia de novo, mas o resultado foi ainda mais catastrófico. Acabou meu dinheiro e fui morar na rodoviária. O pastor (Ivanilson Teles) passou duas vezes me convidando a buscar tratamento, mas relutei. Na terceira vez que ele convidou, resolvi aceitar. Hoje tenho orgulho de minha decisão, agora sou obreiro da casa e, daqui a cinco anos, me vejo resgatando vidas, fazendo o mesmo que fizeram por mim”, revela Elton Henrique.

O expressaorondonia está à disposição de outras entidades assistenciais e filantrópicas que queiram divulgar seus trabalhos…